Clarice Dall’Agnol

Literatura

Ideia

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imagem: Ana Nitzan

por Marcella Marx

Com um sopro voa,
embala na dança do limiar.
Entra num redemoinho,
gira aqui e lá.
Sobe mais e mais
até tocar as nuvens,
mas em raio cai ao chão,
surrada.
Mais um sopro
e ela desperta,
alça voo mais ousado,
(dessa vez quer ir aos céus!)
até sumir de mim
e surgir noutro lugar.
Quem sabe perto de ti…
Se souberes assoviar.

Literatura

Despedida

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imagem: Cassiano Rodka

por Isabel Dall’Agnol

A mim, já não importa o
poder do teu sorriso, ou
a calmaria do teu olhar.

A mim, já não importa se
queres voltar ao meu lado,
tampouco se não queres.

Já não me interessam as tuas palavras.
Já não me agarro às tuas mentiras.
Já não me prendo ao teu destino.

Não procuro mais as tuas mãos.
Não sinto mais o frescor dos teus lábios.
Não recordo mais do teu cheiro.

Esqueci-me do tom da tua voz.
Desprendi-me daquela ilusão inútil.
Desapeguei-me, simplesmente, de ti.

Espelho da minha alma,
tua covardia matou o
que em mim vivia.
Agora, resta apenas
essa triste despedida.

Literatura

Pequena serenata para aquela outra Clarice

Pequena serenata para aquela outra Clarice_atrás_P2.jpg
imagem: Cassiano Rodka

por Clarice Casado

Nas vezes em que
não me vejo em mim,
me assusto à toa,
piso em ovos,
falo baixinho,
com medo de despertar ainda mais
aquela desconhecida.
Derramo lágrimas estranhas
e dou risadas desconexas.
Não quero perturbar-me:
pode ser que eu me arrependa.
Afinal, a outra que mora em mim
pode não ser tão boazinha assim.

Cinema

Oscar 2013 – depois da cerimônia

por Pedro Cunha

Depois de anos, surpresas! E boas surpresas, pelo menos na minha opinião… “Lincoln” perdeu força na reta final das premiações e deixou de ganhar os prêmios que, quando das indicações, ninguém duvidava que seriam seus. Bom para “Argo”, que na mesma reta final abocanhou todos os prêmios dos sindicatos, o Globo de Ouro e, por fim, o Oscar de Melhor Filme (e mais os prêmios de Roteiro Adaptado e Montagem). Foi uma daquelas cerimônias em que não há um grande vencedor colecionando estatuetas. “Lincoln” tinha 12 indicações e se alguém fosse empilhar seria ele, mas levou apenas os prêmios de Design de Produção (antigamente chamado Direção de Arte) e de Melhor Ator para Daniel Day-Lewis. O filme com mais estatuetas foi “As Aventuras de Pi”, que previsivelmente e merecidamente levou os prêmios técnicos (Melhor Fotografia e Melhores Efeitos Visuais), Melhor Trilha Sonora e deu a Ang Lee a sua segunda vitória na categoria Melhor Diretor. Coincidentemente a outra vitória de Lee, em 2006 por “O Segredo de Brokeback Mountain”, havia sido a última vez em que a Academia tinha separado os prêmios de Filme e Diretor. Sobre Melhor Diretor, fica ainda mais ridícula a não indicação de Ben Affleck pela Academia uma vez que seu filme ganhou o grande prêmio da noite.

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Ben Affleck e seu Oscar (como produtor de Argo) mandando todo mundo ARGOFUCK YOURSELF!

A noite começou com o tradicional desfile no tapete vermelho, onde as atrizes da noite mostravam seus dotes e seus vestidos. A maioria fica deslumbrante, algumas erram. Algumas têm uma noite infeliz. E, bem, há Helena Bonham-Carter, que erra SEMPRE. Anne Hathaway, uma das favoritas da noite, apareceu com um vestido no mínimo duvidoso em que uma costura aparente dava a impressão de que ela estava, enfim, com os “farois acesos”.

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Anne Hathaway e a costura da polêmica. Melissa McCarty jura que foi ao cabelereiro. E Helena Bonham-Carter não consegue abandonar o look Bellatrix Lestrange

O host da festa, Seth MacFarlane, foi ele mesmo. A crítica norte-americana de certa forma surpreendeu-se com o humor afiado e politicamente bem incorreto do comediante, mas o que poderia se esperar do criador de Family Guy e do ursinho Ted? Alguns dos números musicais do comediante foram inspirados (em especial “We Saw Your Boobs”), mas piadas com Rihanna e Chris Brown já passam um pouco dos limites, segundo a crítica de Hollywood. Acho que MacFarlane não volta no ano que vem.

A festa em si foi, como sempre, uma grande celebração do que Hollywood tem de melhor. Duas grandes homenagens na noite: uma delas aos musicais dos últimos 10 anos, com apresentações de números de “Chicago” (por Catherine Zeta-Jones), “Dreamgirls” (por Jennifer Hudson) e “Os Miseráveis” (pelo elenco inteiro). Zeta-Jones provou (e mostrou) que ainda está em grande forma e que “All That Jazz” ainda é uma canção maravilhosa. Jennifer Hudson meio que chocou todo mundo com uma apresentação em que mais gritou do que cantou (eram visíveis as caras de espanto na plateia) e o elenco de “Os Miseráveis” inteiro no palco cantando “One Day More” mostrou o poder das canções, que é o que o filme tem de melhor. Hugh Jackman e Anne Hathawey reafirmaram que são as melhores coisas de “Os Miseráveis”. Amanda Seyfried e Eddie Redmaine (como canta esse rapaz, não? Dá a impressão de ser artista lírico.) também estiveram muito bem. Samantha Barks fez mais uma vez eu desejar que seu personagem, Éponine, aparecesse mais no filme. E Sacha Baron-Cohen, Helena Bonham-Carter e Russel Crowe completando o palco com todo o resto do elenco. Me arrepiei com a apresentação de “One Day More” e me arrepiei todas as vezes em que a vi novamente.

A outra grande celebração da noite foi o aniversário de 50 anos da série 007. Conforme já estava programado, a cantora Adele apresentou-se com a bela “Skyfall”, tema do último filme do agente secreto britânico, e venceu a estatueta de Melhor Canção. Adele passa a ser uma das poucas pessoas no planeta que tem na prateleira o Grammy, o Globo de Ouro e, agora, o Oscar. A apresentação de Adele era esperada e, por isso, não foi tão surpreendente. O que surpreendeu a todos foi Shirley Bassey apresentando-se maravilhosa e cantando “Goldfinger”. A escolha foi homenager Mr. Bond a partir de suas trilhas sonoras que, aliás, já podiam ter sido reconhecidas pela Academia a mais tempo. Estamos falando de Carly Simon (“Nobody Does it Better”), Madonna (“Die Another Day”), Tina Turner (“Goldeneye”), Duran Duran (“A View to a Kill”), A-Ha (“The Living Daylights”), a própria Shirley Bassey (“Goldfinger”, “Moonraker”, “Diamonds Are Forever”) e Sir Paul McCartney (“Live and Let Die”) entre outros. O que eu senti falta e achei que seria relativamente simples de fazer na cerimônia foi da reunião no palco de Sean Connery, Roger Moore, Thimoty Dalton, George Lazemby, Pierce Brosnan e Daniel Craig. Seria bacana ver todos os Bonds juntos e essa seria uma justa oportunidade para isso, mas essa a Academia ficou nos devendo.

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Shirley Bassey e Adele: o ontem e o hoje em 007

Dentre os sempre presentes micos da cerimônia três foram os que mais se destacaram: o primeiro foi o tombo da Jeniffer Lawrence quando foi ao palco para receber a sua (merecida) estatueta de Melhor Atriz. A menina de 22 anos, que já havia sido indicada por “Inverno da Alma” (Winter’s Soul, Debra Granik, 2009) estava visivelmente nervosa, conforme pudemos notar quando ela foi ler uma das homenagens da noite. Eu também estaria, no lugar dela. Concorria com Naomi Watts (por “Impossível”) e Jessica Chastain (“A Hora Mais Escura”), ambas elogiadíssimas. Um dos xodós da noite, Quvenzhané Wallis, também estava na categoria. E ainda estava lá Emmanuelle Riva, maravilhosa, que provavelmente teria ganho se “Amor” fosse falado em inglês. Mas enfim, Lawrence ganhou e, ao subir a escada para o palco, emboletou-se na barra do seu Dior Haute Couture e foi ao chão. Já virou meme: “se for cair, caia de Dior”. Outro meme da noite foi protagonizado por Sandra Bullock, que foi a única pessoa na história, acho, a ter EXTREMA dificuldade para abrir o envelope do Oscar. Mas NADA supera, na minha opinião, a CARINHA que a Renée Zellweger estava quando subiu ao palco com o restante do elenco de “Chicago”. Bridget Jones não conseguia parar em pé. Não conseguiu sequer segurar o envelope, quanto mais ler um dos nomes. Foi socorrida, ora por Richard “Billy Flint” Gere, ora por Queen “Mama Morton” Latifah. Tá certo que a Zellweger tradicionalmente tem os olhinhos pequenininhos, mas até onde eu sei ela ainda é ocidental… o povo nas redes sociais não conseguiu unanimidade, se era um porre ou uma overdose de botox mesmo.

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Jennifer Lawrence cai, coitadinha. E Sandra Bullock apanha do envelope.

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Renée Zellweger, minha filha, o que você tomou?? Reparem que não consegue nem abrir o envelope e nem sequer ler o cartão…

As premiações por atuação da noite foram previsíveis e emocionantes. Daniel Day-Lewis se torna o ator mais vencedor da história ao levar para casa a terceira estatueta de Melhor Ator, feito até ontem inédito. Ele já havia sido premiado por “Meu Pé Esquerdo” (1989) e “Sangue Negro” (2007). É um ator que seleciona seus trabalhos: desde “Meu Pé Esquerdo” Day-Lewis fez apenas 10 filmes, contando “Lincoln”. É muito pouco para mais de 20 anos de atuação. O prêmio é uma recompensa a um ator que seleciona os seus trabalhos e é, sem dúvidas, um dos grandes de sua geração e de todos os tempos. Ninguém duvidava que ele ganharia, mesmo com “Lincoln”, no fim das contas, tendo sido desprezado pela Academia como foi. Jeniffer Lawrence é um prêmio para o talanto de uma moça que pode ser uma das grandes da próxima geração de Hollywood. Um Oscar em duas indicações aos 22 anos não é pouca coisa. Anne Hathaway ganhou o Oscar de coadjuvante em uma cena, na brilhante interpretação de “I Dreamed a Dream” em “Os Miseráveis”. O filme de Tom Hooper, aliás, foi, no fim das contas, um dos grandes vitoriosos da noite. Com sete indicações, incluindo Melhor Filme, foi para casa com três estatuetas (Atriz Coadjuvante, Maquiagem e Cabelo e Mixagem de Som). Ainda falando nos atores, Christoph Waltz venceu a disputa mais encarniçada da noite, ao ganhar seu segundo Oscar em quatro anos superando Phillip Seymour-Hoffman, Tommy Lee Jones, Robert De Niro e Alan Arkin.

O Oscar 2013 será lembrado como o Oscar de “Argo” e como o ano em que o diretor sequer foi indicado, apesar de ter feito um emocionante discurso quando recebeu o prêmio de Melhor Filme como produtor de Argo. E também será lembrado como o ano de Richard Parker e “As Aventuras Pi”. O impressionante tigre digital que acompanha a jornada do jovem Pi Patel no filme de Ang Lee já tem lugar garantido na galeria das grandes criaturas do cinema, junto com o Gollum de “O Senhor dos Aneis”, Yoda da primeira trilogia “Star Wars” e tantos outros. A justa premiação de Efeitos Visutais para “As Aventuras de Pi” escancarou um dos grandes problemas atuais de Hollywood: a questão das empresas de efeitos visuais. O custo de criar algo como Richard Parker é imensamente grande e já existe uma grande parte desse trabalho sendo terceirizado para estúdios chineses, com as conhecidas condições de trabalho da China. A concorrência com a China faz com que os salários desses trabalhadores fiquem achatados, uma vez que seus altos custos materiais não podem ser rebaixados. A empresa R+H, responsável pelo magnífico tigre, decretou falência no ano passado. O discurso dos vencedores, que estava se tornando um protesto, foi cortado pelos acordes de “Tubarão”, numa piada sem graça da Academia. Mais detalhes sobre a questão dos efeitos visuais você encontra aqui: http://www.nimbocg.com.br/oscarvfx/ (agradecimentos ao sempre ligado @ghuyer).

Algumas premiações foram esperadas, como Michael Haneke recebendo justamente o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro por “Amor”. Outras foram injustas, como “Valente”, talvez a pior animação da história da Pixar, levando o prêmio que podia ser de “Detona Ralph” ou de “Frankenweenie”. Tarantino levou sua segunda estatueta de Roteiro Original. A Academia, paradoxalmente, parece adorá-lo, mas nega-se a dar a ele o reconhecimento de Melhor Filme/Diretor. Polêmico. Mas, se não fosse assim, não seria o Oscar… Enfim, com saudades, nos despedimos e já começamos a espera para ver quais surpresas nos serão reservadas pelo Oscar 2014. Me despeço deixando vocês com o elenco de “Os Miseráveis”. Abram o link, coloquem em tela cheia e aumentem o volume. Espero que se emocionem, como eu.

http://bempequena.tumblr.com/post/44028536977/the-cast-of-les-miserables-performing-one-day

Cinema

Oscar 2013 – antes da cerimônia

por Pedro Cunha

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Seth MacFarlane nos espera para o Oscar 2013!

Além dos filmes sobre os quais já escrevi (Argo, Indomável Sonhadora, O Lado Bom da Vida) eu já assisti também “Lincoln” (Spielberg, 2012), “Os Miseráveis” (Les Misérables, Tom Hooper, 2012), “As Aventuras de Pi” (The Life of Pi, Ang Lee, 2012) e “Django Livre” (Django Unchained, Tarantino, 2012). Pretendia, na semana que passou, escrever um pouco sobre cada um deles e ainda assistir “Amor” (Haneke, 2012) e “A Hora Mais Escura” (Bigelow, 2012) para conseguir dar meus pitacos direitinho, mas acabei não conseguindo. Vamos então aos meus palpites, já que a festa é amanhã…

 

Melhor Filme

Indicados: “Argo”, “Indomável Sonhadora”, “O Lado Bom da Vida”, “Lincoln”, “Os Miseráveis”, “As Aventuras de Pi”, “Django Livre”, “Amor” e “A Hora Mais Escura”

Quem eu acho que vai ganhar: “Lincoln”

Quem eu acho que deveria ganhar: “Argo”
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ARGO FUCK YOURSELF! 

Nos últimos anos chutar nessa categoria tinha sido relativamente fácil. Nesse ano não é. Em termos de arte o filme de Haneke é tido, pelos críticos, como o melhor. Mas será que a Academia premiaria um filme “falado” em francês com seu maior prêmio pelo segundo ano consecutivo? (Coloquei entre aspas porque “O Artista”, no fim das contas, é mudo. Mas é francês, enfim. E eu sei que “Amor” oficialmente é um filme austríaco. Mas é falando em francês…). Eu acho que não. Vou além, duvido muito. Da lista de indicados acho que “Amor” entra como azarão junto com “Indomável Sonhadora”, “As Aventuras de Pi” e “O Lado Bom da Vida”, que estão lá para completar a lista. Mas a partir daí… todos passam a ser candidatos. “Os Miseráveis” e “Lincoln” são filmes de diretores consagrados e já premiados pela Academia. “Argo” foi um dos filmes mais elogiados do ano e ganhou quase todas as grandes premiações pré-Oscar. Ainda não vi “A Hora Mais Escura”, mas Bigelow é uma cineasta meticulosa e que costuma fazer filmes tecnicamente muito bons. E “Django” poderia enfim marcar a afirmação de Tarantino, que é indicado para filme/diretor pela terceira vez e só venceu um Oscar, o de Melhor Roteiro Original por Pulp Fiction. Qualquer um dos cinco, portanto, não será surpresa. Por que então eu cravei “Lincoln”? Por dois motivos, fundamentalmente: primeiro, o personagem Abraham Lincoln, nos EUA, é quase um deus. E Spielberg, ao invés de procurar as contradições humanas, mergulhou de cabeça nessa sacralização do político que lutou contra a fragmentação dos EUA e contra a escravidão. 60% dos americanos achavam que “Lincoln” deveria ganhar o prêmio sem terem ao menos assistindo o filme. O Oscar, muitas vezes, é um prêmio político. E premiar um filme que fala de Lincoln e ainda levanta um debate sobre direitos civis, um tema que anda em alta lá na gringolândia, pode valer a estatueta para Spielberg. Além disso, “Argo”, para mim o melhor dos filmes, não deve ganhar porque inexplicavelmente a Academia não indicou Ben Affleck para melhor diretor. Nos últimos 10 anos apenas duas vezes as estatuetas de filme e diretor não foram casadas. A última vez em que um filme ganhou sem que seu diretor tenha sido indicado foi em 1990 (Conduzindo Miss Daisy, num ano em que os favoritos eram Sociedade dos Poetas Mortos e Nascido em Quatro de Julho). Gostaria que “Argo” ganhasse. Mas acho que não é dessa vez. Da mesma forma eu gostaria que o Tarantino ganhasse. Nem tanto por “Django”, que eu não achei melhor que “Kill Bill v.1” ou “Bastardos Inglórios”, mas sim pela carreira de um diretor que trouxe inovações de verdade à velha Hollywood. Mas Tarantino, assim como Affleck, não foi lembrado para Melhor Diretor, o que torna um pouco mais remotas as chances de “Django Livre”

 

Melhor Diretor

Indicados: Michael Haneke (Amor), Steven Spielberg (Lincoln), Benh Zeitlin (Indomável Sonhadora), David Russell (O Lado Bom da Vida), Ang Lee (As Aventuras de Pi)

Quem eu acho que vai ganhar: Spielberg.

Quem eu acho que DEVERIA ganhar:  vou deixar meu voto em branco por não ter visto “Amor” ainda…

[EDITADO: Vi “Amor” ontem. Haneke. Sem sombra de dúvidas, Haneke]
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Haneke orientando Riva e Trintignant 

Sem surpresas, acho que Spielberg leva pelos mesmos motivos que me fazem achar que “Lincoln” leva Melhor Filme. O grande concorrente de Spielberg, segundo os especialistas, é Haneke. Não seria uma surpresa muito grande, portanto, se Haneke levasse melhor direção e “Django”, “Os Miseráveis” ou “Argo” acabassem levando melhor filme. Mas ainda acho que não. Ainda acho que Mr. Spielberg vai fazer barba, cabelo e bigode esse ano.

 

Melhor Ator

Indicados: Daniel Day-Lewis (Lincoln), Denzel Washington (O Voo), Hugh Jackman (Os Miseráveis), Bradley Cooper (O Lado Bom da Vida), Joaquin Phoenix (O Mestre).

Quem eu acho que vai ganhar: Daniel Day-Lewis

Quem eu acho que DEVERIA ganhar: Daniel Day-Lewis
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Daniel Day-Lewis e o verdadeiro Abraham Lincoln: ele realmente se puxou. 

Por mais que a performance de Denzel Washington como um piloto alcoólatra que consegue manter o controle de um avião em circunstâncias extremíssimas mas que perde o controle da própria vida seja excelente, por mais que o Wolverine tenha nos mostrado que é um bom cantor e por mais que Bradley Cooper tenha surpreendido todo mundo com uma atuação sólida como um bipolar, provando que não é ator só de comédias escrachadas, não adianta. Day-Lewis “cometeu” uma atuação impecável como Lincoln. Encarnou o personagem não só na aparência mas também nos trejeitos e construindo maneirismos detalhistas e pequenas inflexões de voz que nos fazem acreditar no seu Lincoln, por mais que Spielberg tenha se esforçado para torná-lo bidimensional. É um dos grandes atores de sua geração e encontra-se na maturidade, muito seguro e ainda com bastante energia. Não consegui ver “O Mestre” ainda, e Joaquin Phoenix tem sido também muito elogiado e é o único que aparece em condições de fazer o crime. No qual não acredito.

 

Melhor Atriz

Quvenzhané Wallis (Adorável Sonhadora), Jeniffer Lawrence (O Lado Bom da Vida), Naomi Watts (O Impossível), Jessica Chastain (A Hora Mais Escura) Emmanuelle Riva (Amor)

Quem eu acho que vai ganhar: Jeniffer Lawrence

Quem eu acho que DEVERIA ganhar: Jennifer Lawrence [EDITADO: vi Amor ontem. E… bah. Continuo inclinado a preferir Lawrence, mas… mas… Bah. Emmanuelle Riva. Bah.]

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Jeniffer Lawrence com Bradley Cooper: boa química e ótima direção de atores

Jeniffer Lawrence é uma excelente atriz, teve uma atuação muito boa e ganhou a maioria das premiações da temporada. Além disso está fazendo direitinho o circuito de quem quer ganhar, indo aos programas de entrevista, sendo simpática e dando as respostas certas. Não há dúvidas que a assessoria da moça está trabalhando muito bem para que ela saia vencedora. Não será grande surpresa, porem, se Emmanuelle Riva, aniversariante na noite da festa, sair premiada recebendo a estatueta do compatriota Jean Dujardin, que venceu ano passado por amor. A Academia gosta desse tipo de coincidência/celebração.

 

Melhor Ator Coadjuvante

Indicados: Christoph Waltz (Django), Phillip Seymour-Hoffman (O Mestre), Robert de Niro (O Lado Bom da Vida), Alan Arkin (Argo), Tommy Lee Jones (Lincoln)

Quem eu acho que vai ganhar Christoph Waltz

Quem eu acho que DEVERIA ganhar: qualquer um deles.

Fala sério! Olha esse time… TODOS já levaram o Oscar. Waltz, que é austríaco, recebe a sua segunda indicação pelo seu apenas sexto filme falado em inglês. Todos os outros tem no mínimo QUATRO indicações. Por que eu acho que Waltz vai ganhar, apesar de seu personagem ser MUITO parecido com o seu personagem em “Bastardos Inglórios”? Por que acho que será, novamente, o prêmio de consolação de Tarantino, já que “Django” não deve levar nenhum dos prêmios mais importantes. Nenhum dos atores indicados que ganhar será surpresa. Todos são ótimos e tiveram atuações elogiadíssimas.

 

Melhor Atriz Coadjuvante

Indicadas: Sally Field (Lincoln), Amy Adams (O Mestre), Jacki Weaver (O Lado Bom da Vida), Anne Hathaway (Os Miseráveis) e Helen Hunt (The Sessions)

Quem eu acho que vai ganhar: Anne Hathaway

Quem eu acho que DEVERIA ganhar: Anne Hathaway. Mas não vi “O Mestre” e “The Sessions” ainda…
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Anne Hathaway sonha um sonho. A poderosa canção vai valer uma estatueta para ela. 

Anne Hathaway provavelmente ganhou o Oscar numa cena. A cena mais linda e mais emocionante de “Os Miseráveis”, na qual ela cantou “I Dreamed a Dream” de maneira maravilhosa. Todas estão sendo elogiadas, mas Hathaway tem levado todas as premiações. Com justiça, na minha opinião.

 

Melhor Roteiro Original

Indicados: Quentin Tarantino (Django Livre), Michael Haneke (Amor), John Gatins (O Voo), Wes Anderson e Roman Coppola (Moonrise Kingdom), Mark Boal (A Hora Mais Escura)

Quem eu acho que vai ganhar: Haneke

Quem eu acho que deveria ganhar: Tarantino (ainda não vi Amor, Moonrise Kingdom e A Hora Mais Escura)

Minhas opiniões aqui perdem um pouco a importância em função de eu só ter visto dois dos indicados. Gosto do roteiro de Tarantino e acho que Haneke vai ganhar como prêmio de consolação, já que deve perder filme e diretor mesmo que provavelmente tenha o melhor filme e a melhor direção.

 

Melhor Roteiro Adaptado

Indicados: Chris Terrio (Argo), Lucy Alibar e Benh Zeitlin (Adorável Sonhadora), David Magee (As Aventuras de Pi), Tony Kushner (Lincoln), David Russell (O Lado Bom da Vida)

Quem eu acho que vai ganhar: Kushner

Quem eu acho que deveria ganhar Chris Terrio

Quando um filme ganha “Melhor Filme” é tendência ganhar outros prêmios para “fortalecer” sua vitória. É o que eu acho que vai acontecer aqui, por mais que o roteiro de “Lincoln” tenha alguns problemas, principalmente no aprofundamento dos personagens. “Argo” é um roteiro bem mais redondinho, mas ainda acho que vai ser o patinho feio da noite.

 

Premiações técnicas:

Em virtude de não ter assistido muitos dos filmes que concorrem nas categorias mais técnicas, vou poupá-los dos meus palpites. Segue aqui um link para um post meu de dois anos atrás no qual eu explico as categorias técnicas, que sempre é de grande valia para quem não sabe exatamente o que significa “montagem” ou não diferencia “mixagem de som” de “edição de som”: http://www.paginadois.com.br/blog/?id=3&com=posts&pagina=detalhe&idPost=488

 

No mais, amigos, é preparar a pipoca, fazer suas apostas e curtir amanhã, desde o red carpet até o anúncio do Melhor Filme… e eu ainda torço para que “Argo Fuck Yourself!”, como dizem no filme

Cinema

Holy shit! What the fuck is wrong with you?

por Pedro Cunha

Holy shit! What the fuck is wrong with you, people? (ou “Nossa mãe! Que diabos está errado com vocês?”, numa versão das distribuidoras de cinema brasileiras)

Várias vezes eu já briguei aqui por causa dos títulos dos filmes colocados pelas distribuidoras brasileiras. Em que planeta alguém pensa que “Noivo Neurótico, Noiva Nervosa” poderia ser um bom título para um filme chamado “Annie Hall”?? Quem foi o jênio (sic) que achou que “Amor, Sublime Amor” era uma tradução adequada para “West Side Story”? Pode ter sido a mesma pessoa que teve a brilhante ideia de chamar “Inception” de “A Origem”, entregando boa parte do filme, como também fizeram com “Vertigo” (que se tornou “Um Corpo que Cai”) ou “Cloverfield” (rebatizado em terras brasileiras como “Cloverfield: Monstro”). E antes que alguém argumente, todos os casos citados são de facílima tradução sem prejuízo do contexto do filme. Ou alguém acha que “A Inserção” ou “Vertigem” seriam nomes ruins? “Uma História do West Side” funcionaria, eu acho. Sem falar em “Annie Hall” ou “Cloverfield”, que poderiam ser traduzidos como… hm… “Annie Hall” e “Cloverfield”. (Cloverfield, aliás, junta-se a longa lista de filmes que as distribuidoras acham melhor explicar para que o público “burro” entenda, como “Pulp Fiction” (Tempo de Violência) ou “Forrest Gump” (O Contador de Histórias). ).

Voltei a esse assunto porque dois dos filmes que concorrem ao Oscar de Melhor Filme semana que vem “padecem” desse mal. Um é “Beasts of the Southern Wild” (Behn Zeitlin, 2012), que acharam por bem no Brasil chamar de “Indomável Sonhadora”. “Monstros do Sul Selvagem”, pensando rápido, seria um título melhor e que se relaciona com parte importante da trama. “Ah”, alguém poderia dizer, “Mas aí remeteria a um filme de terror, o que ele não é”. Se eu fosse aceitar esse argumento o primeiro título que eu teria que riscar da minha lista seria… “Indomável Sonhadora”, sem dúvida. Já que esse título não diz NADA sobre o que é o filme e ainda engana. O que também é o caso, aliás, de “O Lado Bom da Vida” (David Russel, 2012), o outro filme do qual falei no início. Esse, admito, uma tradução mais difícil. O título em inglês, “The Silver Linings Playbook” usa uma expressão idiomática difícil de traduzir. Eu, depois de ter visto o filme, usaria algo como “O Fio de Esperança”, “Buscando o Fio de Esperança”, ou algo assim. Mas, reconheço, essa é difícil. O problema, nesse filme, é mais grave. Não só usou-se um título leve como também venderam o filme, através de cartazes e resenhas, como se fosse uma comédia romântica. O que ele passa longe de ser.

Problemas de tradução a parte, vamos falar um pouco dos filmes:

O Lado Bom da Vida (The Silver Linings Playbook, David O. Russell, 2012)
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Oito indicações: Melhor Filme, Melhor Diretor (David O. Russell), Melhor Edição, Melhor Roteiro Adaptado, Melhor Ator (Bradley Cooper), Melhor Atriz (Jeniffer Lawrence), Melhor Atriz Coadjuvante (Jacki Weaver), Melhor Ator Coadjuvante (Robert de Niro).

Já ganhou: 1 BAFTA (Roteiro Adaptado), 1 Globo de Ouro (Melhor Atriz, Jeniffer Lawrence), 1 SAG Awards (Melhor Atriz, Jeniffer Lawrence).

David Russell já havia aparecido como um excelente diretor em “O Vencedor” (The Fighter, 2010) (e o paginadois falou sobre o filme aqui: http://bit.ly/fVaPZs ) com o drama real da família de boxeadores, sendo um o desajustado que pena para encaixar-se na sociedade. “O Lado Bom da Vida”, nesse sentido, conversa muito com “O Lutador”. O personagem de Bradley Cooper, Pat, é um ex-professor que sofre de bipolaridade e em função de uma separação tumultuada acabou passando alguns meses numa instituição psiquiátrica. Quando sai da instituição e volta a morar com os pais (Robert de Niro e Jacki Weaver, ambos ótimos) Pat quer reconstruir a sua vida e, sobretudo, reconquistar sua ex-esposa, de quem não pode sequer se aproximar em função da existência de uma ordem de restrição judicial. Dentro da lógica dele Pat entende que a ex-mulher está esperando que ele melhore para então se aproximar, e resolve então se jogar com todas as forças nesse processo de recuperação. É nesse processo que ele acaba cruzando com Tiffany (Jeniffer Lawrence), irmã da esposa de um amigo, que também passa por um processo de recuperação: apesar de muito jovem ficou viúva de maneira trágica e também tem sérios problemas psiquiátricos. A possibilidade de um ajudar o outro nos seus processos de recuperação marca o filme e faz com que nos simpatizemos com os protagonistas.

A maneira como Russell opta por contar a história, não entregando toda a situação tanto de Pat quanto de Tiffany no início, revela-se uma excelente estratégia narrativa. Ficamos curiosos para saber o que aconteceu com aqueles personagens e o que os levou ao fundo do poço. Ao mesmo tempo torcemos por eles e ficamos chocados com as recaídas de ambos. Pat passa a maior parte do filme na fase maníaca. Em compensação, quando “vira o fio”… é assustador de ver. E o trabalho de Bradley Cooper aparece bastante nessa hora. Assim como as recaídas de Tiffany, essas bem mais discretas, também são parte de um belo trabalho de Lawrence, que hoje é a franca favorita para o Oscar de Melhor Atriz. Aqui, aliás, aparece o maior mérito de David Russell, que é a direção de Ator. Nesses dois últimos filmes Russell teve SETE atores indicados (em “O Lutador” Amy Adams foi indicada como coadjuvante e Melissa Leo e Christian Bale venceram como atriz e ator coadjuvantes). “O Lado Bom da Vida” tem, além dos dois protagonistas, um Robert de Niro atuando como a muito não se via. Os pequenos transtornos obsessivos-compulsivos do seu personagem, tratados como superstição e não doença, e os pequenos maneirismos na atuação de de Niro nos lembram o grande ator que ele é. A atuação de Weaver é marcada por olhares e pequenos gestos de uma mãe apreensiva. Ela consegue ser surpreendentemente expressiva mesmo com poucas falas. Falando em trabalho de ator é realmente uma pena que a participação de Chris Tucker tenha sido tão limitada. Suas cenas sempre são boas e são o alívio cômico de um filme que, por mais que tenha sido vendido como comédia, passa LONGE de ser uma comédia.

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Jeniffer Lawrence. E eu escolhi colocar essa foto porque… porque… enfim, porque é a Jeniffer Lawrence. Precisa mais? 

A direção de ator é o que o filme tem de melhor, e se destaca nos dois primeiros atos do filme. É uma pena, mesmo, o escorregão que o filme toma no seu terço final. O que era um drama, um bom drama, vai a um fim preguiçoso e previsível que mergulha de cabeça em todos os clichês das comédias românticas. O que acaba acontecendo é que o filme promete e não entrega. Ou melhor, se entrega. A solução dos conflitos, apesar de previsível, era altamente improvável em função de tudo que tinha sido apresentado no início do filme. E a cena quase final, com o mocinho perseguindo a mocinha na rua (sempre deserta, nessas cenas) e enfim o beijo redentor promete uma solução muito simples para problemas que foram apresentados como sendo muito, mas muito complexos. Pena mesmo.

 

Indomável Sonhadora (Beasts of the Southern Wild, Benh Zeitlin, 2012)
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Quatro indicações: Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Roteiro Adaptado, Melhor Atriz (Quvenzhané Wallis)

Já ganhou: Quatro prêmios em Cannes.

O filme de estreia de Benh Zeitlin é daqueles que, mais do que para serem entendidos, é para serem sentidos. O filme nos apresenta uma comunidade marginal em Nova Orleans, “A Banheira”, que vive em um conjunto de ilhas na foz do Mississippi, próximo a Nova Orleans. A comunidade pode ser classificada como “marginal” em função de viver de acordo com as suas próprias regras e longe de toda a estrutura do estado americano. Uma das coisas bacanas do filme é justamente mostrar uma comunidade norte-americana imersa na absoluta pobreza. Não são muitos os filmes que mostram a face pobre dos EUA, que não é muito diferente, enfim, da face pobre de qualquer país do planeta.

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Hushppupy e o pai locomovendo-se pela Banheira… 

O dia a dia na Banheira é mostrado pelo ponto de vista de uma criança de seis anos, “Hushpuppy”, encarnada pela surpreendentemente indicada ao Oscar Quvenzhané Wallis. O filme, contado pela menina, torna-se extremamente subjetivo e lindo. Os monstros aos quais ela faz referência seriam os “Auroques”, que estariam sendo libertados pelo derretimento das calotas polares, fato que ameaça, em função da elevação do nível dos mares, a própria existência da Banheira. Hushpuppy (quase que “filhote”, em português) é criada por um pai que se preocupa em endurecê-la para enfrentar as adversidades do mundo. A criança cresce quase como um animal e o pai preocupa-se com a provável proximidade da sua ausência, uma vez que tem uma doença que parece terminal. O pai, também endurecido, é encarnado por Dwight Henry, que também estreia no cinema nesse longa.

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A pequena Hushpuppy encara seus monstros imaginários 

A escolha narrativa de colocar Hushpuppy como narradora mostra tudo pelo ponto de vista de uma criança, que consegue ser muito simples sem ser simplista. As ameaças à Banheira, tanto reais quanto irreais, materializam-se na forma dos monstros gigantes para uma criança que sente falta da mãe e quer demonstrações de carinho do pai. Um filme para ser visto e sentido. Com a intensidade dos monstros que vem do sul selvagem.

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O dia a dia cru e endurecedor da Banheira, onde o pai prepara Hushpuppy para sobreviver.