Há alguns anos venho falando que as melhores bandas de rock da atualidade estão em peso na Bélgica. Recentemente, descobri mais um grupo que não deixa dúvidas que a produção local merece atenção.
O Triggerfinger é um trio proveniente da Antuérpia formado pelo vocalista e guitarrista Ruben Block, pelo baterista Mario Goossens e pelo baixista Paul Van Bruystegem. A banda faz um rock pesado que remete ao grunge, com riffs graves, vocais sujos e melodias bem elaboradas. Nos três discos de estúdio da banda, pode-se perceber também a influência de artistas como Led Zeppelin, Queens of the Stone Age, Bob Dylan e PJ Harvey.
O trio ganhou atenção da mídia local especialmente pelos seus shows enérgicos e envolventes, que costumam contagiar mesmo os que nunca ouviram falar da banda. Não é incomum o grupo roubar a atenção das grandes atrações nos festivais em que tocam pela Europa.
O álbum mais recente da banda, “All This Dancin’ Around”, foi gravado no famoso estúdio Sound City studio em Los Angeles, onde vários discos clássicos foram produzidos, incluindo “Nevermind” do Nirvana. Ao lado do produtor Greg Gordon (que já trabalhou com Slayer, Wolfmother, Soulwax e Oasis), o Triggerfinger compôs uma de suas melhores seleções musicais. O peso e a levada característicos do grupo estão bem representados em músicas como “I’m Coming for You”, “Let It Ride” e “Cherry”. Mas o leque de referências da banda parece estar mais aberto, contendo algumas faixas mais introspectivas e contemplativas, como “Without a Sound” e “All Night Long”. Já “Love Lost in Love” traz uma vibe bluesística e cinematográfica, enquanto “It Hasn’t Gone Away” fecha o disco com uma batida downtempo e uma melodia sexy. A crítica aprovou e o álbum acabou solidificando a base de fãs da banda.
Mas, inesperadamente, foi através de uma cover tocada na rádio que a banda conseguiu finalmente chamar atenção de um público maior. O grupo fez uma versão da música “I Follow Rivers” da cantora pop Lykke Li ao vivo em uma rádio belga em 2012 e a reação positiva à cover foi tamanha que eles acabaram lançando a canção como um single. A sessão de rádio em questão foi também incluída na íntegra como um CD bônus no mais recente álbum ao vivo da banda, o excelente “Faders Up 2”. O disco traz um setlist que passa pelas várias fases da banda, portanto, é um bom álbum para começar a conhecer o som dos caras. Além, do mais ele mostra o Triggerfinger no que ele faz de melhor: tocando ao vivo.
Eu não saio do carro antes que a música que estiver tocando termine. Pode estar caindo o mundo, mas considero qualquer interrupção da melodia um imenso desrespeito com o momento.
Nunca bebo meu café até o final: deixo sempre um restinho. Bebo, porém, várias doses de vodca ou tequila até que me inspirem a escrever alguma coisa que preste.
Sempre coloco o volume da TV, do rádio ou do som num número par. Neurose inexplicável, como a maior parte das neuroses.
Roubo beijos dos meus filhos quando estão dormindo. Afinal, não sei até quando terei este privilégio.
Falo sozinha, sempre que posso. Conversas infinitas e complexas, na maioria das vezes.
Escrevo poemas nos lugares e momentos mais estranhos, porque inspiração é inesperada e indiscreta, sempre.
Admiro enormemente as pessoas, conversas, situações, músicas, textos, filmes e lugares que me inspiram, mas guardo essa admiração só pra mim.
Me acho meio bruxa, porque tenho um sexto sentido que às vezes me mete medo. Uma bruxa boa, porém: no melhor estilo “O Mágico de Oz”.
Levanto pesos super pesados com a mesma paixão com a qual escrevo poemas, por mais paradoxal que isto possa parecer.
Detesto chimarrão, mas tenho um amor pela minha pátria rio-grandense que não cabe em um só coração. Infelizmente, este é o único que tenho.
Começo a ler revistas e jornais sempre pelo final, porque a ordem natural das coisas me chateia.
Amo comer, mas odeio cozinhar. Provo de tudo e não tolero preconceitos gastronômicos.
Adoro ouvir comentários elogiosos aos meus escritos. Considero-os como carinhos na alma.
Uso roupas novas no mesmo dia em que as compro, pois penso que o amanhã é teoricamente improvável.
Tenho medo de insetos tanto quanto da morte. A diferença é que dizem que a morte nos leva para um lugar melhor, enquanto os insetos apenas me deixam mais louca do que normalmente sou.
Leio quatro ou cinco livros ao mesmo tempo, e só termino os que de fato me furtam o coração. Nada mais insuportável que a auto-obrigação literária.
Sou extremamente organizada com meu trabalho e excessivamente preocupada com minha aparência, mas minha mente é um caos absoluto que só se acalma quando me ponho a escrever.
Não sou muito curiosa. Mas me satisfaço discretamente com a curiosidade alheia. Nada mais saudável.
Tenho em mim diversas forças que não se opõem, mas se contrapõem, numa dança insana que me tira constantemente do sério.
Temo tudo que sai minimamente da minha rotina e do meu controle, porém me deleito com todas as pequenas surpresas que a vida me oferece.
Sou escrava das minhas próprias regras e teorias, mas adoro discuti-las com quem se mostra interessado em ouvi-las.
Quando me apaixono por um poema ou por uma música, o leio ou a escuto até minha mente ficar bêbada de ideias. Gosto de colher os frutos depois.
Sou capaz de dizer um milhão de coisas, mesmo sem dizer nada. Basta saber me ler.
Morro de medo que descubram que sou tímida, super tímida, mesmo sendo capaz de me mostrar assim, tão completamente, sob os olhos de um poema.
Em 1993 eu tinha 15 anos e estava ingressando no Ensino Médio (na época a gente ainda chamava de Segundo Grau…). Era um momento de muitas mudanças, ainda mais para mim que estava também trocando de escola. Uma das novidades que o Ensino Médio apresenta para os estudantes são as aulas de Literatura. Lia-se, no Fundamental, mas era na aula de Português. Literatura mesmo, só no Ensino Médio. E dentre as felicidades que eu tive nessa vida, uma delas foi ter uma sensacional professora de Literatura. A professora Hilda, que recitava os poemas enquanto olhava para o teto da sala, colocava emoção em cada aula e quando descrevia um livro parecia descrever um prato de comida, me deixando sempre com água na boca e morrendo de vontade. A professora Hilda pediu como primeira leitura obrigatória do ano “O Continente”, de Erico Verissimo. Quando eu tinha 15 anos, caro leitor, não existia a internet (e sequer a TV a cabo, pelo menos na minha casa) e tínhamos tempo, muito tempo. Eu devorei O Continente. Pedro Missioneiro, Ana Terra, Capitão Rodrigo, Luzia Cambará, Dr Carl Winter, Bibiana Terra-Cambará… todos esses personagens tornaram-se figuras vivas para mim. Sem obrigatoriedade nenhuma, segui na leitura e encarei “O Retrato” e “O Arquipélago”, a sequência de O Tempo e o Vento. E segui me emocionando com Toríbio, Licurgo, Maria Valéria, Doutor Rodrigo, Floriano e os outros personagens de Erico, que fizeram o meu 1993 um ano de conhecer melhor a história do Rio Grande do Sul.
E eu contei tudo isso para quê? Calma, eu não esqueci que esse espaço é sobre cinema… Eu escrevi tudo isso para que vocês soubessem o tamanho do respeito e do carinho que eu tenho por essa obra. Quando foi anunciada a adaptação para o cinema de “O Tempo e o Vento” eu fiquei cético. E fiquei cético já de início porque “O Tempo e o Vento” não cabe num filme. Sequer, acho, “O Continente” cabe num filme. Meu ceticismo aumentou quando Jayme Monjardim foi anunciado como diretor do longa. Monjardim é diretor de um único filme (Olga, 2004) e de diversas novelas (destacando-se Terra Nostra e Pantanal) e séries (Chiquinha Gonzaga, A Casa das Sete Mulheres, Maysa…) para a TV. Quando Monjardim apareceu para o mundo, em 1990, Pantanal chocou pelas belas e longas tomadas da natureza, usando-a como elemento narrativo, muito além de uma moldura. A “preguiça” da câmera tornou-se uma marca registrada do diretor, assim como a habilidade de transformar toda e qualquer história em um melodrama de amor. Olga Benário que o diga, enfim.
Monjardim usa e abusa de tomadas abertas onde a natureza é maior do que as pessoas. Enfim, é lindo.
O que eu posso dizer sobre o filme? Bom, que ele não me surpreendeu. O filme é belíssimo. Monjardim usou e abusou das paisagens do pampa gaúcho para embelezar seu filme. Usar a tomada bem aberta com a natureza em primeiro plano e os personagens pequenininhos, ao fundo, é recurso que o diretor usa em vários momentos do filme. Visualmente o filme é um espetáculo, lindíssimo de se ver. Não só pela escolha das locações mas também pela produção caprichadíssima, começando pelas roupas e indo até a reconstrução de Santa Fé exatamente como descrita nos livros de Erico Verissimo. Destaque-se ainda algumas escolhas felizes para o elenco. Thiago Lacerda é a melhor delas. Seu Capitão Rodrigo é claramente inspirado no de Tarcísio Meira (que fez o papel na série de TV em 1985), mas consegue ser ainda melhor que o dele. Sorrindo e debochando o tempo inteiro, Rodrigo Cambará nos cativa e ganha o filme. A cena do duelo de adagas com Bento Amaral (onde ficou faltando “a perninha do érre!”) é a síntese do personagem: correndo perigo de vida ele não deixa de estar sorrindo o tempo todo. É muito difícil não gostar de Rodrigo Cambará e Thiago Lacerda colabora para isso, definitivamente. Um pouco abaixo dele Cléo Pires como Ana Terra, uma personagem introspectiva e difícil, também foi muito bem. Se o personagem de Lacerda lembra o da série de 1985 é impossível não dizer o mesmo de Ana Terra, que em 1985 foi interpretada por Glória Pires, com quem Cléo está cada vez mais parecida. Quem dispensa comentários, sempre, é Fernanda Montenegro. O recurso de usar a sua Bibiana já idosa como fio condutor da trama foi muito esperto por parte do diretor. Os diálogos dela com o falecido Capitão Rodrigo, uma liberdade poética, poderia ter sido mais utilizado para costurar melhor o filme.
Tarcisio Meira e Thiago Lacerda como Capitão Rodrigo: gostei mais do segundo
Cleo Pires e Glória Pires como Ana Terra
Se falamos no que o filme tem de bom… é inevitável conversar sobre o que ele tem de ruim. A escolha de Monjardim por um tom melodramático e romântico para uma história que é épica e pede para ser épica diminui muito do que o filme poderia ser. Ele se torna um filme de história(s) de amor. Ana Terra e Pedro Missioneiro, num primeiro ato, Bibiana e Capitão Rodrigo, no segundo (e melhor). Eu sou um defensor de que adaptações cinematográficas não devem nada para suas versões literárias e que podem (e devem) fazer modificações na trama para que ela fique melhor na linguagem do cinema, que é diferente da linguagem literária. A questão é que Monjardim e seus roteiristas (Letícia Wierzchowschi e Tabajara Ruas) ficaram no meio do caminho. Limaram quase que completamente “A Fonte”, o capítulo sobre os Sete Povos e que explica o personagem Pedro Missioneiro, e atropelaram “A Teiniaguá” com um desnecessário resumo de 5 minutos de uma das melhores tramas do livro. Se era para contar daquele jeito, não precisava, esse é o meu ponto. Além disso o filme se fez refém de uma história que é clássica e cheia de passagens conhecidas. A narrativa é que sofreu: alguém que não tenha lido O Continente terá uma dificuldade grande para encontrar o fio da meada, já que o que temos não é uma história propriamente dita mas quase um videoclipe com as melhores e mais clássicas cenas do livro, mas sem o “liame”, sem o elo de ligação entre elas. A exclamação “Rosa Mística” de Pedro Missioneiro, assim como o “muy lindo”, tem uma explicação na história, que não foi abordada no filme, o que deixa as frases do personagem soltas no espaço, sem sentido nenhum. A ideia de usar “O Sobrado” como elo de ligação entre as várias partes do filme, como faz Erico no livro, foi mal aproveitada. Se tivéssemos um pouco mais de “O Sobrado” durante o filme poderíamos ter uma linha mestra mais sólida (sem contar que poderíamos ter mais Maria Valéria, sua te(n)são com Licurgo, a pequena Aurora enterrada na caixa de marmelada…). Fico quase com pena de criticar, também, Marjorie Estiano, como a jovem Bibiana. O roteiro comeu toda e qualquer representatividade que seu personagem pudesse ter, tirando inclusive a maioria de suas falas. A Bibiana jovem é boba, a Bibiana idosa é quase senil. Perdemos, assim, uma das melhores personagens da trama, já que a parte em que a Bibiana adulta toma as rédeas da família foi transformada num resuminho de 5 minutos.
Bento Amaral (Leonardo Medeiros) e o Capitão Rodrigo (Thiago Lacerda) duelam por Bibiana
“O Tempo e o Vento”, portanto, tem problemas. Mas ainda assim é um filme lindo. Tem um primor visual e um capricho como pouco se vê no cinema nacional. Monjardim continua sendo muito bom em lidar com a natureza e integrá-la à sua obra. Sem sombra de dúvida que é um entretenimento bacana, mas tem esses problemas dos quais falei. Se não consegui me apaixonar pelo filme é porque sei que essa história é muito, mas muito maior do que o que o Monjardim conseguiu colocar nas telas. Culpa, no fim das contas, da Professora Hilda. Beijo grande, professora, e obrigado por abrir esse (e tantos outros) mundo(s) para mim.
Era 1993 e a maior banda do mundo estava preparada para gravar seu novo álbum. A expectativa em torno do sucessor de “Nevermind” era enorme então, para fugir de qualquer pressão, o Nirvana se trancou em um estúdio com o produtor Steve Albini e deu à luz uma obra prima que nomearam “In Utero”.
Rejeitando a atenção exacerbada em torno de sua pessoa e sua música, Kurt Cobain decidiu fazer um álbum mais cru e experimental, mas ao mesmo tempo doce e aconchegante. Um álbum sobre vida e morte, segundo ele, e sobre encarar uma vida saudável com sua família versus uma vida enfrentando doenças e vícios.
“In Utero” foi um disco polêmico antes mesmo de seu lançamento, pois corriam boatos de que a gravadora havia detestado o álbum e não queria lançá-lo. De fato, o produtor Scott Litt foi chamado para dar uma polida na produção suja de Steve Albini. Mas, no fim, poucas mudanças foram feitas, sendo as mais significativas nas músicas “Heart-Shaped Box” e “All Apologies”, que seriam singles. A produção conseguiu captar bem o caos de um show do Nirvana e as nuances ora sombrias, ora oníricas das composições de Cobain.
Eu lembro perfeitamente do dia em que comprei o CD e o coloquei para escutar em meu quarto pela primeira vez. Eu estava ansioso para ouvir as músicas que a mente de Kurt Cobain tinha gestado como uma resposta ao sucesso de “Nevermind” – pois é isso que esse disco seria. Ao soar o primeiro acorde dissonante que introduz o álbum, eu já tinha certeza de que aquela seria uma audição peculiar. Mas o monstruoso acorde parecia servir mais como um susto no ouvinte, pois em seguida entrava o riff melodioso, porém pesado de “Serve the Servants” com a melhor frase possível para dar início àquela nova fase do Nirvana: “Teenage angst has paid off well, now I’m bored and old” (A rebeldia juvenil me pagou bem, mas agora estou velho e de saco cheio).
Em “In Utero”, Kurt Cobain é o maestro do caos. Ele coordena uma sinfonia de guitarras e berros costurados por belas melodias e riffs mau humorados. Uma coleção de hits abortados e solos concebidos pela metade. Um aborto que se recusou a morrer, o filme B do Nirvana.
As músicas pesadas são barulhentas e experimentais, como a gritaria de “Scentless Apprentice”, os efeitos estonteantes de “Radio Friendly Unit Shifter” e o solo pra lá de “vai assim mesmo” de “Milk It”. O lado mais melodioso do Nirvana surge em faixas como o single “Heart-Shaped Box” e as baladas “Dumb” e “All Apologies”, que contam até com um cello. A faixa que mais se aproxima da sonoridade de “Nevermind” é “Rape Me”. Construída com os mesmos acordes de “Smells Like Teen Spirit” reordenados e em outro tom, a música foi anunciada pelo compositor como uma canção antiestupro. Mas a letra soa como se o próprio cantor estivesse sentindo-se estuprado pela mídia e pela exacerbada intromissão em sua vida pessoal.
O disco é também a despedida de Kurt Cobain, com um grande dedo médio em riste. Doença, maldade, machismo, tristeza, inadequação, sucesso, casamento, paternidade… Tudo isso desfila pela visão de mundo que Cobain nos apresenta até ele nos deixar de vez ao som do mantra final de “In Utero”: “All in all is all we all are” (No fim das contas, é tudo que nós todos somos).
Celebrando os 20 anos do álbum, uma edição deluxe com três CDs e um DVD foi lançada neste mês de outubro. O primeiro CD conta com uma versão remasterizada de “In Utero”, além de outras músicas gravadas na época: a viajante faixa bônus “Gallons of Rubbing Alcohol Flow Through the Strip”, os excelentes lados B de single “Marigold” (composta e cantada pelo baterista Dave Grohl) e “Moist Vagina”, a faixa secreta gravada para a coletânea “No Alternative” conhecida como “Sappy” (uma das melhores do Nirvana, certo?) e a música incluída na trilha do filme do Beavis and Butt-head, “I Hate Myself and Want to Die”. Alguns lados B ganharam novas mixagens, que funcionaram mais como remasterizações do que novas versões, o que é ótimo, pois ainda soam como as músicas que conhecemos, apenas ganharam uma verniz.
Fechando o CD, três versões alternativas de faixas do “In Utero”: a boa mixagem radiofônica do single póstumo de “Pennyroyal Tea” feita por Scott Litt, e as duas mixagens originais de “Heart-Shaped Box” e “All Apologies” feitas por Steve Albini, mais cruas e sem backing vocals ou efeitos de voz.
O segundo CD é definitivamente o mais esquisito dessa edição deluxe. As 12 primeiras faixas são uma nova mixagem do disco, chamada de “2013 Mix”. Basicamente, as músicas apresentam o vocal mais alto, as guitarras mais claras e perde-se um bocado da dinâmica. Ou seja, bem estilo 2000, mixagem para ser ouvida no carro ou nos iPods.
Em “Serve the Servants”, o que mais chama atenção é a curiosa opção de dar destaque à segunda guitarra durante o solo, ou seja, a guitarra que na canção original faz um “backing solo” está mais em evidência que a outra.
Já “Scentless Apprentice”, “Radio Friendly Unit Shifter” e “Milk It” acabam perdendo muito pela mixagem clara, pois são faixas pesadas e caóticas, portanto tornaram-se mais barulhentas, mas no mal sentido. Elas perderam o caráter “ao vivo” e ficaram com total cara “de estúdio”.
Em “Heart-Shaped Box”, os backing vocals aparecem bem mais destacados e o refrão está bem limpo, tornando esse mix o mais pop de longe. Eu tenho a nítida impressão que o Kurt Cobain odiaria essa mixagem.
“Rape Me” inicia sem a contagem na guitarra e tem a bateria mais presente. A guitarra dos versos está bem mais alta, perdendo significativamente a dinâmica.
“Frances Farmer Will Have Her Revenge on Seattle”, surpreendentemente, ganha uma boa dinâmica entre as partes pesadas e calmas. O único erro parece ser a bateria exageradamente alta na parte do “solo”, mas, no geral, essa é uma das melhores novas mixagens.
“Dumb” aparece demasiadamente limpa e sem o cello nos versos, o que não faz a música ganhar em nada.
“Very Ape” surge com mais destaque nas guitarras solo do que nos acordes, em uma versão mais barulhenta que a original, mas menos pesada.
“Pennyroyal Tea” ficou parecida com a mixagem feita por Scott Litt para o single da música, mas perdeu ainda mais a dinâmica.
“tourette’s” parece ser a única faixa que não teve o volume do vocal aumentado, talvez por conter uma letra inventada na hora no maior estilo embromation. Bom pra ela.
Em “All Apologies”, eu realmente não entendi o que tentaram fazer. A guitarra principal aparece bem baixa em contraponto à bateria alta. O vocal exageradamente alto fica descolado da canção, chegando a soar como se Cobain estivesse em um karaokê. Ficou limpo e entediante, possivelmente o pior mix da coleção.
As faixas que seguem são demos do disco, que são interessantes mais pela curiosidade de escutar as canções em processo de criação do que pela qualidade em si. “Scentless Apprentice” e “All Apologies” são as duas mais “concluídas” e as únicas a possuir vocal, ainda que letras incompletas. Cinco outras faixas aparecem sem vocais: “Frances Farmer Will Have Her Revenge on Seattle”, “Dumb”, “Very Ape”, “Radio Friendly Unit Shifter” e “tourette’s”.
A grande curiosidade aqui é a canção “Forgotten Tune”, uma música em processo de criação que acabou não sendo concluída e ficou de fora do álbum. Mas, tanto ela quanto a última faixa, “Jam”, acabam sendo apenas curiosidades da época e não exatamente novas músicas.
O terceiro CD, bem como o DVD, trazem um show gravado para a MTV na época do lançamento do disco. Pela primeira vez apresentado com todas as músicas tocadas, “Live and Loud” é um show bacana, mas com uma certa falta de pique por estar sendo gravado para a TV. Nisso, o CD acaba ganhando vantagem, pois as falas e os momentos de lenga-lenga entre as músicas foram cortados. De qualquer forma, o setlist é muito bom, passando por todas as fases da banda e uma apresentação do Nirvana é sempre digna de atenção.
All in all, a versão deluxe de “In Utero” é uma curiosa jornada pela criação de uma das obras primas mais subversivas da história do rock.
A de um coração aflito que quis pular pela boca
A da necessidade pungente do cuidado materno em um momento de carência
A da moça que achava que a culpa de tudo era da TPM
A de um bebê que poderia não ter nascido
A de dois bebês que nasceram
A de uma escritora madura descobrindo-se como tal
A de um aprendiz de dançarino que não tinha certezas
A da possível morte de um amor
A do carro arrombado na calada da noite
A de que mulheres podem ser lindas e inteligentes (ao mesmo tempo)
A da certeza de que uma vida solitária nem sempre é a melhor solução
A da menina da cidade que viajou em busca de aventuras
A do menino que vendia bandeiras de times no farol
A da PhD em Harvard que não sabia ensinar
A do cara que foi acordado às pressas pelos seguranças de um hotel qualquer da cidade
A das mulheres fortes e independentes que também precisam de carinho
A da constatação de que a solidão pode encontrar abrigo no improvável
A de que é preciso ajudar os amigos em conflito, sempre.
A de que a vida é apenas uma, e as pessoas se esquecem disso.
A de que o pôr-do-sol nao é mais o mesmo –
Misture tudo com algumas doses de vodca, e chegue a uma simples conclusão:
a de que já é hora de começar a primavera.
Maria tinha um pesadelo recorrente. Ela se tornava imperceptível aos outros.
Invisível. Ela estava no ponto de ônibus e um cachorro fazia xixi no seu
pé. Ela chamava o garçom e ele nem sequer a ouvia. Ela pegava a fila do
banco e as pessoas a empurravam para frente. Ela dizia algo durante a
reunião, mas as pessoas simplesmente falavam em cima dela. No bloco de
carbono, o que ela escrevia nunca passava para a segunda folha. Assim,
ela ia, aos poucos, sumindo. Num dia, lhe sumiam os dedos dos pés,
depois não precisava mais usar sapatos.
Maria precisava tomar uma atitude antes que sua existência se tornasse apenas história.
Maria sabia que era muito difícil mudar hábitos e costumes que faziam com que a pessoa criasse raiz.
Para ela era diferente; sempre fora pura leveza. Às vezes, tinha até a impressão que flutuava, ao invés de andar.
Maria encontrou sua cura.
Precisa arredar pé, e, só mesmo a terra que a unia às pessoas podia fazer com que ela fosse visível.
Não teve dúvida. Comprou um vaso largo e fundo. Também a melhor terra adubada que pôde encontrar.
E, no meio da calçada, se plantou.