Clarice Dall’Agnol

Música

Os 9 melhores de 2009

por Cassiano Rodka

Música para relaxar. Música para se jogar nas paredes. Música para dançar. Música para fazer amor. Música para sorrir e música para chorar. A cada ano, uma enxurrada de novos discos e novas bandas invadem a nossa vida e parece cada vez mais difícil peneirar as novidades.

O ano passado não só teve ótimos lançamentos, como também belas edições de luxo de velhos clássicos – com destaque para a deluxe edition do Bleach do Nirvana, a edição de 15 anos do Worst Case Scenario do dEUS, e, é claro, as caixas com as remasterizações da imprescindível discografia dos Beatles.

Mas alguns discos sempre se destacam e, no meu gramophone, esses foram os 9 álbuns de 2009 que me quebraram as pernas:

A Camp – Colonia
O primeiro álbum que me chamou atenção em 2009 foi o segundo trabalho do A Camp, projeto de Nina Perrson, vocalista do Cardigans, ao lado dos músicos Niclas Frisk e Nathan Larson. Produzido pela própria banda, o disco apresenta uma seleção de músicas com influências que vão, segundo a vocalista, desde o pop feminino dos anos 60 até o punk dos 80. As canções são bem trabalhadas e o resultado é pop, mas com toques experimentais. As participações especiais incluem o ex-guitarrista do Smashing Pumpkins James Iha e o baterista do Guided by Voices Kevin March. Mas o destaque mesmo fica para o cantor Nicolai Dunger, que faz um belíssimo dueto com Nina em “Golden Teeth and Silver Medals”.

Eels – Hombre Lobo
O sétimo álbum de estúdio do Eels foca suas atenções no desejo humano. Visto sob 12 óticas diferentes, ele aparece nas canções de Mark Everett na forma de um lobisomem lascivo, um tímido apaixonado e um sonhador, entre outros. Produzido pelo próprio E (único membro permanente da banda), o disco traz um som mais cru e ao vivo, como em “Souljacker”, de 2001. As músicas alternam entre o rock lo-fi e as sempre marcantes baladas, como a melancólica “That Look You Give That Guy” e a onírica “In My Dreams”.

Daan – Manhay
Cansado dos loops, samples e diversos layers de teclados que dominaram seus últimos discos, Daan Stuyven resolveu voltar a suas raízes e fazer um álbum mais direto ao ponto. Deixou que as músicas e letras surgissem naturalmente, sem se permitir muita alteração ou edição das ideias originais. O resultado é um delicioso álbum de pop rock com influências diversas, onde o piano se destaca como instrumento principal.

Ghinzu – Mirror Mirror
Uma das melhores bandas da década de 2000, o Ghinzu se supera a cada disco lançado. Com “Mirror Mirror” não é diferente. A banda apresenta 12 novas canções para aqueles que curtem um rock contemporâneo criativo e com bons riffs de guitarra. Alternando momentos de peso com faixas silenciosas, a banda mostra que tem a melodia e o caos sob controle, sabendo dosar muito bem cada um deles.

Muse – The Resistance
A essas alturas já é impossível não perceber que o Muse é uma das grandes bandas de rock em ativa. Em “The Resistance”, Matt Bellamy leva seu rock dramático a novos campos, trazendo influência de óperas, música francesa, rock farofa dos anos 80 e eletrônica atual. A pluralidade musical do vocalista/pianista/guitarrista da banda fala mais alto que nunca, misturando os refrões característicos da banda a belas orquestrações e guitarras distorcidas. O disco inicia com o 1º single, “Uprising”, que mistura Queens of the Stone Age com Kylie Minogue, e termina com a suíte de três partes “Exogenesis”, uma verdadeira ópera-rock.

Therapy? – Crooked Timber
Se tem uma banda do mundo metal/punk que me interessa é o Therapy?. Os caras estão sempre renovando o próprio som, sem nunca dar bola para tendências ou vertentes ou o escambau. Em “Crooked Timber”, o trio criou 10 músicas que examinam a fragilidade do ser humano. O que originou o tema do álbum foi uma frase do filósofo alemão Immanuel Kant, que diz mais ou menos assim: “Da viga torta da humanidade, nada direito foi construído”. Segundo o vocalista e guitarrista Andy Cairns , o álbum é uma celebração das esquisitices das pessoas, “que é o que nos faz únicos”, afirma ele.

The Slew – 100%
A inusitada mistura de hip hop com rock progressivo resultou em um dos álbuns mais inovadores de 2009. As 10 canções de “100%” são colagens musicais dançantes feitas pelos DJs Kid Koala e Dynomite D originalmente para uma trilha sonora de documentário. O filme foi cancelado, mas o projeto seguiu adiante para se tornar uma banda. As músicas mostram vigor principalmente ao serem tocadas ao vivo pelos dois DJs acompanhados do baixista e baterista do Wolfmother.

Charlotte Gainsbourg – IRM
Produzido e composto em grande parte por Beck Hansen, o terceiro disco da cantora e atriz Charlotte Gainsbourg traz um som bem peculiar, que mescla a sutileza de seu vocal aos arranjos amalucados de Beck. A percussão se destaca no disco, incluindo barulhos de máquinas hospitalares. Esses ruídos e grande parte das letras tem uma explicação: a cantora sofreu uma hemorragia cerebral da qual teve sorte de sair viva e compôs muitas das canções durante essa época. Um álbum com momentos ora tensos, ora delicados, que faz valer a viagem.

Nirvana – Live at Reading
Aparecendo como número um na lista de “shows que agitaram o mundo” da revista Kerrang!, a apresentação do Nirvana no Reading Festival em 1992 foi responsável por arraigar a fama do trio de Seattle. Lançado agora em CD e DVD, esse concerto histórico mostra a banda exatamente como ela era: enérgica, debochada e única. Pode ser um lançamento póstumo, mas deixa mais do que claro por que razão os caras chacoalharam o universo do rock de forma definitiva.

Literatura

Sétimo sentido

Foto: Vanilson Coimbra

Farejas mudanças.
Como se isso fosse grande coisa.
Não é um dom:
alguém se orgulha de adivinhar
sustos alheios?
Só o que me completa
é o infinito.
Não sejas assim, tão soberana.
Não reajas quando provocada.
Meninas não dizem palavrão.
Choro, só no escuro do quarto.
Há tantos mares
Tantas vidas
Tantas outros lugares
Por que o meu, exatamente?
Por que as tardes de verão?
Só o que me conforta
é não ter certeza alguma.
O que me desconcerta,
as não razões das tuas razões.
Perdoa-me, enfim,
por ter chegado primeiro.

Literatura

Viagem

viagem

por Marcella Marx

Minha viagem seria longa.
Busquei no armário a velha mochila
e nela decidi deixar de levar as ideias em preto e branco,
o mofo dos sapatos sem uso – peguei um só par, o que me levasse mais longe.
As mágoas e os rancores libertei-os todos do porta-jóias azul.
Criaram asas e nunca mais os vi.
Revirei as gavetas, já nada mais me servia.
Casacos apertados e calças alargadas.
Saí nua carregando meu pouco de sementes.
A primeira parada foi no topo de uma montanha,
lá de cima, larguei os gritos trancados no peito
e pude enxergar minhas perguntas do avesso.
Libertei-me dos óculos que embaçavam a vista
e dormi sob estrelas.
Chuva veio e regou minhas sementes
e a viagem rendeu flores.

Música

O hip rock do The Slew

theslew_100

por Cassiano Rodka

2009 foi um ano de bons lançamentos musicais. Mas foi recentemente, quase chegando ao fim do ano, que escutei o álbum mais interessante dessa leva. O álbum de estreia do The Slew traz o que parece ser uma releitura hip hop do rock psicodélico dos anos 70. Eu sei, eu sei, parece uma péssima ideia, mas não se engane: essa inusitada combinação fez de “100%” o disco mais inovador de 2009.

As 10 canções do álbum foram originalmente compostas pelos DJs Kid Koala e Dynomite D para a trilha sonora de um documentário que acabou sendo cancelado. Decididos a não jogarem fora o material que haviam criado, a dupla de DJs resolveu lançar as músicas e disponibilizá-las na internet por um determinado período.

Com vocais que mesclam a melodia dos anos 60 ao rap, e instrumentais que casam guitarras psicodélicas às batidas dançantes do hip hop, as músicas que compõem “100%” são um verdadeiro quebra-cabeça de samples.

O disco inicia com um grito agudo a la Robert Plant seguido de scratches. É a faixa “100%”, que dá nome ao disco e deixa claro ao ouvinte que ele está prestes a escutar algo único. Na segunda faixa, fica fácil se render ao refrão contagiante de “It’s All Over”, que provoca “now the people don’t have the power to change things anymore”. O disco oferece ainda pérolas como “You Turn Me Cold”e “Wrong Side of the Tracks”, que contam com melodias pra cima que permanecem na memória.

Para reproduzir “100%” ao vivo, Kid Koala recrutou a cozinha da banda australiana Wolfmother, ganhadora do Grammy de Melhor Performance Hard Rock em 2007. O baixista Chris Ross e o baterista Myles Heskett adoraram o desafio e assim a banda deu início a uma turnê de shows que vai percorrer os Estados Unidos e a Europa durante este e o próximo ano. Quem sabe o Brasil não recebe a visitinha deles?

Literatura

Correspondências parte 4

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por Marcella Marx

“Vinicius,

Não desisto e coloco meu cavalo ao lado do seu para trilharmos juntos este longo caminho. Estive fora da cidade nos últimos dias, fui ver o mar e mergulhar na poesia de meu livro. Como é importante observar à distância para enxergarmos as minúcias, e, como é penoso desvincularmo-nos de nossa obra. Insisto para que tu faças o mesmo amigo. Ana está implorando por seu espaço.
Se quiseres te passarei o endereço do quarto na pequena pensão onde me alojei em São Vicente. Tu ficarias a apenas alguns metros da praia.

Nos encontramos.

João”

Literatura

A menina que não gostava de poemas

meninaquenaogostavadepoemas

por Clarice Casado

Para quem ama poemas.
Para quem ainda vai amar.

Descobri que minha filha não gosta de poesia. Fiquei arrasada, claro. Eu, que sempre amei e ainda amo o gênero, acima de todos os outros. Poemas podem ser lidos em qualquer lugar e a qualquer momento. Poemas podem ser levados na bolsa e podem ser rascunhados em guardanapos de papel. Poemas podem ser curtíssimos e carregados de significados, ou podem ser longuíssimos e não dizerem muita coisa, mas ainda assim, serem lindos esteticamente. Poemas podem cantar. Ou podem soar como teclas de computador, duros, insensíveis. Podem mesmo? Podem. E ainda assim serão belos. Podem levar cinco anos para nascerem, ou apenas cinco minutos. Podem ser lidos e relidos à exaustão, e ainda assim parecerem novos. Podem ser escritos à luz de velas, ou em meio a um estádio lotado. Podem falar ou podem calar. Revelar ou esconder. Revelar, escondendo. Esconder, revelando.

Ela me diz que não gosta de poemas porque neles não há ninguém contando ou conversando. Ela sente falta do narrador e dos diálogos. Ela, na sua doce inocência, ainda não percebeu que poesia narra mais do que qualquer romance; que dialoga mais do que qualquer texto teatral. Ela ainda não sabe (porque ainda não contei), quantos diálogos já travei com Quintana. Drummond. Plath. Vinicius. Auden. Ziraldo. Gelman. Borges. Shakespeare. Neruda. Cazuza. Clapton. Lennon.

Ela ainda não sabe que poemas dizem milhões de coisas, mesmo sem dizer. Ela ainda não sabe que poesia é a forma mais irracional de literatura. E ao mesmo tempo, a mais racional. Mais pensada, cuidada, trabalhada. Ela ainda não sabe os infinitos significados que podem ser encontrados em um poema. Ela ainda não sabe que poesia serve para se pronunciar o impronunciável. Que serve para se suspirar devagarzinho, escondidinho, de mansinho.

Ela não sabe ainda que pode ter um livro de poemas como companheiro em momentos de dor, angústia, alegria, êxtase, desespero. Ela não tem ainda ideia dos efeitos inebriantes de um bom poema; ela ainda não experimentou a satisfação de se ler pela primeira vez um verso que traduz um instante. Que penetra devagar no mais profundo âmago do ser. Que explica o inexplicável. Que toca o intangível. Que desestrutura o que parecia tão encaixado. Que provoca. Que acalma. Que une. Que tira o sono. Que faz adormecer. Que incendeia. Que fere. Que mostra o caminho. Que atinge. Que conversa.

Conversarão os versos contigo ainda, minha filha. Te asseguro. E poderás a eles dizer que um dia foste uma menina que não gostava de poemas.

Literatura

Inimigo meu

inimigomeu
imagem: Cassiano Rodka

por Clarice Casado

Eis aqui, senhoras e senhores:
Estão desapontados?
Esta sou eu.
Esperando que alguém me contrarie.
Entendendo as mágoas de quem me cerca.
Etérea?
O faço há muito tempo.
Não me perguntem como:
Aconteço, apenas.
É uma arte.
Morro de medo dos poemas que ainda não escrevi.
Fujo apavorada dos poemas que me dizem demais.
Escondo-me das histórias que querem ser escritas.
Mergulho no escuro.
Adivinho pensamentos.
Perturbo o sono alheio.
(Descaradamente)
Desenho meus próprios sonhos.
(Conscientemente)
Sofro calada.
(Sistematicamente)
Anseio.
(Incessantemente)
Desafiem-me mais uma vez:
Garanto que faço (tudo) muito melhor.