Clarice Dall’Agnol

Literatura

A praça

imagem: Isabel Dall’Agnol

Gira, ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
gira.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Vai e⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
vem.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
É feito roda⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
gigante. ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Um carrossel⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
constante. ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Escorrega. ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
E fica ali,⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
dentro da caixa ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
de areia.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Até parece que ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
nunca vai sair. ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
A gangorra sobe⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
e desce.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Sem cessar.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Sem reclamar.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Mas será… ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Que ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
não se cansa? ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
E a grama? ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Sempre pisada.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
E as flores?⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Muitas vezes arrancadas.
E as pedrinhas?⠀
Arremessadas acabam
por separadas. ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Mas, sim, ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
sempre há ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
gargalhadas.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Sorrisos e⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
alegria.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Vibrando energia.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Para que, ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
assim,⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
no novo dia,⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
a infinita ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
repetição ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
insista. ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Incansável.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Mesmo quando⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
aflita.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀

Porque é assim…
Nessa cadência
bonita.
Onde o enigma
se deita, em
beijos e tormentas.
Como há de ser,
nesse lindo viver.

Piras

Promessa

“O céu é só uma promessa, eu tenho pressa, vamos nessa direção” já cantavam os Engenheiros do Hawaii. Promessa: afirmativa de que se dará ou fará alguma coisa; compromisso oral ou por escrito.

O problema da promessa é que ela é anacrônica. Estou eu, aqui, prometendo algo que será feito mais adiante por uma Brunna que talvez nem ache que esse troço ainda faça sentido. Nas palavras de Radiohead: “eu vou ser sua força, sua esperança, mantendo sua fé quando ela for embora”. Honey, e se você não quiser ser mais isso? Mas talvez esse não seja o melhor exemplo porque na mesma música diz que “eu prometo não fugir mais, até mesmo quando o navio estiver quebrado, me amarre ao deck podre”. Ãhn?

É aquela máxima: “quando eu passar no vestibular, eu vou cortar o cabelo” ou “se eu passar no vestibular, não vou cortar o cabelo por um ano”. Ou ainda: “esta semana eu não vou mais beber meu vinhozinho depois do expediente”. Aí o seu eu do futuro fica POR QUE VOCÊ FEZ ESSA PROMESSA? ELA NÃO TEM MAIS SENTIDO! FODA-SE! NÃO VOU CUMPRIR. Nessa hora bate aquela dúvida: será que o universo vai me punir por isso?

O problema da promessa é que ela é ignorante. Fazemos uma promessa acreditando que ela PODE ser cumprida, mas muitas vezes nem sabemos a real aplicabilidade dela. É o famigerado “eu prometo que vai ficar tudo bem”. Ah, claro, porque você, alecrim dourado, conhece e controla todas as ínfimas variáveis desse universo para garantir que “vai dar tudo certo”. Cê não tem como saber isso. A promessa envolve outras pessoas, sistemas, organizações e até mesmo a banda When in Rome, que eternizou uma música sobre promessa, esqueceu dessa parte quando dizia “eu prometo que você vai se apaixonar por mim”. kkkkk

Se a gente realmente tivesse certeza de algo, a gente chamava de plano/meta/objetivo e não promessa. Quer melhor exemplo que promessa de campanha que depois se percebe que não tem como cumprir? “Enquanto o sistema só tá prometendo, por lá as nota voa e faz elas correr atrás, então avisa pra mídia: a quebrada tá no ar. O que eles promete não é o que chega pra cá”, já diria o MC Leozinho.

O problema – e a delícia – da promessa é que ela é ilusória. Beeeem no fundinho, a gente sabe de tudo isso que eu falei, mas o gostinho que a ilusão traz às vezes fala mais alto. Não estaria o erro da promessa em condicionarmos nossas decisões ao fato de que ela realmente vai acontecer? Ou talvez o problema da promessa não esteja em quem faz – que, por alguns segundos, tem fé de que pode cumprir – mas em quem acredita.

Então, jovem, prometa. Prometa muito. E acredite também. Acredite por alguns segundos que vai ficar tudo bem, que o amor é eterno, que você é única, que aquela verba será destinada, que você vai deixar de controlar tudo, que você vai realizar os planos deste ano. Às vezes a gente só precisa de um pouquinho de ilusão – a realidade, cheia de frustrações, a gente deixa pra outra hora.

Literatura

Promessa

imagem: Isabel Dall’Agnol

Teus olhos vívidos
derramam pureza e inocência.
Tua pele firme revela
que, simultaneamente,
és o oposto da fragilidade
que escancaras no rosto.
És, claramente, mais complexo
do que pensas.

A areia e o mar implicam
no quadro perfeito da tua beleza.
Não foi à toa que escolheste
a praia como o teu refúgio.

Não resisto aos sinais
que cobrem os teus ombros morenos.
Não me canso de assistir
as tuas mãos dançarem no ar
enquanto soltas tuas prosas.
Não me esqueço daquela noite
em que sopraste as palavras certas
na minha boca.

Eu sei que é por amor
que queres podar as
minhas asas.
Mas não te esqueças que
também é por amor que
quero libertar as tuas.

E se algum dia eu te perder,
sei que posso encontrar-te
em cada verso e nota
eternizados por um Beatle.

Engana-te
pela minha trança,
meu caro.
O príncipe dos
contos de fadas és tu.
Promete-me que
jamais pensarás
o contrário.

Literatura

Churrasco

foto: Isabel Dall’Agnol 

Ao meu querido tio Tonico, que me ensinou muito sobre o churrasco e deixou seu sabor em todos os outros que experimento.

Luz apagada.
E a menina canta
por sua mãe
de dentro do saco
daquele velho
que mete medo.

E a formiga,
que foi malcriada,
teve qual fim
no fim?

Silêncio no
fundo do mar.
E como é que ele
consegue aguentar?

E os beliscos…
No meu nariz.
Nos seus dedos.

Dedos que
balançam.
Dedos que
dançam.
Dedos que se
encontram.

A gargalhada
é alta mesmo.
E o escambau.
São histórias
e historietas.

Ele sempre
preenche.
E se faz
presente.
Ainda quando
ausente.

Porque a carne
ainda pinga.
No fogo,
que arde.
Na cinza,
que invade.
Na noite,
embaixo das uvas.
No dia, em
uma garagem.
Em um salão.
Em um saguão.
Em todo canto,
mesmo de canto.

Sim, o cheiro
do assado…
É o aroma
que nos une.
Para sempre.

E que vejo.
Em mim.
Naquela
criança.
E nesta
também.

É o espelho.
Dele.
É aquele
que sempre,
para sempre,
se fará
em mim,
presente,
por sua presença,
ainda que ausente.