Clarice Dall’Agnol

Literatura

What really matters

whatreallymatters

por Marcella Marx

To all my students who teach me so much

É ouvir aquilo que (não) queria
É ganhar um palito de dentes
É olhar os balanços suspensos pelo vento
e sentir seu vazio

É acreditar na beleza onde ela parece não existir
É errar e sentir nas entranhas o erro
É um não se acomodar,
por mais que exista o tempo,

É um não correr da chuva e nem do vento
É encontrar sua pergunta,
mesmo sem resposta
É permitir-se ser completamente atingível,
sabendo que assim somos nós.

Literatura

É tarde

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por Clarice Casado

“Comece pelo começo, siga até chegar ao fim e então, pare”

“Alice no País das Maravilhas”, Lewis Carroll

Eu só ouço todo mundo ao meu redor dizendo, “ultimamente, ando sempre na correria”. É uma coisa de louco: parece uma frenética competição entre toda a raça humana, onde os sujeitos descabelados e suados estão brigando para saber quem é que tem menos tempo na vida. Tempo para que, me pergunto? Nem nós mesmos sabemos mais ao certo.

Não há necessidade de muito esforço, é só olhar para o lado para perceber aquela multidão se esbarrando, num desespero inexplicável para fazer as coisas de sempre, ir e voltar dos lugares de sempre, de sempre, de sempre. A tempo! É a rotina. Ok, todo mundo sabe disso. Mas será que a maldita “correria” é de fato tão necessária assim? Então, vêm as desculpas: é o trânsito, é o chefe alucinado, são as crianças na escola, é aquela vida que me espera todos os dias e não vai de jeito nenhum afagar-me os cabelos… Opa! Poesia dos apressados? Não, não, esta última frase foi minha mesmo…

O problema se agrava quando você percebe que é um desses sujeitos apressadinhos. Porque o que provavelmente muitas pessoas (as que “correm”) não têm em mente é que todo mundo têm compromissos. TODO mundo: ricos e pobres, preguiçosos e trabalhadores, crianças e adultos. Acredite: pode-se pensar que o rico não faz nada, “ah, ele não tem problemas, não precisa se preocupar com dinheiro, não precisa trabalhar”. Errado! Qualquer criatura viva tem problemas. Cada um tem as suas complicações, as suas “correrias” (não interessa para onde: tenho uma amiga que morre se não chegar a tempo no salão de beleza; ora, os cabelos são importantes para ela, isso faz dela “menos importante” para quem?). Trocando em miúdos: compromissos, todos temos. A diferença é que algumas pessoas fazem questão de “correr”. Ou ainda, não conseguem impedir que seu corpo “corra” para todos os lugares. Não conseguem se organizar, verdade seja dita.

Mas esta que vos fala dizia que a coisa se complica quando o sujeito, de uma hora para outra, percebe que é um apressadinho… Confesso, então, aos leitores: eu sou um deles, sou um apressadinho. Sou como o Coelho Branco de Alice no País das Maravilhas. Lembram, aquele que estava sempre apressado e correndo, com um relógio na mão?

Alice’s Adventures in Wonderland, clássico romance do escritor britânico Lewis Carroll, pseudônimo de Charles Dodgson, foi imortalizado nos cinemas sob a forma de desenho animado por Walt Disney. O romance de Carroll tornou-se famoso pelo uso da lógica, da matemática e de neologismos, que permeiam toda a narrativa. Trocadilhos, personagens estranhíssimos, simbolismos, animais falantes, micro-histórias aparentemente sem sentido compõem as páginas do aclamado livro. A narrativa de Carroll encontra-se incluída no gênero denominado literary nonsense, o que se poderia traduzir como “absurdo literário”, em razão da aparente ausência de sentido da história. Apenas aparente, sem dúvida. Muitas interpretações sociopsicológicas foram feitas ao longo do tempo que se sucedeu à publicação de Alice…, em razão do caráter enigmático e único da narrativa, bem como em razão dos boatos de que Carroll seria um pedófilo. Boatos esses, frise-se, nunca confirmados. Carroll escreveu a história, após narrá-la oralmente, para a menina Alice Liddell, filha de um reverendo).

Ora, se sou o Coelho Branco de Carroll, personagem de um romance considerado “sem sentido”, não posso deixar de fazer uma neurótica analogia: vivemos, sem dúvida alguma, em um mundo “de Alice”, complexo, caótico, sem sentido e ao mesmo tempo lógico, regido por abundantes neologismos e matemáticas enervantes e doentias…! Neste mundo aventuresco, somos Alices, somos Coelhos Brancos, somos Lebres Malucas, somos Chapeleiros Loucos, somos Gatos Risonhos, somos Reis e Rainhas de Copas…

Somos exatamente o que quisermos ser. Ninguém foge de si mesmo. É só escolher o seu personagem e seguir vivendo. Correndo ou não.

Literatura

Existe algo mais humano que a liberdade?

existealgomaishumanoquealiberdade

por Clarice Casado

Perguntou-me a Bibi (Bianca Rosolem, para os leitores deste PáginaDois), na semana passada, em seu tocante Dedicatória. Sim, eu sou a Dear Clarice a quem se refere ali a pequenina Bianca, com seu jeitinho de Audrey Hepburn dos trópicos…

Desde que a conheci, lá se vão seis anos, parecia que eu podia ver flutuando sobre sua mente brilhante aquela pergunta. Bianca foi uma das alunas mais questionadoras que já tive. Sobre a vida, os amores, as angústias de ser: aquelas coisas que todo mundo quer falar, mas nunca fala.

Um belo dia descobrimos que tínhamos em comum o gosto pela literatura e pelas coisas sensíveis da vida: pronto. Identificação imediata. Trocamos ideias e livros. Ela me emprestou Trópico de Câncer, de Henry Miller, um clássico da literatura norte-americana e mundial, e eu entreguei a ela The Hours (no original mesmo), romance de Michael Cunningham que inspirou o belíssimo filme com o mesmo nome, no ano de 2002, dirigido por Stephen Daldry. A original narrativa de Cunningham entrelaça as vidas de três mulheres, em diferentes épocas, ligadas por um mesmo elo, qual seja, o romance Mrs. Dalloway, de Virginia Woolf. O livro fala de liberdade, ou da falta dela, ou das razões pelas quais não se pode viver sem ela. Coincidência, Bibi?

O curioso desta nossa história é que nunca devolvemos os livros uma à outra, num mútuo gesto que significou o selo de nossa amizade, praticamente cultivada e mantida à distância, uma vez que convivemos por poucos meses. Temos um elo, assim como o tinham as personagens de The Hours. E é ele que nos mantém amigas, até hoje. Além, por óbvio, do nosso amor por escrever.

Bianca me surpreende então (mais uma vez) com uma dedicatória tardia ao livro de Henry Miller que só poderia ter sido escrita por ela mesma: traz aquela originalidade mesclada com sensibilidade e ousadia que só ela sabe fazer.

Pois te digo hoje, Bianca, sweetie, que tenho a certeza absoluta de que não há nada mais humano que a liberdade. Liberdade para criar, para dizer o que se quer, para não ter que explicar o inexplicável.

Sim, minha cara amiga, é a nossa ânsia por liberdade que nos impele a sonhar sobre a folha de papel. E não só sonhamos, tornamos reais e livres na folha de papel os proibidos mundos interiores, aqueles confinados, sem muita saída, sabe? O que desejamos libertar são as coisas que não foram ditas, os gestos que não foram feitos, os poemas nunca entregues, as atitudes nunca tomadas. Nosso momento de liberdade é aqui. Frente a frente com a folha branca.

O que desejamos libertar? Nós mesmas, dear. Nada além da nossa mais pura essência.

Obrigada.

Literatura

Nesses momentos

Nesses_Momentos_

Mas e não é nesses momentos que a gente se encontra? Quando deixamos de lado essa exagerada atenção no rosto do outro e olhamos para nós mesmos. Quando as atitudes encenadas viram história e nossos gestos tornam-se novamente naturais e inerentes. Sem expectativa ou treino, fazemos o que nos pertence fazer e somos o que nos cabe ser. Nesses momentos, encontro isto aqui. Não aquilo que esperavas colher em mim, nem aquele que intentei te oferecer, mas isto aqui que me é intrínseco. Sou tão verdadeiramente eu sem teus olhos postados em mim que, com clareza, me vejo, me escuto e me reconheço. Então te vai. Parte que tua sombra não me conforta mais; já não me oferece nada além de um véu de escuridão.

Música

Sun Ra, um jazzista de outro planeta

por Cassiano Rodka

Egito, África e – por que não? – Saturno. Misturando elementos culturais dessas três (bem) distintas localidades, Sun Ra criou o som nada convencional que o consagrou como um compositor de jazz único e inesquecível.

sunra

Desde cedo, o pianista Herman Poole Blount deixou de lado seu nome de nascença para assumir o que ele considerava sua verdadeira identidade: Sun Ra, um ser de uma raça angelical posto na Terra para passar uma mensagem pacifista aos moradores deste planeta. Sua palavra vinha através de uma linguagem universal: a música. Neste caso, um jazz psicodélico, às vezes melodioso, às vezes atonal, mas sempre singular.

Sun Ra criou um verdadeiro séquito de músicos que o acompanhava não só em suas apresentações, mas em sua vida diária. Esse conjunto de jazzistas era chamado de Arkestra e funcionava como uma grande família. Moravam e tocavam juntos, praticamente deixando de lado qualquer rotina terrestre para se entregar inteiramente à música. A cada show ou disco, o nome variava: Sun Ra and His Solar Arkestra, Sun Ra and His Myth Science Arkestra, Sun Ra & His Intergalactic Research Arkestra, Sun Ra and His Intergalactic Astro-Solar Infinity Arkestra, só pra citar alguns. Tudo dependia da data, do show, da plateia e, é claro, do que estivesse na mente inquieta do músico.

A reação do público no anos 50 e 60 era tão diversa quanto suas músicas, alguns ficavam instantaneamente hipnotizados, outros saíam correndo daquilo que consideravam pura barulheira sem sentido. Encontrando dificuldade em lançar seus trabalhos, Sun Ra fez algo que, naquela época, não era nada convencional: abriu seu próprio selo e passou a distribuir sua música.

Sua filosofia cósmica influenciava as letras, capas dos discos e o inconfundível visual de sua orquestra. Indo de encontro aos ternos usados pelos músicos naquela época, Sun Ra decidiu que sua banda usaria roupas intergalácticas, ou seja, camisolões brilhantes cheios de símbolos egípcios e capacetes dourados. As vestimentas combinavam muito bem com a psicodelia das apresentações e influenciaram alguns artistas, como George Clinton e o seu Funkadelic.

A discografia de Sun Ra é extensa e cobre os mais diversos estilos de jazz, desde o ragtime até o free jazz. O músico também adotou apaixonadamente o sintetizador e os teclados eletrônicos muito antes deles se tornarem populares, produzindo sons que eram considerados à frente de seu tempo.

Com tamanha diversidade de gêneros musicais e quantidade de lançamentos fica difícil entrar em contato com todas as nuances do compositor. Mas uma boa maneira de adentrar o universo de Sun Ra é a coletânea “The Singles”, um apanhado das músicas de trabalho que o compositor lançou através de seu próprio selo. São dois CDs que vão desde o doo-wop de “Daddy’s Gonna Tell You No Lie”, passando pelo R&B amalucado de “Hot Skillet Mama” e indo até as viagens espaciais de clássicos como “Enlightenment” e “The Perfect Man”. Ponha pra tocar e boa viagem!

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Literatura

Bel

bel
imagem: Cassiano Rodka

por Clarice Casado

À Isabel,
que sempre está,
mesmo sem estar

“Close your eyes and I’ll kiss you
Tomorrow I’ll miss you
Remember I’ll always be true
And then while I’m away
I’ll write home everyday
And I’ll send all my loving to you.”

“All My Loving”, Lennon & McCartney

Nos braços incontidos de Bel
Nas falas incansáveis de Bel
Nos conselhos valiosos de Bel
Nos delírios delirantes de Bel
Nas noites desatinadas de Bel
No escuro luminoso de Bel
No amor incontestável de Bel
Moram
A sabedoria
da inexperiência
A dedicação
da ausência
A força
da fragilidade
A simplicidade
do complexo
A serenidade
da agitação:
sossega, Bel –
este é só o começo.

Literatura

Tentativas

tentativas
imagem: Cassiano Rodka

por Cassiano Rodka

Tentei, tentei e tentei. Mas a performance sempre decepciona o treino. Perdi tanto tempo no perfume e na escolha da camisa certa que cheguei atrasado ao restaurante.

Não foi assim que planejei. Eu chegava cedo para pegar a melhor mesa para nós dois. E, quando entravas pela porta, eu te abanava sorrindo e vinhas até mim no exato tempo em que eu levantava e puxava a cadeira para sentares.

Já estavas lá, olhando o cardápio. Quando me aproximei, não me viste e dei um oi sem graça, e teu oi surpreso, e um beijo confuso, e minhas desculpas, e tudo bem, olhos distraídos no cardápio, começo de conversa interrompido pelo garçom, não escolhemos ainda, a massa, o vinho, escolha anotada e só aí um início de interação decente entre nós dois.

Na minha cabeça, a conversa surgia muito mais sutilmente, agradável e divertida, sem interrupções e com aquela fluência que só os bons pares têm. E os tópicos que tanto treinei, que tanto queria te dizer? Por que não surgiram em momento algum?

Mastigamos o fettuccine e as palavras, bebemos o vinho e as histórias. E os teus pais, e os meus amigos, e as tuas viagens, e os meus projetos…

E nós?

No final, por que não tomar um belo café no… Ah, tinhas outros compromissos. Mas nem se fôssemos lá em casa e… Mm, muito longe, sei.

Tinha preparado uma cena perfeita para o café: seríamos só nós dois dividindo uma saborosa xícara feita com esses grãos refinados que comprei e ainda não pus em uso, pois aguardava um momento como esse que nunca houve.

A despedida teve um abraço apertado, um beijo de leve e a promessa de um outro encontro. “Nos vemos de novo?”, foi a última coisa que te disse. Um balbuciado “sim” me serviu como resposta. Fiquei feliz. Era isso que me respondias quando treinei esse dia. Já estávamos em outra situação, mas não importa, alguma coisa saiu certa. Devo estar chegando lá.

Foi bom pra ti?