Sei que estou apaixonado quando te vejo piscar. Num simples e natural gesto, me ponho a sorrir. Vibro estupidamente com o teu desaparecer. O teu sorriso manso, o teu silêncio longo. Sei que te amo porque não tenho a menor razão para te querer. Num coçar de barba, num esticar de perna, num respirar, me… Continuar lendo Deixa estar
Tag: Cassiano Rodka (Literatura)
Encontrado na praia
Entre o mar e a cidade, havia um homem. Prostrado na areia, olhando adiante. Ele não estava aqui, nem lá. Habitava um não-lugar. Não era parte da paisagem urbana ou da metrópole do oceano. Os dedos dos pés agitavam-se entre os grãos, afoitos pelo movimento. A brisa batia leve, sem direção exata. O som das… Continuar lendo Encontrado na praia
A delícia do silêncio
Como um dia que termina Ou uma velha alpargata Você me corta Como uma roupa que não combina Ou um balde de lata Você se entorta Como um resto de serpentina Ou uma solitária serenata Você não importa Como é tarde, menina Ouço um silêncio de prata Você está morta
Ao alcance
imagem: Cassiano Rodka Quando alcanço a palavra, eu danço.Nem por mim, nem por você, pelo balanço.Como criança, eu perco todo o descanso.E vem a outra, e vem a outra, e eu tranço.Eu teço o texto e, ao vento, eu lanço.Quando amanheço, um sorriso manso.
Jardim de estátuas
Pouco importa o quanto tempo ficamos dentro da casa. Nosso destino ali era mesmo visitar o jardim. Quando nos libertamos daquele espaço fechado, fomos surpreendidos por uma grande área aberta com diversas estátuas. Havia um círculo de esculturas em tamanho real, homens e mulheres acinzentados, com expressões faciais quase nulas, leves sorrisos nos rostos no… Continuar lendo Jardim de estátuas
Permanência
Me corte um pedaço a cada dia Jogue em minha cabeça um balde de água fria E, antes que eu me aqueça, me negue alforria No suingue deste açoite, eu encontro a minha folia Traga sua nuvem, anoiteça o meu dia Desça o sarrafo e quebre os dentes da alegria Faça a sua marcha, era… Continuar lendo Permanência
Andorinha
Sem destino e sem comando Na beira do mar Eu ando
Moldura
À luz de vela, Minha sombra e a dela Em uma só aquarela.
Um novo ano
Espero há quase duas horas. Sentado em uma desconfortável cadeira, aguardo a vinda de uma enfermeira que parece a Bette Midler. Eu achei ela a cara da Bette Midler. A sala de espera parece ter uma mistura de pacientes, acompanhantes e crianças que não sabem bem o que estão fazendo ali. No ar, paira aquele… Continuar lendo Um novo ano
