Clarice Dall’Agnol

Literatura

Correspondências

correspondencias

por Marcella Marx

Abriu a carta com tanta vontade que rasgou-a ao meio. Com as mãos trêmulas juntou as duas partes e começou a balbuciar o que lia:

“João,

Queria que fosses o primeiro a saber, a ouvir de mim a verdadeira história, para que não chegasse a ti por bocas estranhas, para que só tu pudesses recontar como realmente tudo foi e é. Se me despeço de ti hoje é porque aconteceu o que eu queria. Estou feliz e em paz.

Sempre te disse que minha obstinação pela personagem me levaria a esse lugar e estava certo, mas prometo, não me arrependo. Ela precisava ter um fim, afinal todas as histórias têm fim. Lutava com ela há algum tempo e foi quando percebi que nossos caminhos estavam irremediavelmente entrelaçados e, do meu fim, dependia o dela.

Sinto que não possa estar aí ao seu lado, bebendo um bom vinho para discutirmos se foi como você esperava, (espero que não, pois o bom escritor deve surpreender) ouvir seus comentários, debater, como sempre fazíamos. Paciência.

Agradeço amigo e me despeço agora ‘oficialmente’ e sem pesar.
Nos encontramos…

Vinicius”

João tirou os óculos e enxugou a lágrima que escorregava em seu rosto.

Literatura

Dia dos namorados

diadosnamorados

por Clarice Casado

“Ao verme que primeiro roeu as frias carnes do meu cadáver dedico com saudosa lembrança estas Memórias Póstumas.”

“Memórias Póstumas de Brás Cubas”, Machado de Assis

O que eu mais gostava nela era do jeito que passava pelas prateleiras de best-sellers. Sem virar o rosto, firme, exibida, com aquela certeza forte de que nada ali tinha utilidade alguma. Se me chamasse no meio da noite para um encontro no pior restaurante da cidade, eu iria. Para mim, era só ela. Ela não sabia, nem entendia, nem fazia a menor ideia do tamanho da minha obsessão. Quieta, calada, velada. Escondida. Ferida, até. Fazia que não via. E eu sabia que via.

Um dia, nossos mundos desmoronaram e ela resolveu finalmente olhar para mim. Eu não acreditei muito naquilo, mas ela quis casar comigo. Ficamos casados por mais tempo que muita gente vive.

Durante cinquenta anos, entre viagens, filhos, cartas, brigas, netos, beijos, reconciliações, Natais, verões azuis e invernos turbulentos, loucuras e surpresas, enchi seus dias com presentes. Sempre. Podia haver motivos. Ou podia ser só porque eu tinha vontade. Era só ela.

O que eu não esperava era morrer. A gente nunca espera. Mas morri.

Podia ser uma segunda-feira qualquer. Com todos os encargos, preguiças, lembretes e chatices de uma segunda-feira qualquer. Uma única diferença: eu não estava nela. Morri no sábado. Dois dias atrás, portanto. Morri, mas não perdi a noção de tempo. Eu que sempre adorei sábados. Estraguei o sábado de todo mundo.

Morrer é um pouco perturbador. E eu nunca tive medo de morrer. Ainda estou meio perdido. Mas tem suas vantagens. Olhar tudo de cima. Que o diga muito melhor que eu Brás Cubas. Li na escola, e sempre achei que aquilo era o melhor que poderia acontecer a um sujeito depois de morrer: ver tudo. Tudo. E contar a sua versão. Eu não lembro direito do romance, porque, como disse há pouco, li faz muito tempo. Não sei se há na narrativa póstuma detalhes das coisas que acontecem por aqui. Eu também não vou contar nada, não vou ser eu o primeiro cara a fazer isto, mesmo porque nem sei se é permitido. Ainda sou novato. Novatos não arriscam, isso pode perturbar os veteranos. Eu sei que existem uns superiores. Ouvi dizer. Só conto uma coisa, uma notinha curiosa: as verdadeiras nuvens do Paraíso são mesmo de algodão. Os meus netos iam adorar saber disso. Essa é uma das coisas chatas desta viagem. Não posso voltar, e nem levar fotos de nada para ninguém. Nem presentes. Nem para ela nem para nenhuma pessoa viva. Se bem que parece haver um esquema de poder contar coisas em sonhos, para os que ficaram. Mas neste momento isso não me importa muito. Vejo tudo depois.

Eu só sei que hoje é segunda-feira. E é Dia dos Namorados. Isso é o que importa. E eu só sei que a minha amada, minha querida, minha companheira de sempre e para sempre vai chegar em casa daqui a pouco, ela vai chegar em instantes, seu rosto está sério, está mudo, é o rosto que sempre amei, mas está diferente. Ela vai abrir a porta, vai entrar na nossa sala, e em cima da mesa vai haver para ela um buquê de orquídeas. Eu só sei disso. E sei disso porque fui eu quem mandei. E não me peçam mais explicações. Apenas aproveitem o momento. Vocês, simples mortais.

Literatura

Texto em lá menor

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imagem: Cassiano Rodka

por Cassiano Rodka

Amor não se mede em litros ou joules. Amor se mede em metros. Melhor ainda, em quilômetros. A distância é a responsável pelo amor, quiçá, sua parideira e ama-seca. Ver, tocar, nada disso é o objetivo. São preliminares. Falsos alarmes. O amor mesmo está do outro lado do muro. Na ascendente do precipício. Precisa-se esticar o braço, dar o pulo, alongar a perna. A batida do meu coração reverbera os teus passos em direção ao infinito. Então segue a tua estrada contrária. Mas saiba que, a cada passo, a cada metro, meu amor cresce e meu coração dilata. Traça teu destino, mas não seja bobo. Que nessa distância, e a essa velocidade, já sou teu desde o início.

Música

A doce solidão de Marcelo Camelo

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por Cassiano Rodka

Pontualmente às 21h, Marcelo Camelo entrou sozinho no palco do Teatro do Bourbon Country sob uma chuva de aplausos. Sentou-se em um banco, pegou o seu violão e começou a dedilhar as notas de “Passeando”. O público, em silêncio, ouvia o cantor dar o tom de seu apresentação: um show intimista, emocionado e descontraído.

O tempo que o Los Hermanos está dando parece estar fazendo muito bem ao compositor, que demonstrou estar muito à vontade com essa forma mais tranquila de apresentar seu repertório. Variando entre performances solo ao violão e outras ao lado do Hurtmold, sua excelente banda de apoio, Marcelo tocou todas as músicas que compõem o seu primeiro trabalho. O dueto com Mallu Magalhães, “Janta”, não teve a participação da moça, mas, em compensação, teve um entusiasmado acompanhamento do público, que entoou toda a letra com Camelo, provando ser essa uma das canções mais assimiláveis do novo álbum. “Doce Solidão”, uma das minhas preferidas, fez todo mundo assobiar junto a melodia da música e, aos poucos, o silêncio do público presente foi sendo tomado por gritos , declarações amorosas e pedidos de música.

Além de suas novas canções, Camelo tocou ainda algumas de suas preferidas do repertório do Los Hermanos, para delírio dos fãs que cantaram em coro todas elas. “Pois é” foi interpretada com muita emoção, sendo um dos destaques da noite. “Morena” veio em versão meio dub, meio jazzística com direito a inspirados solos de trompete do músico Rob Mazurek. Ele ainda guardou “Dois Barcos”e “Fez-se Mar” para tocar sozinho ao violão no bis. Difícil foi deixar o palco. Marcelo voltou mais de uma vez para cantar com a galera depois de encerrar o set com a marchinha “Copacabana”, que fez todo mundo levantar da cadeira e dançar.

No primeiro bis, surpreendeu tocando “Cara Valente”, música que entrou no primeiro CD de Maria Rita. Encorajou a galera a entoar os sopros de “Além do que se vê”, do Los Hermanos, e disse que sairia enquanto todos cantavam, garantindo “vai ficar bonito, cês vão ver”. De fato, estava bonito, mas bastou o moço levantar do banco pra galera parar de cantar e gritar para que ele ficasse mais um pouco. Encerrou com “Fez-se Mar”agradecendo a presença da galera no que ele afirmou ser o melhor show da turnê até agora. Pode até parecer trova de músico, mas eu não me surpreenderia se de fato for verdade. E ele garantiu que volta em breve. Tomara!

Literatura

Metalinguagem

metalinguagem
imagem: Cassiano Rodka

por Clarice Casado

E então ficava ali
Com medo da página branca.
Desde quando gente
tem medo de papel?
Desde o dia que inventaram
que gente
tinha que escrever.
Desde o momento que um sujeito
Angustiado
Problemático
Desesperado
inventou
que a vida de dentro
precisava sair:
Ou sai ou morre
Ou sai ou explode de vez
Ou sai ou nem adianta seguir
E todos os medos saem junto
Quando o preto da tinta
Resolve beijar o papel

Literatura

Foge enquanto pode

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por Cassiano Rodka

Foge enquanto pode.
Vai pra longe do meu silêncio incômodo.
E te afasta da minha prece bêbada.
Escapa do meu coração paterno
e desses dedos no teu cabelo.
Foge da minha jaula aberta.
Te safa de ser mais uma musa
antes que as minhas palavras
te contornem a silhueta.
Ninguém quer um Machado de Assis de skate
ou um Tom Jobim sem calças.
Foge que ainda é tempo.

Literatura

A outra margem

outramargem.jpg

por Marcella Marx

Saiu de casa com intenção clara:
Ver o avesso
No primeiro passo sua espinha já lhe zunia:
– menino…
Não ouviu, foi pra bem longe,
o mais que seus pés podiam alcançar.
E eles o levaram norte.
Balão solto ao vento.
– Volta menino…
Ele ouvia por toda a parte.
Que nada, teimava e avante ia.
Embrenhado em matas, atravessando pontes,
dia aqui, outro acolá.
– Quanto maior a subida, menino…
Dizia-lhe o vento.
Mas ele tinha os pés firmes no chão.
Tombava não.
À noite, chegou a rio largo e fundo
e por ele quis passar
– olha lá, rio é traiçoeiro menino, pra que arriscar?
Respirou fundo e pulou.
Jamais o viram.
Mas palavras ressoaram ao vento:
– Menino encontrou o que procurava.

Música

Música de montar: Owen Pallet em POA

finalfantasy

por Cassiano Rodka

Um violino, um teclado e um sampler. Com esse modesto arsenal, Owen Pallet subiu ao palco do Átrio no Santander Cultural para apresentar aos gaúchos o seu projeto Final Fantasy. Devido a sua participação como violinista nas bandas Arcade Fire e Beirut, o canadense atraiu um público, no geral, indie, que lotou a sala para assisti-lo. Mas o som do Final Fantasy segue um caminho bem diferente do escutado nos álbuns dessas duas bandas, uma via com muito experimentalismo musical.

O violinista constrói suas músicas ao vivo, sampleando os instrumentos que toca. Em “The CN Tower Belongs to the Dead”, por exemplo, ele primeiro sampleia uma sequência de acordes no teclado para depois pegar o seu violino e acompanhar a melodia em loop. Seu violino, por sua vez, tem algumas linhas sampleadas por meio de pedais que o compositor aciona enquanto toca e canta. O vocal também é sampleado em algumas canções, como a bela “Many Lives -> 49 MP”, em que Owen grita dentro do violino, gravando sua voz que repete no momento exato em que ela completa o vocal principal. Eu sei, tudo muito louco e difícil de imaginar, por isso recomendo uma espiada no vídeo abaixo, gravado por Miguel Schertel no show aqui em Porto Alegre:

Em “Song Song Song”, Owen Pallet explora ainda mais a versatilidade de seu instrumento, batucando em seu violino para criar uma percussão. Os sons são sampleados e é em cima desse loop que ele toca a melodia da música. Um pedido por “No Cars Go”, do Arcade Fire, surge e Owen diz não saber cantar a letra. Depois pensa melhor e concorda em tocar a canção, mesmo com possíveis erros, e ainda brinca “ninguém aqui me conhece mesmo”. Fato é que ele sabia a música de cor e não errou, acho que estava só fazendo um charminho. O resultado foi uma bela versão light registrada aqui pelo Miguel Schertel:

O som do Final Fantasy é bem particular, são melodias delicadas criadas para explorar as mais diversas formas do compositor utilizar o seu instrumento. Mas a grande experiência está mesmo em assisti-lo ao vivo. Escutei os dois álbuns do Final Fantasy após o show e confesso que apesar de achá-los muito bons, não passam toda a complexidade e dramaticidade de ver o compositor construindo cada melodia na sua frente, como uma criança que vai descobrindo aos poucos maneiras criativas de usar os seus cubos de Lego.

Mas não me entendam mal: Vale – e muito! – a pena ir atrás dos álbuns e EPs do Final Fantasy (em especial o recém lançado “Plays to Please EP”, que tá no capricho) e, se algum dia aparecer a chance de conferi-lo ao vivo, não percam a oportunidade!

Para os porto-alegrenses, aviso que, todo domingo, o Santander Cultural tem promovido shows bacanas no Átrio (entrada pela Siqueira Campos, 1125). Eles começam sempre às 17h e contam com as mais diversas atrações, desde músicos locais até internacionais. Os preços são super acessíveis, muitas vezes sendo a entrada franca. Então fiquem ligados na programação!