
por Clarice Casado
Gabriel e Mario eram amigos.
Latino-americanos.
Dois grandes amigos que gostavam de escrever.
Conheceram-se por conta do ofício.
Escreveram muitas coisas lindas, diferentes, fantásticas, chocantes, sensíveis, exóticas, comentadas, recomendadas.
Marcaram épocas.
E ainda marcam.
Leituras obrigatórias.
Na América Latina e no Mundo.
Eram melhores amigos.
(Entre Amigos).
(Dicionário Amoroso da América Latina).
Um dia, há trinta e um anos, em um acesso de fúria, Mario feriu Gabriel. Socou-lhe o olho, que ficou roxo, roxo, marcado.
Foi abatido em público, em meio à uma première de um filme no México.
Marca deixada por um homem que sentia-se traído pelo melhor amigo.
(O Amor nos Tempos do Cólera).
Causa: uma mulher.
A mulher de Mario.
(A Linguagem da Paixão).
Consequência: final de uma amizade forte de anos e anos e anos.
Diz-se que nunca mais se falaram.
Gabriel quis documentar o fato (ou pós-fato).
Pediu a outro amigo que tirasse uma foto dele com o olho ferido.
E tirou duas, uma sorrindo, outra sério: largo bigode e olho esquerdo muito roxo.
(Viver para Contar).
(A Verdade entre as Mentiras).
Alguns anos depois, Gabriel ganhou o Prêmio Nobel de Literatura por seu Cem Anos de Solidão e Mario concorreu à presidência da República no Peru.
Permanecem escrevendo.
Desentendimentos à parte, podemos ter o imenso prazer de ainda ler suas grandes obras.
(Memória de minhas Putas Tristes).
(Travessuras da Menina Má).
