A questão é que caminho:
e não é pouco.
Uma inabilidade natural de ficar estática
habita em mim.
Nem sempre fui assim, porém.
Houve um tempo em que sentava por horas,
contemplando crepúsculos de mel e baunilha,
de azuis, lilases, rosas e dourados.
E então agora as histórias ouvidas, vividas, experimentadas,
em mim se instalam, e aqui ficam, adormecidas,
mas agitando meu ser.
Enquanto elas não se libertam,
procurando abrigo nas minhas ideias desconexas,
para depois se transformarem em palavras escritas,
não sossego: sigo caminhando,
de um lado para o outro, incansável,
buscando explicações para perguntas aflitas,
que talvez jamais tenham resposta:
e é justo dessas ausências
que nascem meus mais belos poemas.
Para minha amiga Adriana Damus,
que outro dia me esreveu um bilhetinho.
Ah, as pequenas surpresas da vida…!
Cena: estacionamento do colégio dos meus filhos, manhã de uma terça-feira qualquer. Eu estou retornando de mais uma das reuniões para as quais eventualmente os professores convocam os pais em escolas. Olhando o relógio, apressada, como sempre, entro correndo no meu carro, dou a partida, e sigo em frente pelo caótico trânsito da cidade de São Paulo, fazendo mentalmente a lista do meu dia: “aula, depois outra aula, depois ainda outra aula, academia, almoço, passar na farmácia, outra aula, buscar as crianças na escola, levar no inglês e no ballet, ir para casa, tomar banho, dar jantar para as crianças, e, finalmente, última aula do dia, via Skype”. Pronto, check-list mental terminado, chego no meu primeiro destino do dia, aula. Ao entregar o carro ao manobrista, ele me fala, me entregando um pequeno papelzinho cor-de-rosa: “Moça, isto aqui estava no vidro do seu carro”. Eu olho o papelzinho, surpresa. E ele completa, “Incrível não ter voado com o vento!’. Eu concordo, e, curiosa, leio o bilhetinho, manuscrito, com bela letra feminina: “Beijos! Me liga. Dri”, acompanhado do desenho de um coração. Sorri, ali sozinha, em meio a pessoas passando, manobrista gritando, a vida fervilhando ao meu redor. Minha querida amiga Adriana, a Dri, havia visto meu carro estacionado na escola, e resolveu me deixar aquele simpático bilhetinho rosa, que me encheu de uma felicidade boba, uma alegria infantil de ter ganho um lindo presente…! Um simples gesto que mudou meu dia.
Um simples gesto que mudou meu dia e me fez pensar no quanto nos afastamos dos textos, cartas e bilhetes manuscritos. Onde foi parar nossa habilidade de usar a própria letra para a comunicação? Ah, leitores… Eu sei que a resposta é óbvia. Porém, a magia das palavras manuscritas é tão insusbtituível, que é duro pensar que ela acabou. Acabou, sufocada pelos e-mails e as imediatas mensagens via Facebook, SMS ou whatsapp, o atual “queridinho” da correspondência virtual.
O interessante foi que, naquela manhã, minha amiga poderia ter simplesmente pegado seu celular e me enviado mais um whatsapp rapidinho, aflito, parada dentro do carro. Mas, não. Ela se deu ao trabalho de pegar um pedacinho de papel, rasgá-lo cuidadosamente, escrever um carinhoso bilhete e deixar no vidro do meu carro. Um gesto de amor que não substitui, de modo nenhum, um e-mail ou uma mensagem de texto.
O bilhete da Dri também acendeu em mim alguns questionamentos, justamente sobre o modo pelo qual estamos enfrentando a avalanche de comunicações eletrônicas que temos que ler e responder diariamente – já falei um pouco disto em outra oportunidade aqui no P2, mas hoje quero abordar outro enfoque. Justamente pela rapidez e facilidade com as quais conseguimos enviar cartas, bilhetes e recados regularmente, todos os dias, diversas vezes por dia, tenho a impressão de que estamos, todos, aos poucos, enlouquecendo e ficando mais ansiosos, neuróticos e controladores! Ouço relatos de pessoas que não sossegam enquanto seu destinatário não responder suas mensagens. E a resposta precisa ser rápida, imediata, de preferência, em um período que não ultrapasse três horas! Pensam que, já que não tiveram resposta imediatíssima, não são amadas, foram esquecidas e que os pobres dos destinatários são uns mal-educados e sem um pingo de consideração…! E a situação se agrava quando o remetente descobre que o destinatário viu a mensagem e não a respondeu logo… Aí, a coisa é séria: o ódio ao destinatário é praticamente garantido, hehe…! Pergunto-me: será que estas pessoas não percebem que seus amigos, maridos, esposas, namorados, filhos, pais, mães e parentes em geral têm vidas ocupadas, trabalho, estudo, compromissos sociais, compromissos médicos, dirigem o dia todo pela cidade, enfim, que podem estar fazendo um milhão de outras coisas mais importantes do que responder imediatamente a sua bendita mensagem? Na maior parte das vezes, não é falta de educação, nem falta de amor, nem de carinho, nem de atenção e muito menos de preocupação, mas, isso sim, falta de tempo, apenas! Assim, eu digo sempre a todos os ansiosos remetentes de mensagens virtuais que relaxem e se acalmem, porque, por certo, a pessoa querida em breve irá lhe responder. A regra é básica, sempre foimesma, desde a época em que ainda não existia a correspondência virtual: se o seu interlocutor tem por você o mínimo de carinho, ele irá dar-lhe uma resposta. Melhor uma resposta que demore um pouco a vir, mas que venha com calma e amor, do que uma rápida e ríspida resposta no meio do trânsito, por exemplo, que, além de perigosa, pode ser mal interpretada.
E, enfim, ao sensível bilhetinho cor-de-rosa da minha querida amiga, eu respondi da melhor maneira possível: com uma demorada ligação telefônica (outra coisa rara hoje em dia!), em um momento bem tranquilo, em que eu tinha tempo para agradecer a ela, de todo o coração, a gentileza daquele gesto, que hoje me inspirou a escrever esta crônica.
“Kick-Ass – Quebrando Tudo” (Kick-Ass, Matthew Vaughn, 2010) foi uma das gratas surpresas de 2010. A HQ maravilhosa e insana do escocês Mark Millar, um dos mais elogiados quadrinistas da nova (já nem tão nova) geração, misturava em doses cavalares violência e humor, muitas vezes politicamente incorreto (o de verdade, não a babaquice travestida de humor que anda se fazendo no Brasil) e a escolha de Vaughn não poderia ter sido mais acertada. Vaughn tornou-se conhecido pelo seu trabalho como produtor em filmes como “Jogos, Trapaças e Dois Canos Fumegantes” (Lock, Stock and Two Smoking Barrels, Guy Ritchie, 2998) e “Snatch – Porcos e Diamantes” (Snatch, Guy Ritchie, 2000), nos quais essas duas características – violência e sarcasmo – também apareciam em doses generosas. Vaughn foi um dos responsáveis pela adaptação do roteiro a partir dos quadrinhos de Millar e teve uma feliz decisão de se manter o mais fiel possível à HQ. Uma HQ, a princípio, já é um storyboard. Se a história tem ritmo, se está bem contada, é só seguir dali e dificilmente erraremos. E Vaughn não errou. A escolha de elenco também foi acertada: Nicholas Cage, o cara que mais quer no mundo ser um super-herói é o próprio Big Daddy. Aaron Johnson como Dave Lizewski/Kick Ass foi outro acerto, apesar da falta de semelhança física com o personagem dos quadrinhos. E o golaço foi Chloë Grace Moretz como Mindy/Hit Girl. A menina, atriz mirim desde criancinha, tinha feito uma ponta bacana em (500) Dias Com Ela ((500) Days of Summer, Marc Webb, 2009) e explodiria depois de “Kick-Ass”, “Deixe-me Entrar” (Let Me In, Matt Reeves, 2010) e “A Invenção de Hugo Cabret” (Hugo, Martin Scorsese, 2011). A menina é extremamente talentosa e vai tomar conta de Hollywood nos próximos anos, mas foi com 13 anos que ela se tornou a Hit Girl e praticamente roubou o filme. A trama corre leve, os personagens nos cativam. Torcemos por eles, ficamos felizes com suas vitórias e apreensivos com seus problemas. Enfim, “Kick-Ass – Quebrando Tudo” (Ah, o infame “subtítulo” brasileiro…) é um filme divertidíssimo e que acerta o tom de filme de quadrinhos. Então, querido leitor, você se pergunta: “Por que o título da coluna é ‘que pena’, afinal?”.
Pois é. Tudo isso para chegar em “Kick-Ass 2” (Jeff Wadlow, 2013). Vaughn deixou a direção e assumiu o cargo de produtor, nomeando Jeff Wadlow como diretor. Wadlow antes de “Kick-Ass 2” havia dirigido apenas dois filmes, nenhum deles digno de grande atenção. Além da direção Wadlow também foi o responsável por adaptar o roteiro, mais uma vez a partir da obra de Millar, que já publicou “Kick-Ass 2” faz algum tempo. Fazer “Kick-Ass 2”, na verdade, era uma das coisas mais fáceis dos últimos tempos: era só repetir o que Vaughn havia feito e transpor os quadrinhos de Millar para a telona. Simples, né? Pois então, Wadlow conseguiu estragar tudo.
O roteiro de “Kick-Ass 2” vai do nada ao lugar algum. Pior do que isso, ele tira dos personagens justamente aquelas características que nos faziam simpatizar por eles. A maior das transformações de Wadlow foi a mudança no tom da relação entre Dave/Kick-Ass e Mindy/Hit Girl. Absolutamente desnecessário, a não ser para dar a Grace Moretz uma participação maior. Dave tinha, do outro filme, uma relação bem forte com Katie Deauxma, que Wadlow trata de tornar absolutamente sem importância acabando com ela em uma única cena. Uma das subtramas da HQ, o drama de Mindy enfrentando as patricinhas no Colégio, é resolvido de forma abrupta e ridícula, descaracterizando a personagem. A jornada de Chris D’Amico para se tornar o Mother Fucker, antagonista do filme, também é simplificada ao extremo e perde boa parte das sacadas bacanas da HQ. A formação da superequipe “Justice Forever” também acaba ficando forçada. O envolvimento de Kick-Ass com Night Bitch também é completamente injustificado, a não ser para tentar justificar certo ciúmes por parte de Hit Girl. Salva-se o Coronel Estrelas e Listras, vivido por Jim Carrey que sabe ser genial quando quer.
O humor sarcástico sumiu. Ficaram meia dúzia de piadinhas. A violência foi aliviada, claramente com a intenção de diminuir a recomendação de faixa etária e aumentar o público. A recomendação “16” já é alta, mas se subisse para “18” certamente o filme teria muito menos público, apesar de poder ficar melhor. Enfim, Wadlow erra a mão e nos entrega um filme que não tem a diversão e o envolvimento do primeiro. Voltando ao meu título, portanto: que pena. Que pena.
Dois acordes e um discurso. Lou Reed sempre apostou na simplicidade para compor, construindo uma moldura suficientemente sólida apenas para segurar o que realmente importava: sua poesia. O rock foi escolhido para ser o veículo de suas ideias, ora coberto com muita distorção, ora dedilhado com uma delicadeza silenciosa. O estilo inconfundível de interpretar suas letras deixava claro que, mais do que um cantor, ele era um poeta, declamando os seus escritos e revelando as histórias de personagens marginais e incompreendidos. Não é difícil olhar para o hall de personagens do compositor e enxergar o próprio Lou Reed.
O guitarrista parece ter sempre tido seu valor reconhecido anos após o lançamento de seus discos. O reconhecimento do Velvet Underground só veio depois de a banda terminar. Os seus primeiros álbuns solo foram recebidos com desdém para depois transformarem-se em clássicos do rock. Apesar de ser da mesma turma de David Bowie e Iggy Pop, por alguma razão, Lou Reed permaneceu sempre mais à margem que os seus companheiros. Reed foi sempre um outsider. Um artista cult, mas nunca aceito em sua totalidade pelo mainstream. E não que ele facilitasse qualquer aceitação. O músico sempre fez seu próprio caminho e nunca temeu fazer escolhas difíceis, adquirindo um gosto pelo subversivo. Essa autenticidade fez com que muitos músicos encontrassem em Reed a inspiração para que eles mesmos tomassem um rumo próprio.
Lou Reed tornou-se o pai do rock alternativo. Diversos artistas ganharam coragem para empunhar guitarras e formar bandas de rock onde pudessem cantar as suas verdades. R.E.M., Nirvana, Strokes, Violent Femmes, Little Joy, dEUS, Sonic Youth, creio que toda a nata da música alternativa tenha passado pelo incrível ritual que é escutar um álbum do Velvet Underground pela primeira vez.
Daqui para frente, consigo ver Hollywood produzindo uma cinebiografia e, aí então, quem sabe veremos Lou Reed finalmente abraçado por um público maior. Seu lugar entre os grandes ídolos do rock já está garantido. Mas não em meio a eles, é claro. Lou permanece sentado no meio-fio, em meio aos Severins e às Candies jogados na sarjeta.
Nas palavras do próprio compositor em ‘What’s Good’: “Life’s good. But not fair at all”.
Cerrou o punho e golpeou o parceiro, massacrando duas teclas brancas e um fá sustenido.
“O que houve aí em cima?”, perguntou a mãe do menino. “Nada!”, murmurou ele. Davi sentia-se frustrado com a sua aparente incapacidade de absorver as aulas de teoria musical. Seus colegas dominavam com perfeição (na verdade, não) a sequência de notas do modo lídio. Para ele, era grego. Queria ter a destreza de um Stevie Wonder ao piano, mas… sem tanta aula, por favor! Quando pediu para que os seus pais o matriculassem em curso de piano, não sonhava que música podia ser algo tão… boring. Foi depois de assistir um show do Jerry Lee Lewis na TV. O garoto ficou fascinado pelas melodias que o músico parecia criar com facilidade. Davi passou a se imaginar em um grande palco, fechando a noite de um Rock in Rio, com uma multidão gritando seu nome… Mas, na prática, sofria para tocar os poucos acordes de “Imagine”. Aí pensava em John Lennon e o via sentado ao piano, esmurrando uns bemóis. “O que houve, John?”, perguntava Yoko, preocupada. “Nada”, murmurava o músico. Ele provavelmente havia estudado bastante para compor aquela canção (na verdade, não). Mas que chato era aprender o lado teórico da música, era como transformar um show em uma aula de matemática. Blerg!…
Como em todas as situações em que se sentia inapto, Davi deixou a concentração cair no sono e sua mente pôs-se a viajar. Distante, ele viu-se como um super-herói a desferir golpes poderosos em um vilão bastante peculiar. O malfeitor em questão possuía uma cara quadrada e dentes pretos e brancos que faziam diferentes ruídos ao serem amassados pelo punho do mocinho. Em uma associação aparentemente livre – daquelas que só esses momentos viajantes proporcionam -, o garoto enxergou-se sentado em sala de aula, fazendo exercícios de matemática, escutando o discurso do professor sobre como a prática leva à perfeição. Logo em seguida, estava na festa da turma onde beijou pela primeira vez uma menina. Depois gastava toda a mesada em fichas de fliperama, avançando cada vez mais nas fases do jogo…
Sem perceber claramente a imagem que sua mente produzia com aquela colcha de lembranças, Davi pegou-se mastigando um pensamento que temia acreditar: não estaria ele eternamente sentado em uma grande sala de aula com lições para resolver todo santo dia? Um tema de casa atrás do outro, com soluções que só ele podia aprender a resolver. Quantos beijos e quantas fichinhas são necessários para chegar ao final? Quantos vilões ele ainda teria que derrotar? Se a cada beijo ele se aperfeiçoar, a solução é beijar! Se a cada jogo ele se aproximar do final, por que não jogar? Se a prática leva à perfeição, o que fazer para a vida melhorar? Mas o quão óbvio podia ser? Viver, ora bolas!
Quando despertou de seu transe, como se uma tal de epifania lhe tivesse gritado aos ouvidos, Davi percorreu, com os olhinhos curiosos da infância, as linhas retas e enigmáticas da partitura e pôs-se a tocar, com muita vontade e muitos erros, determinado e debochado, melodioso e atonal, uma canção que não era exatamente a de John Lennon, mas uma recriação muito particular, tão cheia de vida e tão sua, que, mal sabia ele, era a sua primeira composição.
Existem filmes que são sensacionais em função de um ator. Quem já assistiu “K-Pax: O Caminho da Luz” (K-PAX, Iain Softley, 2001), sabe do que eu estou falando: o filme é maravilhoso única e exclusivamente em função do que Kevin Spacey faz. Outros filmes marcam em função de um roteiro. “O Poderoso Chefão” (The Godfather, Francis Ford Coppola, 1972), com adaptação de Coppola para o livro de Mario Puzo, tem uma trama que nos envolve e faz querermos saber o que vai acontecer, independente do sensacional elenco. E existe um terceiro tipo de filme: aqueles onde nem o elenco e nem o roteiro são tão sensacionais assim, mas a mão do diretor faz a diferença. É nessa categoria que podemos colocar “Gravidade” (Gravity, Alfonso Cuarón, 2013).
O mexicano Alfonso Cuarón é bom diretor, e disso não se duvida. Tinha 40 anos quando ficou conhecido em função de “E Sua Mãe Também” (Y Tu Mamá Tambien, 2001), um interessante road movie que se passa no México e trata de temas como vida, amizade e sexo. Em 2004 Cuarón dirigiu o terceiro filme da série Harry Potter, “Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban” (Harry Potter and The Prisioner of Azkaban), sendo o responsável por uma mudança de rota do tom mais infantil dos dois primeiros filmes, ditado pelo diretor Chris Columbus, para uma batida bem mais sombria. Os fãs da série Harry Potter gostaram tanto do trabalho do mexicano que incomodaram muito os produtores para que Cuarón assumisse os filmes restantes do bruxinho (que foram dirigidos por Mike Newell (“O Cálice de Fogo”, 2005) e David Yates (“A Ordem da Fênix”, 2007; “O Enigma do Príncipe”, 2009, “As Relíquias da Morte Parte 1”, 2010; e “As Relíquias da Morte Parte 2”, 2011). Cuarón abraçou a ficção científica no ótimo “Filhos da Esperança” (Children of Men, 2006), no qual a humanidade luta para sobreviver num futuro distópico. O filme não foi um grande sucesso de bilheteria, mas teve críticas bastante positivas.
Buzz Lightyear, quer dizer, George Clooney, muito correto no papel de “velho caubói espacial”
“Gravidade” é um atestado de maioridade de Cuarón como diretor. Numa superprodução de orçamento de nove dígitos estrelada por Sandra Bullock (a queridinha da América) e George Clooney (o queridão da América) e cheia de efeitos visuais a mão do diretor poderia desaparecer. Poderia não haver diretor. Ou pior, o diretor poderia ser Michael Bay ou Roland Emmerich. E ainda assim “Gravidade” ia faturar milhões e milhões de dólares. Mas o filme consegue transcender, um pouco, sua dimensão Bullock-Blockbuster-Clooney. O roteiro (de Cuarón e de seu filho, Jonas) é linear e, a princípio, não oferece grandes surpresas. O filme destaca-se pela maneira como o mexicano decidiu conduzir a trama. Tenso do início ao fim, é daqueles filmes que nos fazem sair do cinema com o pescoço doendo. Há referências e homenagens lógicas a “2001: Uma Odisseia no Espaço”(2001: A Space Odissey, 1968), em especial no início do filme. Os giros dos personagens e das máquinas no espaço lembram muito o balé espacial de Stanley Kubrick. Os ângulos de câmera escolhidos pelo diretor nos jogam para dentro da tela e por vezes conseguimos enxergar o reflexo dos capacetes, como se estivéssemos dentro deles, em órbita, com Clooney e Bullock. Os dois, aliás, estão muito bem. É quase impossível ouvir o vozeirão de George Clooney e olhar para aquela covinha no queixo e não lembrar do maior astronauta da história do cinema (que é, obviamente, Buzz Lightyear), mas o personagem dele é exatamente aquilo que deveria ser: o velho astronauta terminando uma carreira e tentando minimizar, desde já, a falta que ele sabe que vai sentir da imensidão do cosmo. Um homem solitário cheio de histórias de festas mas sem nenhuma grande ligação pessoal e que tem como meta de vida bater um recorde para o qual o resto do mundo não dá muita importância. Uma vida vazia que, em seu final, ganha uma motivação extra: usar todas as suas forças para salvar a vida de Ryan Stone, a personagem de Sandra Bullock. A atriz não consegue, como em toda a sua carreira, ser mais do que esforçada. Ainda assim ela se sai bem no papel de protagonista e deve, provavelmente, ser indicada ao Oscar, mesmo que só pela cena da conversa com o radioamador Aningaaq.
Um dos cartazes que passa a sensação de agonia que temos tantas vezes durante o filme
Cuarón fez de “Gravidade” um filme que consegue ser tenso e bonito ao mesmo tempo. Há uma quantidade bastante grande de conteúdos simbólicos. A solidão do vácuo espacial é quase uma metáfora perto da solidão existencial pela qual passa a protagonista do filme. Após o acidente que encerra a primeira parte do filme a personagem de Bullock fica, por alguns instantes, perdida no espaço. O diretor consegue passar, em silêncio, a ideia de solidão e do pânico de perder-se na vastidão. A escolha, aliás, do silêncio para as cenas espaciais foi ousada e merece ser aplaudida, já que vivemos em tempos onde tudo precisa ser minimamente explicado para uma audiência com uma preguiça mental cada vez maior. Quando entra na Estação Espacial Internacional, quase sufocando, a Dra Ryan se dá conta, talvez pela primeira vez em muito tempo, de que quer viver. A sua luta pela vida é retratada por Cuarón quase que como um parto ao contrário: a luta para se livrar do traje espacial termina com a doutora flutuando em posição fetal, com direito inclusive a um cordão umbilical. A Dra Ryan Stone acabara de nascer de novo. A história de “Gravidade” passa a ser uma história de luta irracional pela sobrevivência: nas condições mais absurdas a Dra Ryan renasceu e ganhou uma segunda chance. Ela TEM que viver, mesmo que não consiga entender o PORQUÊ de ter que viver. A jornada de Ryan Stone em busca do sentido da existência tem seus momentos de dúvida, mas a solução deles vem no terceiro ato do filme, num pequeno deslize piegas da história, que retoma depois seu ritmo.
Sandra Bullock simbolicamente renascendo, depois de passar pela quase morte: daí para frente foram dois desafios: viver e encontrar um sentido para a vida
Cuarón conta essa história de busca de significância para a vida de uma maneira eletrizante. “Gravidade” não deixa de ser um thriller de ficção científica, e consegue sê-lo sem etezinhos verdes, sem monstros e sem espaçonaves de outros lugares. É um drama pessoal com tensão a cada momento e com um visual deslumbrante. Se você tiver a chance, não deixe de assistir “Gravidade” em alguma sala IMAX. O filme foi todo rodado em IMAX e feito para ser percebido em IMAX e em 3D. Claro que o filme não é “fisicamente perfeito”, mas há um esforço do diretor para torná-lo absolutamente crível. Impossível não citar, mais uma vez, “2001: Uma Odisseia no Espaço”, de Stanley Kubrick. Confesso que fiquei com uma pontinha de curiosidade para saber como seria o filme se o velho Kubrick tivesse, lá em 1968, a tecnologia cinematográfica que temos hoje em dia. “Gravidade”, além de um lindo filme, é uma bela homenagem a Stanley e sua obra-prima. Veja. Necessariamente em 3D, de preferência em IMAX.
Sentado numa cadeira, ele cruza e descruza as pernas. Com nenhuma elegância, repete a ação sem se preocupar em ser redundante. Demonstra seu desconforto em estar ali. Não porque não goste de olhar no olho – isso é coisa que faz bem demais, talvez porque estivesse procurando o olhar. Suas mãos deslizam por entre cabelos que imediatamente caem para o lugar onde estavam. E ele repete, mesmo sabendo disso, pela simples sensação que lhe traz. O conforto que lhe é conhecido. Suas mãos pequenas têm dedos delicados, e também neles é possível enxergar sua timidez. Fincados bem ao chão estão seus pés. Os vejo enormes, vestidos de sapatos pretos pesados. São sua grande afeição à terra. Em seu rosto se vê a intensidade de quem está prestes a rir ou chorar. Numa emocionante alternância.
De seu abraço, levo sempre comigo quando preciso de coragem para chorar.