Clarice Dall’Agnol

Literatura

Meu manifesto

imagem: Cassiano Rodka

por Tamiris Pazin

Fica decretado o seguinte:

Que a gente possa sentir toda dor que invariavelmente nos visita. E que a gente possa abraçá-la. E deixá-la ir.

Que a gente possa querer perto da gente somente quem não nos desestabiliza.

Que a gente possa ver coragem no excesso do sentir. E que isso seja dom. Seja encantamento.

Que a gente enxergue as pegadas iluminadas que nos guiam para o caminho de volta. E que a gente sempre encontre o caminho de volta.

Literatura

Menininha dos olhos negros

imagem: Isabel Dall’Agnol

Menininha dos olhos negros,
Por que te escondes embaixo da mesa?
Não há mal algum em chorar.
Não há do que se envergonhar.

Menininha dos olhos negros,
Para que tanta solidão?
És tão pequenina e já
sentes tantos temores…

Menininha dos olhos negros,
Tu não imaginas quão preciosa é
tua vidinha desocupada.
E quão poderosa é
a tua inocência.

Menininha dos olhos negros,
Não mentirei para ti.
A vida é dura, exatamente
como tu pensas.

Mas não te preocupes,
menininha dos olhos negros.
Guarda os teus sonhos na tua
cabecinha pura.
E preserva cada rosa,
que te acompanha.
E as ame, com infinita liberdade.

Assim, menininha dos olhos negros,
Ainda que penses ao contrário,
nunca estarás só.

Mas não te esqueças,
menininha dos olhos negros.
Procura desfazer-te desse
semblante aflito.
Eu sei que será difícil.

Literatura

Vicente

imagem: Isabel Dall’Agnol

Tinta não mão
Pingo no chão
Sorriso sapeca
Menino peteca
Cabelo de ouro
Reluz em tesouro
Olhos de mar
Persigo teu andar
Lábios de coração
Dorme em canção
Beijo de leite
No meu peito se deite
Teu calmo cafuné
Me aquece em fé
Pequeno da sorte
Protejo teu norte
Até o dia…
Em que desate
tuas asas em arte
Eterno será teu reflexo
no meu lar complexo

Literatura

Lilith (Ou A Constante Tempestade Dentro de Mim)

imagem: Cassiano Rodka

“Her castles shall be overgrown with thorns, her fortresses with thistles and briers. She shall become an abode for jackals and a haunt for ostriches.” (Bíblia Judaica, Livro de Isaías, 34:13)

Na terra das sombras,
da sabedoria
e das palavras não-ditas,
ficas.
(Não moras, deixa-te estar)
Demônio da noite,
És toda pensamento
És pecado (e virtude)
És o que ninguém sabe definir.
Da mesma matéria dele feita
(Porém também outra)
E da recusa em ser diferente,
Surgiste soberana,
Inefável.
Guardas
E aguardas.
Só quem espera
deita serena.
Queres tanto quanto eles,
E o querer transforma-se em agir,
Porque és dominante.
E sabes dos outros calçar os sapatos.
Porque tens asas,
Sabe que não te serve o claustro.
E desejas ainda mais.
A carne manchada de tinta.
Tua marca.
Devora-me se puderes.