
Uma mulheres

Site da escritora Clarice Dall'Agnol



Rasgacabeza é o som de um incêndio purificador. É um coro de labaredas. É muro pichado. É o Prodigy caindo no funk carioca. É provocação. É música concreta com espírito punk. É Atari Teenage Riot com tambores de maracatu. É uma banda puta da cara. É hip hop com milonga. É uma convocação. Acorda. Reage. Te inflama.
Rasgacabeza é Francisco, el Hombre em seu auge, encontrando uma voz própria e a usando para gritar aos sete ventos que é hora de dar a cara a tapa. As músicas são um chamado à união e à resistência. O disco é um lança-chamas do início ao fim. A imagem do fogo é usada para ilustrar a necessidade de se acalorar com o que está errado no país e usar essa energia para nos impulsionar por um caminho melhor. O show faz jus às suas canções e incendeia a alma dos presentes.

O show de lançamento do disco no Cine Joia mostrou uma banda apropriadamente inflamada. Iniciando com a primeira faixa de Rasgacabeza, “CHAMA ADRENALINA :: gasolina”, o grupo se conectou rapidamente com a galera, que claramente estava ali para extravasar e tacar gasolina na monotonia. As músicas novas, que contém letras simples e diretas, já estavam na ponta da língua de todos. Rodas de pogo se formaram várias vezes, mostrando como o clima punk do álbum é inegável.
Todas as faixas de Rasgacabeza foram tocadas, dividindo espaço com canções do primeiro disco e do EP da banda. Trazendo uma mescla de vários ritmos latinos, como cúmbia, salsa e música cubana, as composições mais antigas serviram como uma ilha paradisíaca em meio ao caos, como a animada sequência de “Como una Flor”, “Liquidificador” e “Calor da Rua”. Não que isso signifique uma falta de viés político nas letras, que seguem soltando farpas, como no refrão contagiante de “Tá com Dólar, Tá com Deus”: “O dólar vale mais que eu. Eita! Fudeu! Vale mais que eu”.
Para entoar o hino feminista “Triste, Louca ou Má”, Juliana Strassacapa convocou todas as mulheres presentes para a frente do palco. Juntas, cantaram em coro os versos da música, dando uma energia master ao refrão “Um homem não me define, minha casa não me define, minha carne não me define. Eu sou meu próprio lar”. Arrepiante!
A interpretação de Juliana nos shows, aliás, é um espetáculo hipnótico. Com suas emoções à flor da pele, a vocalista nos envolve nas canções como se acolhesse a todos com uma colcha de melodias. Antes de cantar a delicada “O TEMPO É SUA MORADA :: celebrar”, ela dedica a música à mãe, dando um peso melancólico à letra ao entoar as frases “Se o vento te levou, o tempo é sua morada” e “Não vou esquecer, vou te celebrar”. Impossível você não ligar para a sua mãe depois do show.
O single “ENCALDEIRANDO :: aqui dentro tá quente” fechou a primeira parte do set com seu ritmo dançante que evoca disco/funk e mistura com trio elétrico e guitarras a la Santana, uma combinação perfeita do baixo pulsante de Rafael Gomes com as batidas energéticas de Sebastián Piracés-Ugarte e a guitarra minimalista de Andrei Martinez Kozyreff.
No bis, a balada industrial “PARAFUSO SOLTO :: ponto morto” ganhou versão acústica com Mateo Piracés-Ugarte no violão e Juliana Strassacapa soltando o seu gogó mais uma vez. Seguiu o discurso antifascista de “Bolso Nada”, que foi escrito antes do presidente ser eleito e hoje continua fazendo muito sentido. Mucho escroto!
O show terminou com Mateo descendo no meio do público para capitanear a coreografia do irresistível single “CHÃO TETO PAREDE :: pegando fogo”. O público todo dançou, suou e fez pegar fogo no chão, nas paredes, no teto e no palácio inteiro. No caminho para a casa, cada um de nós levou uma certeza: a chama foi acesa.
setlist:
CHAMA ADRENALINA :: gasolina
MANDA BALA FOGO :: não preciso de você
TRAVOU :: tela azul
Como una Flor
Liquidificador
Calor da Rua
SE HOJE TÁ ASSIM :: imagina o amanhã
O TEMPO É SUA MORADA :: celebrar
Batida do Amor
Tá com Dólar, Tá com Deus
Triste, Louca ou Má
ENCALDEIRANDO :: aqui dentro tá quente
PARAFUSO SOLTO :: ponto morto
Bolso Nada
CHÃO TETO PAREDE :: pegando fogo


Fui ao show do Fuerza Bruta e ele me mobilizou. É um show interativo, completamente diferente de tudo que eu já tinha visto – atenção, pois os spoilers começam agora!
Coisas acontecem de forma não prevista e impressionante, como aparecer uma espécie de piscina sobre a sua cabeça com mulheres dançando na água. É indescritível. Como qualquer show, ele é diferente pra cada pessoa que ali está. Por exemplo, eu fico fora da casa num show do Arcade Fire por milhões de motivos, mas já vi pessoas achando bem MEH – juro que dá uma vontade de dizer: “VOCÊ ESTÁ SENTINDO ERRADO”, mas né? Sempre penso também que a reação de cada pessoa ao show fala muito sobre quem ela é e do seu momento; e, como gosto de suposições, vou fazer várias baseadas nos tipos que vi.
Começo por mim, já que consigo falar dessa pessoa com (alguma) propriedade. Eu estou num momento de vida de espera, escutando meus pensamentos e sentimentos sobre pra onde caminhar. Estou aberta a todas as possibilidades possíveis e ligeiramente perdida. Mas tudo bem, uma hora me acho. Essa Brunna, então, foi ao show evitando todos os spoilers – e foram quase seis anos nessa tarefa árdua. Eu queria a surpresa, queria sentir tudo. Fiquei o mais próxima possível dos palcos, dancei loucamente, me molhei com os chuveiros gigantes e fiquei no mais absoluto silêncio digerindo tudo aquilo. Saí borbulhando!
Perto de mim havia uma pessoa que já tinha ido ao show da outra vez em que ele esteve em Porto Alegre. Essa pessoa estava absurdamente empolgada e comentava tudo o que acontecia, apontando o lugar onde ocorreria a próxima performance e verbalizando suas interpretações e as conexões realizadas com as metáforas trazidas pelo show. Era lindo, mas era ela. Ela estava preocupada em dividir a experiência, em externalizar aquilo tudo, talvez por conhecer mais sobre o espetáculo do que xs demais. Ou, ainda, por querer que xs outrxs vivenciassem aquilo como ela fez e que foi tão incrível. Sabe aquela pessoa que diz: “tu vai visitar tal lugar? Então tu TEM QUE ir num bistrô incrível na ruazinha tal onde eu comi o melhor risoto da minha vida”? Essa pessoa.
Teve, ainda, a pessoa que assistiu de longe. Não a vi, apenas escutei ela dizer, no momento em que a piscina baixava sobre nossas cabeças: “estoura! Estoura!”. É a pessoa da piadinha inconveniente, esse escudo para todos os males, pra quem o sensível é tão assustador que prefere ficar na concha. Essa vivência inusitada que sai fora do que eu conheço? Não, valeu. Prefiro ficar aqui fazendo comentários desnecessários para evitar que essa experiência me mobilize de alguma forma. E, bom, tem aquela que não tá na vibe. Que não tá acompanhando a cadência da música e pra quem o cara correndo na esteira não tem sentido algum. Ela já decidiu que dança contemporânea não é a praia dela, ela só foi por obrigação – tipo acompanhar mozão, ou algo assim. Ela está ali, apenas. Corpo presente, cabeça no que vai jantar depois.
Visto que esses perfis foram por mim inventados, existe uma chance absurdamente grande de eles não corresponderem à realidade – principalmente quanto às delimitações, pois acredito que tem pessoas que alternam entre um e outro num mesmo show ou que são um híbrido deles. Mas partindo do pressuposto de que eles são minimamente válidos, me surpreendi de conseguir transpor todos para o contexto escolar: aquele alune interessade pela descoberta, que quer ver o que vai acontecer ali; tem o que faz questão de explicar tudo a todes, na forma como elx entendeu; tem quem faça comentários desnecessários pelo medo de lidar com o que vem; e quem apenas tá ali porque é obrigatório, ou que acha que aquilo não é interessante mesmo. Obviamente que não só de alunes é feita a escola, mas há docentes nesses perfis também.
E o que podemos concluir dessa conexão maluca inventada que eu fiz? Que a sala de aula, como o show, é uma articulação muito complexa de coisas: alunes, docentes, ambiente, interesses, gostos, disposição, momentos de vida e tantas outras mais. E aí eu me pergunto: quem é que inventou que a mesma aula serve pra todo mundo em todos os contextos? O que é inegável é que a escola tem um potencial absurdo de mobilização, como um espetáculo. Talvez a gente só não esteja organizando o evento da melhor maneira. Ou talvez os artistas não sejam bons. Ou o ambiente não tá legal. Ou o tipo de show não seja o que mais te interesse. Mas já está na hora de parar de pensar que o problema é somente o espectador – ou melhor: pensar que alune é, somente, espectador.

A liberdade é um bem inquestionável? Vale abrir mão de tudo para ser livre? E quando esse “abrir mão de tudo” incluir abrir mão de ser você mesmo? Você abriria a mão de sua essência para ser livre? Você seria livre se para isso tivesse que deixar de lado aquilo que define o que você é?
Eu ainda não sei responder todas essas perguntas, que ficaram na minha cabeça ao sair do cinema depois de ter visto “Guerra Fria” (Zimna Wojna, Pawel Pawlikowski, 2018). O diretor polonês não é uma novato. Ele já havia feito o ótimo “Ida” (2013), vencedor do Oscar de filme estrangeiro em 2015. Em “Guerra Fria” Pawlikowski além de dirigir também é responsável pelo roteiro. A expressão “Guerra Fria” no título do filme pode fazer referência a várias questões: pode ser bem literal, uma vez que o filme conta uma história que se passa na década de 1950 na Polônia e retrata as questões políticas no Leste Europeu no conturbado período da bipolaridade mundial. Mas podemos também fazer uma interpretação mais livre e usar “Guerra Fria” para nos referirmos à relação entre os dois protagonistas, o músico Wiktor (Tomasz Kot) e a bailarina Zula (Joanna Kulig. Acho que vamos ouvir falar muito dela ainda).

Numa Polônia juntando os cacos depois da Segunda Guerra, o maestro Wiktor e sua esposa Irena (Agata Kulesza) fazem parte de um esforço para resgatar as canções e danças típicas do interior da Polônia, dentro de uma ideia de ajudar a construir um nacionalismo polonês. Ao mesmo tempo o projeto também servia para dar casa, comida e propósito para jovens talentos, num país arrasado pela Segunda Guerra. Quando a iniciativa, chamada Mazurka, começa a chamar a atenção dos governantes, que querem utilizá-la para fins de propaganda política, Irena, mais purista, acaba indo embora e deixando Wiktor livre para assumir seu envolvimento com Zula. A relação de Wiktor e Zula é carregada de uma tensão muito grande em função dos controles e espionagens políticas que existiam em toda Polônia, inclusive dentro da Mazurka. As apresentações do grupo fora da Polônia chegam a Berlim e ambos tem a oportunidade de desertar, mas as dúvidas e inseguranças de Zula fazem com que ela fique para trás e não acompanhe Wiktor. A partir daí a relação de ambos se torna idealizada: é perfeita, para ambos, quando não estão juntos. Nos momentos fugidios em que se encontram a paixão se mistura com a mágoa: a dele, por ela ter desistido de fugir; e a dela, por ele ter fugido sem ela. Quando ela vai morar em Paris com ele, a adaptação é complicada. O desconforto de Zula e a inadequação ficam ilustrados nas versões jazz das mesmas músicas folclóricas que Zula cantava na Mazurka: as músicas são boas, mas não é a mesma coisa. O desfecho (trágico?) do filme não poderia ser diferente para um casal que se ama perdidamente mas já não conseguem ficar juntos.

A direção de Pawlikowski é segura e sabe que história quer contar. Não por acaso o diretor levou a Palma de Ouro em Cannes. A direção de fotografia de Lucasz Zal (parceiro de Pawlikowski em “Ida”, também) opta pelo preto e branco, que reforça a dureza das pessoas, das relações, do mundo, da vida. O filme é tecnicamente muito bem executado e o que poderia ser um romance simplório numa série de reflexões sobre pertencimento e identidade. Até que ponto, enfim, estamos dispostos a abrir mão? Até que ponto devemos abrir mão? São as perguntas que ficam.



