Clarice Dall’Agnol

Literatura

Despedir

imagem: Isabel Dall’Agnol
imagem: Isabel Dall’Agnol

Teu olhar desanda.
E a boca se esconde.
E a vontade
se perde na distância.

Não há beleza
que te cubra.
Ou palavras
que te sorriam.
Ou mãos
que te alcancem.

O meu calor
tem sede.
O meu carinho
tem ânsia.
O meu gosto
te chama.

Esse agora
me dá medo.
O pensamento
faz-se ausente.
E aquele sonho
só ressente.

Meu corpo
cansou de pedir.
E essa tristeza…
Que tomou conta
dos teus lábios.
É a sobra.

Está frio.
Desatento,
aquece esse vazio.
Por último,
que suplico.

Aperta.
Toma.
Despele.

Nosso segredo
é pó.
Nosso balanço
ficou antigo.
Eu já não sou
abrigo.

O que dói
não te toca.
O que invade
te foge.
Eu já não sou
sorte.

Vago.
Retrato.
E recolho.
O que me resta
é o despedir.

Literatura

João e Maria

imagem: Cassiano Rodka

(Escritora convidada: Heloísa Contrera)

João amava Maria.
Só não pensava no que ela queria.

João amava Maria.
Só não gostava do que ela vestia.
Só se queixava quando ela saía.

João calava Maria.
Cada vez menos ela entendia.
Por qualquer coisa ele discutia.
Só era amor demais, ele dizia.

João atava Maria.
Não era sempre, só quando bebia.
Não era nada, quase não doía.
Depois aquilo virou todo dia.
Quando marcava ela escondia.

João matava Maria.
Mas já não era a única Maria.
E volta e meia uma voz se erguia.
E cada vez mais longe se ouvia.
E cada vez mais gente se unia.
Gritando o horror daquela covardia.

Uma por nós e todas por Maria.

Literatura

Lua em Escorpião

imagem: José Calimero

Nítidos lábios
Em delírio onírico,
Descompassados,
Passados a limpo,
Em preto e branco,
Ou em múltiplos tons
de incertezas
(Sem dúvidas?).
Alma despregada do corpo,
Buscando a tua.
Me penetras com teus olhos,
Me consomes, inteira.

Te desvendo em poucas palavras:
Manténs o controle,
para que tenhas apenas paz
e noites bem dormidas.
Ao rumo de ti mesma,
sigas.
Ao que te apraz,
Em todos os mínimos detalhes.
Danças magnânima,
Magnífica,
Sanguínea,
Envolta em teus véus de Vênus.

Literatura

Tatuagem

imagem: Isabel Dall’Agnol

Sinto falta do quarto
de paredes verdes.
De saber que
eles estavam.
E elas,
também.

Sinto falta do gelado,
batendo nos dedos dos pés,
quando era início de primavera.
E das fotografias
no mural.

Sinto falta do brando,
deitado na cama.
Da pipoca doce
entre as mãos.
E dele…
Indo e vindo…

Sinto falta
da música.
Da fantasia.
Do sonho.
E do tempo…
O tempo…

Sinto falta daquele
cinema.
E dos desatinos.
E do compromisso.
Na constante
da constância.

Sinto falta
daquele eu.
Eu que fazia.
E dizia.
Eu que
me despia.
Eu que
me mirava.
Eu que
me valia.

Sinto falta
do silêncio.
E do barulho.
Daquele barulho.

E da calmaria da alma
jogada no tapete.
Dos planos coerentes
e incoerentes.
Do desenho
borrado.
Da imagem
que beijava o espelho.

Sinto falta
de mim.
De ti.
De nós.
Deles.
Delas.
De todos.
De tudo.

E, eu,
aqui.
Refúgio.
Isolada.
Atirada.
Tapada.

Descobri a
descoberta.
Paciência.
É pouco.
Mas ainda vai…

E o tesouro?
O desejo?
O medo…

O maior
dos amores…
Que me sugou
a alma…
E derreteu
a insanidade…

Ele que mudou
o tempo.
Ele que tudo
faz mexer.

Ele é o tudo!
Misturado.
Molhado.

Excita.
Invita.

Descobre
e cobre…

É lama
na cama.
O seco
em balde.
O sentido
sem sentido.
Me preenche.
Me esvazia.
Sou sua.

Pássaro.
Sempre
será.

Presa em ti.
Liberto
em mim.
Somos dois
em um só?

Eterno.
Cicatriz.
Tatuagem.
Não tem fim
este fim.

Literatura

Ferida

imagem: Isabel Dall’Agnol

É vai
e vem.
Sinto-me
presa na
tua presa.
E não
escapa.
Nunca.
Dói e
suga.
Suja.
Isso tudo
me corrói.
E me cospe.
E me engole.
E me esvazia.
É trago na
mente.
Trinca os
dentes.
Suplico que parta
de mim.
Que hesite.
Já não existe.
E volta,
dando a meia volta.
Pare de gastar.
Pare de exagerar.
Pare de revirar.
Grite.
E derrame.
Toca que
rompe.
Desperta que
fere.
Caminho que
raspa.
Anoiteceu meu
âmago.
Não foi um
engano.
Aqui,
crua.
Perdida.
Roubada.
Amansa
a minha carne.
E apaga a luz.
Estou a destruir.