Clarice Dall’Agnol

Literatura

Doce ilusão

doce ilusão.jpg
imagem: Lívia Dall’Agnol

por Isabel Dall’Agnol

Vejo o mar.
Cheiro a praia.
Na boca, o gosto de maragato.
Ouço vozes, gargalhadas.
Posso sentir a mão de vocês.
Já estou de olhos fechados.
Meus sentidos me carregaram para o passado.
Confortam meu coração, minha alma.
Então, abro os olhos.
Meus sentidos me enganaram.
É fácil.
Mas basta abrir os olhos que, junto com os meus sentidos, tudo se vai.
Mais nada faz sentido.

Música

Gene Ween é o caralho! Meu nome agora é Aaron Freeman, porra!

AARON_FREEMAN-clouds-JACKET

por Cassiano Rodka

Sob a alcunha de Gene Ween, o músico Aaron Freeman construiu sua carreira compondo alguns dos álbuns mais inclassificáveis do planeta. Como vocalista do Ween, Aaron se tornou conhecido por cantar diversos gêneros musicais em interpretações ora debochadas, ora apaixonadas. Ao longo da discografia da banda, em meio ao caos sonoro do Ween, era possível perceber uma faceta do compositor voltada às músicas acústicas e de letras pessoais e reflexivas. É este lado que o músico decidiu trazer à tona em seu primeiro disco solo, “Marvelous Clouds”.

Despindo-se de seu personagem Gene Ween, o cantor assina o álbum com seu nome real, Aaron Freeman, deixando claro que este é um projeto pessoal. O curioso é que, apesar disso, ele decidiu não apresentar canções próprias, mas sim, prestar homenagem a um outro músico, o compositor e poeta Rod McKuen. A ideia veio do produtor do álbum, Ben Vaughn, que já havia trabalhado com Aaron no disco “12 Golden Country Greats” do Ween. Quando o cantor conversou sobre gravar um disco solo, o produtor sugeriu que ele interpretasse Rod McKuen, um músico que teve destaque nos anos 60, quando sua música foi gravada por artistas como Frank Sinatra e Johnny Cash, mas que foi esquecido com o passar do tempo. Quando Aaron escutou o trabalho de McKuen, encontrou logo algumas ligações com a música criada por ele e decidiu que o material era perfeito para o seu primeiro trabalho solo.

As 13 faixas do disco são uma viagem pela mente dos dois músicos, já que Aaron soube muito bem botar sua personalidade na interpretação dessas singelas canções folk. A voz foi o foco principal: o cantor concentrou-se na arte de criar harmonias vocais, deixando os instrumentos para músicos contratados. Diferente do que costuma fazer no Ween, o vocalista não utilizou efeitos na voz, optando por uma abordagem mais limpa e direta. Os instrumentais também foram arranjados de forma simples, mantendo um clima acústico e despretensioso, com ares hipongas e, às vezes, até meio cafonas. As letras são emotivas e confessionais, versando sobre amor, guerra, solidão e busca pessoal. A poesia de McKuen também aparece no disco, primeiro no poema musicado “Pushing the Clouds Away” e depois na leitura de “Paris, Three” ao final da última música do álbum, “The World I Used to Know”.

A aposta de Aaron Freeman no repertório de Rod McKuen foi realmente certeira. Tenho escutado o álbum incessantemente e recomendo a todos que experimentem essa jornada. No site Stereogum, o disco pode ser ouvido na íntegra:
http://stereogum.com/1019902/stream-aaron-freeman-marvelous-clouds/album-stream/

Aaron Freeman já declarou que está pensando em um segundo disco, dessa vez com composições próprias. Aguardaremos ansiosamente!

aaronfreeman

Literatura

Reflexo

reflexo
imagem: Thiana Sehn

por Clarice Casado

Não há nada mais narcísico do que ter filhos. Será que alguém já analisou esse assunto sob esta ótica? Em tempos de Facebook e Twitter, quero em poucas linhas desenvolver este meu raciocínio, porque hoje em dia, raro é alguém que pare para ler mais de vinte linhas, a não ser que seja obrigado a fazê-lo: trabalho ou estudo.

Assim, sigo em frente, porque se eu continuasse o parágrafo anterior, estava arriscando a perder metade de meus leitores…!

Por que temos filhos? Basicamente, primeiro, porque é, de regra, a ordem natural das coisas, depois que encontramos o parceiro que julgamos o certo. Segundo, porque queremos formar uma família, perpetuar a espécie, blá, blá, blá. Afora isso tudo, motivos aparentemente óbvios, penso que ter filhos é uma forma de fazer um “mini você” para ser amado para sempre. Um carinha que é uma mistura sua e do seu parceiro, podendo pender a parecença mais para um ou para outro. Se não for semelhante fisicamente com o pai ou com a mãe, o será nas atitudes, no modo de falar, no andar, sei lá, algo naquela criaturinha você pode ter certeza que vai encontrar que lembra muito alguém que você conhece muito bem: você mesmo!

Não estou aqui querendo dizer que temos filhos com o intuito consciente de fazer “mini-nós”. Não, a coisa é inconsciente. Porém, quando aquela coisinha entrar em sua vida, começar a tomar forma, e desenvolver jeitos e trejeitos, não tem solução: quando menos você esperar, vai estar incondicionalmente apaixonado… Por você mesmo! Em versão revisada, atualizada, melhorada, 2.0, com teto solar, ar e direção automática!

É a natureza te mostrando que pode fazer mais, e sempre melhor. E é você tendo que admitir que é um narcisista incurável, em todos os momentos que o diminuto indivíduo fará você babar, ou até chorar, sem perceber: quando ele balbuciar a primeira palavra ou der o primeiro sorriso, quando sair correndo pela casa, meio trôpego, pela primeira vez; toda vez que cantar e dançar nas apresentações da escola, quando tocar Let It Be no piano dentro de uma sala lotada, quando rir às gargalhadas de algo sem graça que você fez, quando disser que você está lindo mesmo nos dias em que você está se achando um lixo, quando te mostrar um desenho que ele levou duas horas para fazer, quando se emocionar no show do Paul McCartney, quando soltar frases de admiração ao ver quadros de Monet, quando disser que te ama mais que o infinito, quando pedalar com você na beira da praia até cansar, quando te sussurrar no ouvido uma canção de amor no dia em que você voltar do funeral de sua avó, quando te der um presente feito por ele mesmo, quando mostrar a você que já sabe se virar sozinho, quando te falar que nada é mais forte que você do que você mesmo, enfim, quando te mostrar que você se tornou absolutamente dispensável em sua vida, e, ainda assim, vir te dar um beijo de boa noite.

Música

Bob Dylan em POA

bobdylanempoa01

por Cassiano Rodka

Assistir uma lenda viva em ação é sempre uma experiência incrível. É impossível não olhar para aquela figura no palco e pensar “cara, é ele!”, um músico que foi além dos outros, que se destacou da maioria, que espalhou suas composições por todo o mundo. E a lenda pode estar envelhecida, pode não ter tanto pique quanto antigamente, mas é ele ali no palco, carregando tanta história nas costas que chega a estar um pouco envergado.

Bob Dylan entrou com sua banda pontualmente às 21h no palco do Pepsi On Stage tocando “Leopard-Skin Pill-Box Hat”, uma sátira às vítimas da moda lançada em 1966 e que sempre inicia as apresentações dessa turnê. Em seguida, Bob Dylan engatou a sua clássica balada folk “It’s All Over Now, Baby Blue”. Sem muita enrolação entre uma música e outra, o cantor não costuma ficar de bate-papo com a plateia, mas abriu alguns sorrisos sinceros para o público, deixando claro de que estava satisfeito com a empolgação que tomou conta do local. E não foram só os clássicos que animaram a galera, músicas mais recentes como “Thunder on the Mountain” e “Beyond Here Lies Nothin'” também levantaram o público.

Do álbum “Highway 61 Revisited” surgiram algumas das melhores performances da noite: “Ballad of a Thin Man”, “Desolation Row”, “Like a Rolling Stone” e a faixa-título, grata surpresa no setlist. Fiquei surpreso também em ver o Dylan tantas vezes nos teclados. Em muitas canções ele deixava seu violão e sua gaita de boca de lado para escorregar seus dedos nas teclas de um moog. Depois de fazer o Pepsi inteiro cantar “Like a Rolling Stone”, Dylan apresentou a banda e fechou o set com um de seus maiores clássicos, “All Along the Watchtower”. Alguns minutos depois, o grupo voltou ao palco para tocar a última da noite, a indispensável “Blowin’ in the Wind” em uma versão mais animadinha que não me agradou muito, mas fez a festa do pessoal que estava presente. Ao final da apresentação, fica aquela sensação boa, uma grata satisfação em ter dividido uma noite com uma lenda viva da música.

Literatura

O reflexo da nostalgia

o reflexo da nostalgia.jpg
imagem: Lívia Dall’Agnol

por Isabel Dall’Agnol

Já que gostas do meu sorriso, me dê motivos para sonhar, implorou ela.
Ele contou-lhe suas histórias e a incluiu em sua jornada.
Já que gostas dos meus olhos, me faça enxergar, suplicou ela.
Ele, gentilmente, retirou-lhes a venda que há muito os cobria.
Já que preciso de coragem, me dê a sua mão, pediu ela.
Ele a abraçou por inteiro.
Já que queremos voar, me carregue para longe, sugeriu ela.
Ele a aconchegou em suas asas, preparando-a, imediatamente, para partir.
Já que meu coração está partido, me ajude a curá-lo, desafiou ela.
Ele pousou suas mãos sobre o seu peito, enquanto a envolvia em seus braços.
Já que é assim que se faz nos tangos, me dê a sua parte, cochichou ela.
Ele deu-lhe o seu corpo.
Já que queres sentir o meu amor, me entregue o seu coração,
aconselhou ela, de olhos fechados.
Ele deu-lhe sua alma.
Então, ao abrir seus olhos, ela se deparou com uma imagem.
Franziu a testa, na tentativa de identificá-la.
Aquela mulher de preto estava mais velha, mais fria.
Em seu olhar vazio, transbordavam a tristeza, a melancolia, a saudade.
Não demorou muito e a reconheceu.
Porque, ainda assim, era ela.
Foi quando se deu por conta.
Estava diante de um espelho.
Sozinha.

Música

SC3 em SP

sc3emsp01
imagem: Cassiano Rodka

por Cassiano Rodka

Formada originalmente por três integrantes do Mr. Bungle em 1995, a banda Secret Chiefs 3 acabou se transformando na opção principal dos fãs desde que o grupo entrou em um hiato indefinido em 2000. De lá pra cá, muita coisa mudou. A banda cresceu, tanto em número de integrantes quanto em conceito musical. Sob comando do guitarrista Trey Spruance, o Secret Chiefs 3 se desdobrou em 7 bandas-satélite, ou seja, diferentes formações que exploram diferentes facetas musicais do grupo, indo do surf rock à música indiana.

Ao vivo, Trey Spruance organizou uma formação que mistura alguns dos músicos dessas diferentes bandas-satélite. Em sua passagem por São Paulo, o grupo incluía o baterista Ches Smith, o tecladista Matt Lebofsky, o baixista Toby Driver e o violinista e guitarrista Timb Harris, que roubava a cena muitas vezes em improvisações inspiradas.

A comedoria do SESC Belenzinho, a princípio, parecia um local estranho para o show. Mas o espaço acabou sendo perfeito para abrigar o público da banda e garantir uma qualidade de som bem bacana. As mesas dispostas no ambiente foram abandonadas assim que a banda entrou no palco. “Zombievision” serviu como introdução para o show, encaixando logo em seguida na cover de “Personnae: Halloween” do filme “Halloween – A Noite do Terror” de John Carpenter. Seguiram duas músicas que são tocadas há tempos pela banda, mas não entraram ainda em nenhum disco: “The 15” e “Fast”, ambas incluídas no excelente DVD “Live at the Great American Music Hall”. O público já estava em transe ao som hipnótico dedilhado por Trey Spruance em um instrumento meio guitarra, meio saz que ele utiliza em boa parte do show. O som oriental seguiu na faixa “The 4 (Great Ishraqi Sun)”, uma das minhas preferidas da banda (passei o dia inteiro antes do show com ela na cabeça).

Do disco mais recente, “Le Mani Destre Recise Degli Ultimi Uomini” o Secret Chiefs 3 fez um medley com três músicas: “RFID Slaverider”, “Agenda 21” e “Codex Alimentarius”. Mais adiante no set, surgiu o carro-chefe do disco, a bela “Sophia’s Theme”, um tema composto para um filme giallo inexistente e que costura todo o álbum.

Em “Combat for the Angel”, Trey Spruance e Timb Harris encontraram bastante espaço para o improviso, criando um dos grandes momentos da noite. Mais duas covers se destacaram na apresentação: a versão eletrônico-experimetal de “Radar (The Day the Earth Stood Still)” composta por Bernard Herrmann para o filme “O Dia em que a Terra Parou” e “Book T: Exodus”, uma pérola de Ernest Gold interpretada lindamente pela banda para encerrar o show.

O Secret Chiefs 3 voltou ao palco para um bis com duas canções, a hipnótica “Ship of Fools (Stone of Exile)” e a ótima “Saptarshi”, faixa lançada em um single em vinil junto com “Radar” e que tive a oportunidade de comprar lá após o show e ainda pegar autógrafo com o pessoal da banda. Atualmente o Secret Chiefs 3 está em vias de lançar um novo disco intitulado “Book of Souls”, então em breve devemos encontrar eles por estas terras novamente. Estejam lá!

Literatura

O humor dos bichos

o-humor-dos-bichos_p2
imagem: Cassiano Rodka

por Cassiano Rodka

A gargalhada do garoto foi tão alta que o silêncio até corou. Enquanto o som de sua risada dissipava-se no vento, Davi percebeu algo realmente curioso: seu gato não ria.

O bichinho tinha acabado de escorregar do muro do pátio, mas havia habilmente se agarrado no guidão da bicicleta de seu dono, dado um giro de 360º e pousado elegantemente no chão. Um espetáculo de precisão e humor ovacionado pelas gargalhadas do menino. Mas, diferente de Davi, Haroldo não parecia achar a menor graça. Olhava seriamente o menino, atraído pelo som alto de seu riso. Depois começou a lamber suas patas, dando início a um longo banho felino que só seria interrompido vez ou outra por algum ruído que ele parava atentamente para escutar por alguns segundos. Com os olhinhos curiosos da infância, Davi acompanhava os movimentos do gato, mas o que não saía de seu pensamento era aquela nova descoberta: Haroldo não tinha humor.

Intrigado, o garoto foi procurar nas gavetas de sua memória algum momento – breve que fosse! – em que seu animal de estimação tivesse esboçado algum sorriso. O dia em que o viu pela primeira vez – saltitante que só ele! – no centro de adoção, a noite em que eles passaram quase em claro perseguindo Guido, o ratinho de borracha, as diversas tardes de pega-pega no quintal… Eram momentos em que Davi se recordava de longas risadas. Mas as risadas eram suas, não de Haroldo. O fato chegava a incomodar um pouco o menino. Como Haroldo podia ficar tão sério o tempo todo? Ainda mais em sua companhia! Mas não. Nada. Nem uma risadinha. O que havia de errado com o seu gato? Por que ele não era como os outros animais que sempre se…

“Peraí!”…

E aí seu pensamento foi ainda mais longe. Lembrou de seu peixe Artur, do cachorro do vizinho, da tartaruga Ronalda e até dos animais do zoológico. E ficou pasmo. “Os bichos não tem humor”, concluiu abismado. Mesmo o macaco, por mais brincalhão que ele fosse, não ria. Mas qual seria o desmedido motivo que conseguia deixar o reino animal inteiro tão sério? Havia alguma coisa que os preocupava, Davi estava certo. Eles deviam saber de algo que os humanos não conseguiam perceber. No fundo, eles são mais espertos que a gente…

Davi voltou a encarar o gato, agora parado quase estático com os olhos arregalados e orelhas atentas. Haroldo desviava os olhos do menino com falsa distração. Davi tentava ler o que se passava na cabecinha do bichano. Haroldo voltava a olhar seriamente o garoto. Por que estava tão sério? O que estava pensando? Haroldo estava preocupado. Seria Davi o primeiro humano a descobrir o que estava realmente se passando?…