por Clarice Casado Há em nós guardada uma dor despercebida desenganada desesperada. Que nos toma nos enche nos preenche Nos pertence Permanente Em nós guardada Não deixa Não desaparece Guarda-se Em nós Mantém-se Por todos os lados Em todas as frestas Nas noites suadas Em cada botão caído Nas janelas escuras Nos cadernos espalhados Na… Continuar lendo Ciranda
Autor: claricedc
Bissexta
Foto: Vanilson Coimbra A cada quatro anosMe dá uma vontadeLoucaDe pular do 366o. andarDe subir 366 degrausSó pra começar tudoDe novo
Noite
por Clarice Casado O menino que leu as páginas de Noite recém saídas da máquina de escrever do pai entrou quieto na sala lotada. Quieto e discreto. Discretíssimo. Sentou-se com calma, olhou rapidamente para a plateia de jovens aspirantes a escritores aflita por ouvi-lo falar. Foi umas das horas mais literariamente proveitosas da minha vida,… Continuar lendo Noite
Pre-Teen Blues
por Clarice Casado Estou cansado Estou com fome Estou brincando Tenho saudades Não estou nem aí Queria fugir Queria sair Queria ficar Vamos agora Não quero estudar Não quero ir pro banho Escovar os dentes nem pensar Me deixa me pentear Meu penteado é assim mesmo Começa a se acostumar Estou brincando Estou jogando Me… Continuar lendo Pre-Teen Blues
Sonho
"Todos os dias quando acordo Não tenho mais o tempo que passou Mas tenho muito tempo" Renato Russo Suava algo diferente quando despertou na manhã fria. Tinha sido o pior sonho. Sonho ruim é sempre pesadelo? Não queria se desprender dali, nem dele mesmo. Queria só desprender-se daquela avalanche de coisas que estava sentindo. "Acho… Continuar lendo Sonho
Estranha
por Clarice Casado Não reconheço meus pés minhas mãos meu rosto sem fim meu desejo de ser quem não sou.
Maio
Foto: Vanilson Coimbra Sentir seu corpo frio foi o pior. Reconhecia-o sempre pelo calor. Gelou. O que doía era não poder explicar. Ter que calar-se quando precisava gritar. Da multidão que chegava para olhar o cadáver dela, beijando-lhe ora a mão, ora o rosto, não queria nada. Não esperava nada. Não ouvia nada. Na lembrança,… Continuar lendo Maio
Mosca-morta
por Clarice Casado Levava bolada na cara, cuspe na cabeça, chute de tudo que era lado. João sofria, sofria, sofria. Caladinho, sofria. Era ignorado em casa. Zumbia. É, de vez em quando zumbia. Numa droga de manhã de segunda-feira, bateu as asinhas nojentas e voou pra sempre dali.
Bilíngue
Foto: Vanilson Coimbra Cansada estava daquele zumzumzum de sempre. Não podia existir língua mais monótona. Foi assim, sem muito querer, que conheceu Laura. Mergulhou naquela sala de metida, só porque sentiu um cheirinho irresistível de pão de mel. Ouviu a língua que Laura ensinava, parecia até um canto. Música doce. Ficava tonta. Voltou todas as… Continuar lendo Bilíngue
