
Sem voz,
pedi um microfone.
Sem olhos,
arrumei a partitura.
Sem dedos,
sentei-me ao piano.
Sem mãos,
regi a orquestra.
Sem entender,
todos me aplaudiram.
Site da escritora Clarice Dall'Agnol

Sem voz,
pedi um microfone.
Sem olhos,
arrumei a partitura.
Sem dedos,
sentei-me ao piano.
Sem mãos,
regi a orquestra.
Sem entender,
todos me aplaudiram.

Não gosto
de explicar
aos outros
os meus
gostos, mas
quando vejo
lá estou a justificar
o que para eles
parece desgosto

O seu mundo morre antes de você. Enquanto você envelhece, o que você ama vai ficando pra trás. Suas ideias modernas são chamadas de retrógradas. Aquilo pelo qual você lutou agora é de praxe. Ninguém mais nem agradece. O que para você parece que foi ontem aconteceu há décadas. Os nomes conhecidos que você cita ninguém nunca ouviu falar. Suas músicas preferidas não tocam mais no rádio. Aliás, que rádio? Suas roupas estão fora de moda – mas calma, que elas voltam. Em breve vão ser chamadas de vintage. Algumas coisas são cíclicas. Não você. Nem eu.
Termino meu monólogo e seu olhar só ri. Você levanta e me estende a mão – sem ela, eu não conseguiria. Damos os braços (algumas coisas não saem de moda) e costuramos a melodia daquela canção que ninguém mais sabe a letra. E nos pomos a passear. Rumo? É pros jovens. Nosso destino é qualquer lugar.

Eu quando fujo
penso em embarcar
sem destino
algum lugar
remoto
distante e exótico
busco refúgio
nessa viagem
dentro de mim

É como o último livro a preencher uma estante. De repente, olhamos para ela e a percebemos completa. Cada um dos exemplares enfileirados como se fossem palavras escolhidas a dedo para compor um poema. Tudo no seu devido lugar. O sentimento é gigante. É uma satisfação cachalote que nos enche de esperança. A possibilidade de ter cada uma daquelas páginas lidas – não por um, mas por todos nós. As traças vão aparecer novamente – não se engane. Mas eu (e você) vamos esmagar uma a uma, espanar o pó com gosto e admirar (hoje e sempre) aquela estante completinha.

Porque sempre estarás
em mim,
e eu,
sempre em ti,
respire hoje esses versos,
que me surgem alinhadinhos,
com clareza:
tu e eu invencíveis,
nas linhas invisíveis,
que nunca irão estar
– entre nós.

O tempo parou
minha mente
paira, o olhar fixo
parece perdido
estarrecida
fico, imóvel
imersa
pareço flutuar
no nada

“Sou mansa, mas minha função de viver é feroz”
(Clarice Lispector)
Um espelho não reflete o que não existe:
Me declaro mansa,
E então me contrarias,
dizendo que mergulhada em prazer,
de mansa nada tenho
(E eu gosto).
Balanço as tuas estruturas,
tal qual ventania vinda do sul,
Que afronta,
E tu enfrentas,
Mesmo sabendo que sou toda segredos e manhas.
Me dizes, porém, que a bagunça é sempre boa,
“Marasmo não faz bom marinheiro”.
Te ouço atenta,
(Minha mente já pressentindo versos).
Soprando em mim,
O poema vem com força,
Inunda-me
Preenche-me,
avassalador.
Escorre por todos os meus cantos,
Me deixa sem saída,
Saciada,
Me encanta,
Me encantas,
Te acolhe,
Te acolho
(E eu uso os pronomes do jeito que eu quiser).

Tua voz
faz poesia
na minha pele.
Dança
em cada canto
deste recanto.
Faz de segredo
o meu aperto.
Mata a fome
da minha
vaidade.
Cuida,
calada.
Grita,
inundando
este corpo lento.
Encaixa na minha
cintura fina.
E escapa entre
os meus dedos,
que seguem,
com sede.
De ti.
Ruído.
A voz.
Que faz de mim
abrigo.
Que toca minha
boca em nó.
E bagunça
este sorriso.
Fazendo
da gargalhada
ninho.