Sinto tua presença como a maré. No vento que levanta a areia, nas ondinhas que batem no pé. No salgado vai-e-vem das águas, és tu borbulhante. Impreciso, irritante. Improvável, mas constante. E é nessa brincadeira que me perco e caminho cambaleante. E afundo o pé na areia molhada só para te ver fugindo pelos meus… Continuar lendo A maré
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Ilustração de Cassiano Rodka
Fuga nº3: Chama
- Caiu. - Disse ele com ar de besta. A mãe, protetora como sempre, concordou e defendeu o pequenino: - Foi sem querer, minha querida. Mas a menina fitava fixamente a lareira. Enxergava os fios loiros de lã ardendo nas chamas, o petit pois do vestidinho transformando-se em um triste cinza e os olhinhos cor… Continuar lendo Fuga nº3: Chama
Fuga nº2: Céu
O balão era de um laranja tão vibrante que era impossível perdê-lo de vista. Metros e metros de uma subida incansável de um laranja risonho e debochado. Longos minutos de uma frustração berrante ilustrada pelos olhos molhados de uma menina. Imprimiu seu pensamento no vento, ferindo ardorosamente alguns ouvidos da terceira idade. E jurou vingança.
Calendário
Me cansa o calendário. Amontoado de compromissos mascarados. Em pele de dias, semanas e meses, prefiguram-se. Em números repetidos, espalham-se na quina da mesa. E me observam e riem baixinho, zombando da minha tamanha perda de tempo. Mas há de chegar o dia em que o dia não mais importa. E a folha arrancada amassada… Continuar lendo Calendário
Fuga nº1: Oceano
Largou o peixinho na água. – Vai. Tô te devolvendo pro mar. O bichinho nadou feliz em direção ao pôr do sol. (E, dentro da cabecinha da menina, rugia o pensamento: – Não volta mais aqui, seu filho da puta!...)
O entretempo
É como o espaço vazio entre o ponto final e a maiúscula da frase seguinte. Não tem nada ali, mas ele tem a sua função. Há alguma coisa naquele vazio. E nós todos, secretamente, sabemos. É ali que agora me vejo. Entre uma coisa e outra. Naquele exato momento em que uma porta se abre,… Continuar lendo O entretempo
