Clarice Dall’Agnol

Literatura

Devaneio

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imagem: Cassiano Rodka

por Isabel Dall’Agnol

Confesso que já nem sei…
Se foi lá que ela se perdeu,
ou se foi daqui que jamais saíra.

Ainda tento buscá-la
nas fotos que restaram.
Procuro qualquer rastro
que possa me revelar
seu esconderijo.

Sinto que nunca
cruzamos o oceano.
Acredito que não
partilhamos o sonho.
Não me lembro
de escutá-la
gargalhando.
E nem, sequer,
de assisti-la dançar.

Mas recordo-me
de seguir suas pegadas
na noite fria e
de encontrar seu conforto
na cama macia.
Sei que estava me cuidando,
escondida naquela árvore,
carregada de pétalas rosas.

Como eu disse…
Já nem sei…
Se foi lá que ela se perdeu,
ou se foi daqui que jamais saíra.
Só sei que sigo com a alma vazia.

Literatura

Mil razões pra escrever poesia

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imagem: Cassiano Rodka

por Clarice Casado

A todas as razões,
mesmo sem a menor razão.

Quando a mente não entende o coração
Quando o céu chora sem lágrimas
Quando os censores internos estão bêbados
Quando a angústia resolve passar a noite
Quando nenhum vício resolve
Quando os gestos discordam das palavras
Quando as palavras dizem o exato contrário
Quando um filme é muito mais que um monte de imagens em sequência
Quando a história não consegue se escrever sozinha
Quando uma conversa provoca dúvidas invisíveis a olho nu
Quando o pensamento não está organizado em gavetinhas
Quando uma música tem milhões de significados
Quando um objeto se traduz em intensa agitação interna
Quando nem toda luz tem origem esperada
Quando uma imagem não vale nem dez palavras
Quando a verdade faz cócegas
Quando a tristeza corta até a raiz
Quando o mais belo entardecer sussurra segredos
Quando o amor se confunde com o pranto
Quando se percebe que uma lista como esta é infinita.

Cinema

O Grande Gatsby

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por Pedro Cunha

Scott Fitzgerald disputa com Ernest Hemingway o título de maior escritor americano do século XX (que me perdoem os fãs de Sidney Sheldon ou Stephen King…). Tanto o primeiro quanto o segundo já tiveram ótimas adaptações de suas obras para o cinema: a animação de Aleksandr Petrov de 1999 para “O Velho e o Mar”, de Hemingway, é lindíssima, enquanto “O Curioso Caso de Benjamin Button”, de Fitzgerald, foi transformado num lindo filme por David Fincher em 2008 que fez justiça ao conto que foi originalmente publicado em “Histórias da Era do Jazz”.

“O Grande Gatsby”,  romance mais conhecido de Fitzgerald, é considerado o retrato de uma época nos EUA. Foi adaptado para o cinema mais de uma vez, sendo a primeira em 1926, por Herbert Brenon. A versão de 1974, dirigida por Jack Clayton, era considerada por muitos como definitiva. Com um roteiro de Francis Ford Coppola e atuações dos jovens promissores Robert Redford e Mia Farrow nos papeis centrais, o filme ganhou dois Oscars (Melhor Figurino e Melhor Trilha Sonora Original). Há boatos que o próprio Coppola não gostava muito das mexidas que deram no seu roteiro, mas o fato é que essa versão foi, durante muito tempo, o “Gatsby” do cinema.

Quando Baz Luhrmann anunciou estar a frente do projeto de fazer o Gatsby do século XXI, muita gente já sabia o que esperar. Os pais do diretor australiano eram competidores de dança de salão e ele cresceu no meio da música, dos paetês e do exagero, universo que não cansa de colocar em seus longas. Numa estreia ousada Luhrmann adaptou uma das histórias mais contadas da história do cinema, o drama de amor do casal jovem do bardo bretão. “Romeo + Julieta” (1996) ganhou elogios de público e crítica e ajudou a catapultar um jovem ator de Hollywood ao posto de galã: ninguém menos que Leonardo DiCaprio, com quem ele se reencontraria em “O Grande Gatsby” (2013). A adaptação de Luhrmann foi ousada e conservadora: ousada na montagem, na trilha sonora, na edição, no figurino. Conservadora onde deveria: no texto, mantido 100% fiel a Shakespeare. O resultado foi um filme que manteve a profundidade da peça original renovando a força de uma história que se provou, uma vez mais, universal. Os cortes rápidos, as cores berrantes saturadas e a linguagem de videoclip não destoaram de um texto do século XVI, mas sim chamaram a atenção para ele e apresentando um texto e um autor clássicos a uma nova geração.

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Um jovem Leo DiCaprio foi Romeu e começou a tornar-se galã 

“Moulin Rouge: Amor em Vermelho” (Moulin Rouge!, 2001), o próximo longa do diretor, manteve a fórmula. Um conto de amor na Paris da belle époque estrelado por Nicole Kidman, que era talvez a maior estrela do cinema hollywoodiano naquele momento. O ótimo Ewan McGregor fez o par romântico com ela e ambos cantaram em uma série de números musicais que revisitam canções pops das décadas de 80 e 90. O resultado foi, mais uma vez, aclamado pelo público.

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O kitsch, o burlesco e até o carnaval são referências das quais Luhrmann abusou em Moulin Rouge 

Kidman volta a trabalhar com Luhrman em 2008, juntamente com Hugh Jackman, no ambicioso “Australia”, que apesar de ter custado 78 milhões de dólares e arrecadado 211 milhões, foi considerado um fracasso de público e achincalhado pela crítica.

“O Grande Gatsby” (2013) é o quinto longa do diretor (o primeiro foi “Vem Dançar Comigo!” (Strictly Ballroom, 1992), que fala – supresa! – sobre dança de salão) e não desapontou os fãs do australiano. Todos os elementos que caracterizam o trabalho de Luhrmann estão lá: a música pop, as coreografias, as corres berrantes, os cortes rápidos, a linguagem de videoclip e as muitas referências de apelo visual. A curiosidade era se isso tudo casaria com uma obra de Fitzgerald sobre os EUA nos anos 1920. E casou. Como já havia casado com um texto de Shakespeare do século XVI, enfim. A narrativa é rápida mas não se perde. Há um fio condutor, que é o eficiente Tobey Maguire fazendo o papel de Nick Carraway, o narrador. O fato dele ser um “estranho” naquele mundo que o filme retrata ajuda a situar também o telespectador lá. Carey Mulligan (“Educação” (2009), “Wall Street: O Dinheiro Nunca Dorme” (2010), “Drive” (2011) ) é uma das novas caras queridinhas (e promissoras) de Hollywood e tem a responsabilidade de encarnar Daisy, papel que foi de Mia Farrow no filme dos anos 70. Foi uma escolha acertadíssima de Luhrmann para um papel que é denso e tem de parecer, na maior parte do filme, leve. Falando em acertos do diretor, mais um foi demorar a mostrar o protagonista do filme, Jay Gatsby. Mesmo antes de aparecer Gatsby é o centro do filme, sendo o assunto do qual todos os personagens falam e sobre o qual especulam. Leonardo DiCaprio é um dos maiores atores de sua geração e quem foi ao cinema inevitavelmente já sabia que ele era Gatsby, mas ainda assim há uma aura de mistério e espectativa em torno da chegada dele em cena. Luhrmann entrega o que promete nesse sentido, fazendo com que a entrada de Gatsby em cena seja apoteótica, como também as festas na mansão do milionário. Sobre as festas, aliás, ali o diretor se esbaldou: as famosas festas de Gatsby foram onde as tendências do australiano ao exagero visual foram bem aproveitadas.

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Carey Mulligan, lindinha e talentosa 

O contraponto visual que o filme estabelece entre o lindo e claro mundo dos novos-ricos de Long Island e o escuro e fumacento mundo dos miseráveis é caricaturalmente exagerado, o que não é um problema, já que encaixa-se na proposta visual exagerada do filme. Falando em exageros, uma das marcas registradas de Luhrmann, como eu já disse, eles aparecem em muitos momentos. As coreografias que envolvem serviçais e até cortinas nas mansões dos ricos-muito-ricos, os tocadores de jazz que estão (ou não estão?) em janelas pelo caminho, a ação ritmada dos mineradores de carvão na parte pobre do mundo (por onde os ricos só passam de carro, quando deixam seu mundo onírico e dirigem-se para Nova Iorque, a cidade “de verdade”) são elementos visuais que ajudam a dar ao filme todo um ar fabulesco sem que a história perca sua força ou sua credibilidade.

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A parte pobre do mundo é cinza e escura em contraponto às famosas festas na mansão de Gatsby em Long Island…
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… onde você encontra, se procurar com atenção, até uma ZEBRA NA PISCINA!!! 

“O Grande Gatsby” fecha o que eu considero uma trilogia de Luhrmann sobre amor, pureza e corrupção. Em “Romeu + Julieta” os dois jovens tinham um amor puríssimo. A corrupção aparece nas famílias de ambos, que não conseguem realizar aquele amor sem passar por cima dos problemas familiares, levando à fatídica conclusão. Em “Moulin Rouge: Amor em Vermelho” o amor do personagem de McGregor é suficientemente puro para sensibilizar Satine, mas ainda assim ela paga pela própria corrupção. Já Gatsby é um personagem que se corrompe em todos os aspectos, menos o amor. O seu amor é puro, e é em nome dele que o personagem se corrompe. O resultado não podia ser outro: a corrupção não é perdoada, como não o é em nenhum dos filmes do diretor. A pureza do amor (e não vou falar sobre Daisy e seu amor para não incorrer em spoiler) nunca é suficiente para a felicidade dos personagens, bem pelo contrário: acaba levando-os sempre ao mesmo resultado.

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Referência constante durante o filme, os “olhos que tudo veem” são a nossa própria consciência, que é testemunha de todos os nossos pecados

O filme de Luhrmann é um encanto visual enquanto a trilha sonora, deixada ao encargo de Jay Z, é vibrante, atual e encaixa-se com o sonho feérico que Luhrmann tenta nos mostrar ao recontar a triste história do pobre menino rico Jay Gatsby.

Deixe-se você também seduzir pelo Grande Gatsby…

Literatura

Se

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imagem: Ana Nitzan

por Marcella Marx

tu soubesses as perguntas a jorrar de um dia chuvoso não mandarias nuvens escuras
a mulher das mágoas quisesse sorrir ela jamais ficaria em silêncio
as crianças fossem consultadas haveria guerra de travesseiros
a gentileza estivesse entre nós haveria estilingue de rosas e não buzinas
o possível está à curta distância a escalada torna-se uma obrigação.

Literatura

Minha mãe em mim

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imagem: Cassiano Rodka

por Clarice Casado

Que minha mãe habita em mim, eu já sabia. Se fosse diferente, eu não seria eu mesma. Hoje, porém, olhei-me no espelho, um olhar bem olhado, daqueles demorados, e em meus olhos e em meu semblante quem eu vi foi muito ela, escrita, igualzinha a quando ela tinha exatamente a minha idade… Foi uma sensação muito estranha, mas extremamente confortante. Aqueles olhos azuis dela sempre foram seu resumo mais que perfeito. Eu só não tenho a mesma cor de olhos – os meus são de um “verde azeitona”, como ela mesma sempre descreveu, aliás. E eu amo azeitonas, portanto, achava (e ainda acho) o máximo aquela descrição! Mas independentemente da cor diferente, até meus olhos achei parecidos com os dela hoje, e os olhos, penso eu (e a grande maioria dos poetas!), dizem tudo sobre alguém.

Ah, eu e os espelhos… Sempre gostei deles. Muito. Sobre espelhos, meu Padrinho (o beatlemaníaco, responsável por meu amor pelos Beatles, já falei dele mais de uma vez por aqui) conta uma história engraçada. Estava ele certa vez se olhando no retrovisor do carro (ele também é um grande amigo de seu próprio reflexo!), e me pegou fazendo a mesma coisa, ao mesmo tempo: o detalhe é que eu tinha uns dois ou três anos de idade…! Pequena “Narcisa”, sem vergonha alguma…!

Tenho com os espelhos uma relação de amor e ódio, claro. Há os dias em que quero quebrá-los, os indiscretos, porque ficam querendo me revelar coisas que não quero ver… Os deixo imediatamente (medida sábia nos momentos mais difíceis). Há as vezes, porém, em que eles me recebem amáveis, cheios de sorrisos, me mostrando – também indiscretamente – como é bom ser eu! Estes são, sem dúvidas, os melhores dias da nossa relação, apesar de que os dias ruins também me ensinam um milhão de lições. Ainda bem, já que o amor a si mesmo, apesar de ser maravilhoso, precisa ter seus limites, para que o “si mesmo” saiba como é esquecer-se, às vezes, um pouco de “si”…

“Narcisa”, sim, mas também desastrada por excelência: quebrei dois espelhos na minha adolescência. Dizem que quebrar espelhos é sinal de mau agouro, e que a pessoa que o faz terá sete anos de azar. Pois se eu de fato levasse isso em consideração, teria ficado em “estado de azar” por quatorze anos consecutivos, dos meus dezesseis aos meus trinta anos: é muito azar pra um vivente só…! Não acredito nem em azar, e nem em sorte, aliás: sou uma fiel seguidora da teoria do acaso, e é o acaso que me move a escrever. Que graça teria acreditar que “por sorte” tive uma ideia para uma crônica ou poema? Adoro crer que o acaso, hoje, me levou a me olhar no espelho de um elevador qualquer da cidade, me fez achar que eu estava igualzinha a minha mãe, e que esta simples ideia me levou a escrever esta crônica que neste exato momento termino, leitores! Obrigada pela atenção, mais uma vez.

Literatura

No enquanto

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imagem: Ana Nitzan

por Marcella Marx

O estudante ouvia a música e lia um livro
A aluna conversava com um amigo e assistia um filme
O homem tomava banho e estudava um contrato
A mulher dormia  e escrevia sua próxima crônica
O dono de casa fazia a lista do supermercado e brigava com a esposa
Anita vivia hoje e pensava o amanhã
Pedro lembrava de ontem e planejava o dia seguinte
Eu escrevo essa reflexão e penso na criança –
que ainda consegue fazer uma coisa de cada vez.

Literatura

Toda nuvem tem seu contorno prateado

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imagem: Cassiano Rodka

por Clarice Casado

“The world will break your heart ten ways to Sunday, that’s guaranteed.”
(parte do monólogo final do filme “Silver Linings Playbook”)

Hoje vou fazer o que não faço há um tempão: escrever sobre cinema. Ou melhor, sobre um filme. Já pedi licença em outras oportunidades ao Fabiano Liporoni e ao Moisés Westphalen, que foram colunistas de cinema do PáginaDois, e hoje peço a vênia ao Pedro Cunha, que é o responsável pela coluna atualmente.

Pedro, me concede então a “benção” para falar um pouco de “Silver Linings Playbook” (em português, “O Lado Bom da Vida”). Fazia um tempão que eu não via um filme tão tocante e tão diferente. Um filme que mexeu comigo de um jeito diferente. Durante todo o desenrolar do enredo, baseado em um romance de Matthew Quick, eu fiquei na dúvida sobre o que aquela história estava provocando em mim. Eu geralmente faço isso quando assisto a filmes, de modo inconsciente. Desta vez, porém, eu de fato me perguntei o tempo todo o que aquilo tudo queria me dizer.

O filme conta uma história de amor envolta por uma atmosfera densa e indecifrável, de um amor indeciso e improvável; tímido, mas intenso, entre pessoas metalmente atormentadas; um amor que cria raízes aos pouquinhos, e quando se instala, é arrebatador. O enredo causou-me uma interessante sensação de estranhamento, aquela sensação que só boa arte causa, e penso que é exatamente neste sentimento que provoca no espectador que reside a beleza da narrativa dirigida por David O. Russell.

O que primeiramente me chamou a atenção no filme foi o título. De modo geral, escolho livros e filmes pelo título. Os títulos são os olhos dos livros e filmes. Te convidam a entrar, ou não. Quando eu estava na faculdade de Letras, no início dos anos 2000, certa vez uma de minhas professoras da disciplina de Tradução nos passou uma tarefa em que tive que traduzir um texto que trazia a seguinte expressão: “every cloud has a silver lining”. Basicamente, ela significa que toda situação difícil ou triste tem sempre seu lado bom. E é exatamente esse o eixo central desse belíssimo drama: a busca incansável pelo lado positivo dos acontecimentos ruins de nossas vidas. A origem da expressão “every cloud has a silver lining”, lembro-me bem, porque pesquisei, baseia-se em uma imagem: após as tempestades, é comum ver-se raios de luz do sol que surgem por detrás das nuvens, deixando-as com cores bonitas, de prata e ouro. Significa que a tempestade acalmou, o tempo melhorou, a vida segue seu curso. A imagem é linda, a ideia é linda, é pura poesia! A expressão, assim, é também carregada de pura poesia, e só poderia inspirar um bom artista. Inspirou Matthew Quick, e inspirou David O.Russell, e, bem, inspirou esta modesta escritora que ora vos fala…!

A sensível narrativa fala das famosas “segundas chances”, das possibilidades boas e restauradoras que podem surgir em nossas vidas após as quedas inevitáveis pelas quais todos nós infelizmente temos (e teremos) de passar ao longo do caminho. Isto me faz lembrar uma frase que ouvi em outro filme (infelizmente não lembro qual), algo como “a vida ainda vai te nocautear muitas vezes, mas é preciso saber se erguer após o tombo”. E é isto mesmo: vamos tomar vários socos da nossa vida, isso não dá para evitar. Não dá para fugir. O que dá é para tentar encarar com coragem a queda e o problema, se levantar rapidinho, e buscar um caminho melhor. Tudo isto parece óbvio. E é. Porém, em “Silver Linings”, vemos que o levantar depois da queda pode parecer horrível no início, mas o “contorno prateado” de sua nuvem negra vai surgir, e é justo na possibilidade desta luz especial que precisamos nos apoiar. A tormenta, de regra, é arrebatadora. A arte da reconstrução está em confiar que ela vai acontecer, e seguir. Confiar que uma poderosa mão amiga e um concurso de dança – coisas singelas, aparentemente banais – como acontece no filme, podem salvar a sua vida, mudar seu rumo, reescrever a sua história. É só saber conduzir. Nesta sinfonia, caro leitor, o maestro sempre vai ser você. Vamos lá, é só pegar a batuta. É sempre possível.

Cinema

Homem de Ferro 3

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por Pedro Cunha

Quando fui ao cinema para ver “Homem  de Ferro 3” eu tinha uma expectativa de que pudesse haver alguma mudança na condução da trama. Jon Favreau, o diretor dos dois primeiros longas do Vingador Dourado (como ele é conhecido nos quadrinhos) afastou-se da direção e ocupou-se da produção, chamando para dirigir um dos roteiristas do filme, Shane Black. Black é o roteirista da série “Máquina Mortífera” e de outros filmes de ação como “O Último Boy Scout” (The Last Boy Scout, 1991) e “O Último Grande Heroi” (Last Action Hero, 1993). O que une os filmes de Black é o fato de que além de terem boas cenas de ação eles também tinham bastante humor, o que faria com que ele parecesse o cara ideal para tomar as rédeas da série do Homem de Ferro, uma vez que essa foi a grande marca do primeiro (e ótimo) filme, dirigido por Favreau. O segundo, também dele, é bastante inferior. Fiquei curioso então em ver como a mudança da direção afetaria o filme. Os trailers que eu vi no cinema me deixaram, como fã de quadrinhos que sou, ainda mais curioso. Teríamos a presença do Mandarim, um dos vilões mais bacanas do Homem de Ferro!

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Tony Stark em momento hamletiano: ser ou não ser?  

O filme de Black cumpre o que promete, é a primeira coisa que temos que dizer. Estão presentes as cenas de ação (numa quantidade maior do que no segundo longa), e a qualidade delas é muito melhor do que as do segundo filme. As brigas do Homem de Ferro com os terroristas aprimorados pelo extremis (outra boa referência aos quadrinhos) são muito boas, dentro do estilo HQ de brigas de cinema, aquele irreal onde pessoas são jogadas a centenas de metros, quebram pilastras com o corpo e nada acontece com elas (Se você não reclamou disso no “Sin City” de Snyder nem nos “Batman” de Nolan não pode reclamar agora…). O roteiro acerta em gravitar o filme todo em cima daquilo que já sabíamos que funcionava: Robert Downey Jr e o papel dele próprio que salvou sua vida cinematográfica, Tony Stark/Homem de Ferro. Nesse sentido, é bom dizer, temos muito mais Tony Stark do que Homem de Ferro, e o filme ganha com isso. O bom elenco de apoio gravita em torno de Downey Jr com o diretor tomando cuidado para que o protagonista não seja nunca eclipsado. Gwyneth Paltrow como Pepper Pots e Don Cheadle como James Rhodes/Máquina de Guerra estão confortáveis nos papeis e já conhecem seus personagens. Nesse sentido, podemos destacar uma presença maior de Pots que, pela terceira vez, desempenha o papel de Olívia Palito, a donzela em apuros a ser resgatada, mas que dessa vez dá um giro interessante no seu personagem no terço final do filme. Dentre os vilões, Guy Pearce interpreta Aldrich Killian, o rival econômico de Stark. O inimigo do Homem de Ferro é O Mandarim, um terrorista internacional vivido pelo experiente Bem Kingslay (oscarizado por “Gandhi” em 1982 e que tem ainda “A Lista de Schindler” e “A Invenção de Hugo Cabret” na sua loooonga lista de 111 filmes) que parece, num primeiro momento, inspirado claramente em Osama Bin Laden e sua guerra com o Ocidente, fazendo dele já bastante diferente do Mandarim dos quadrinhos, cuja origem é bem anterior a Bin Laden. Completa o casting a sempre competente Rebecca Hall (a neurótica insegura Vicky em “Vicky Cristina Barcelona”), como Maya Hansen, um personagem complicado de classificar na dicotomia “bem/mal” que às vezes temos nesse tipo de filme.

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O Mandarim do filme e o Mandarim dos quadrinhos, bastante diferentes. 

O roteiro, por vezes bem previsível, segue a linha clássica de “humilhação-destruição-redenção-vingança” do herói. Um arrogante Homem de Ferro lança um desafio para o então recém-chegado Mandarim, que prontamente responde numa das cenas mais fantásticas do filme, a destruição da já famosa casa do playboy em Malibu. Não acho que seja spoiler falar disso porque essa cena foi amplamente divulgada em teasers e trailers antes do lançamento do filme (aliás, acho que hoje em dia há teasers, trailers e promos DEMAIS, mas isso é outro assunto…). A partir daí começa a jornada de redenção que passa pela perda simbólica inclusive do mordomo virtual Jarvis e pela reconstrução da própria armadura. Nessa jornada o herói conta com a improvável ajudar de Harley Keener (Ty Simpkins), um precoce menino de 10 anos. E sim, a criança é o que há de pior no filme. É forçado, é propositalmente piegas, não funciona. Desculpa, não consegui.

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Stark, o Homem de Ferro e o jovem Harley: não. 

Uma das coisas bacanas do filme foi a integração com os eventos de “Os Vingadores” (The Avengers, Joss Whedon, 2012). Tony Stark, um homem numa armadura, lutou ao lado de um deus, um supersoldado herói da Segunda Guerra e do Hulk contra invasores extradimensionais e um deus da trapaça. O que isso faz com a cabeça de alguém? Deu uma pirada em Tony Stark, que adquiriu os sintomas da síndrome do pânico e passou a trabalhar obsessivamente em novas melhorias e protótipos de armaduras. Em determinado momento do filme nos é dado a entender que Stark já fez mais de 40 diferentes armaduras, e a participação de cada uma delas na última tomada de ação do filme constrói uma cena deliciosa de se assistir.

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Armaduras: nunca é demais. Qual o melhor modelo para um sábado à noite? 

Além da questão técnica, onde o filme não peca, temos que destacar Downey Jr, mas sempre lembrando que Tony Stark é sua zona de conforto. A virada na trama do Mandarim também é interessante, apesar de não ser inédita. Chris Nolan fez algo bem parecido com seu Ra’s al Ghul em “Batman Begins” (2005), é bom lembrar. O roteiro é previsível e o filme cai muito bem como entretenimento, que é o que ele se propõe a ser. Melhor, substancialmente, do que o segundo longa do Homem de Ferro, mas talvez eu só tenha essa impressão porque o segundo, na verdade, foi uma grande decepção depois do ótimo filme que foi o primeiro. Enfim. Os Estúdios Marvel continuam na sua pretensiosa ideia de construir, nos cinemas, um multiverso interligado, no que têm tido sucesso até agora. A próxima atração, ainda para este ano é o segundo filme do Thor, (Thor: The Dark World, Alan Taylor), agora sem a direção de Kenneth Brannagh. Para 2014, teremos o segundo filme do Capitão América (Captain America: The Winter Soldier, Anthony e Joe Russo) e o primeiro dos Guardiões da Galáxia (Guardians of the Galaxy, James Gunn). Eu adoro os Guardiões, mas confesso que fiquei muito surpreso ao saber da coragem da Marvel de lançar um filme com heróis completamente desconhecidos do grande público. Pena que a Marvel tenha licenciado alguns de seus heróis e não possa integrá-los a esse megauniverso cinematográfico. A saber, Homem Aranha, Quarteto Fantástico, X-Men e Wolverine tiveram seus direitos vendidos pela Marvel antes da criação dos Estúdios Marvel, o que pode resultar em coisas bizarras como termos os personagens Mercúrio e Feiticeira Escarlate tanto na franquia dos Vingadores (com o segundo filme confirmado para 2015, sob a batuta de Joss Whedon) quanto na dos X-Men, onde a Fox planeja lançar “X-Men: Days of Future Past” (novamente com Bryan Singer, que dirigiu os dois primeiros longas dos mutantes) no qual especula-se a presença de ambos, que são os filhos de Magneto.

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Chega em agosto o segundo filme do Thor

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Arte feita pelos fãs para um pôster de “Guardiões da Galáxia”. Uma aposta improvável onde possivelmente aparecerá com mais destaque o vilão Thanos, que aparece na cena pós-créditos de “Os Vingadores”

Para ler sobre Homem de Ferro 2: http://www.paginadois.com.br/blog/?id=3&com=posts&pagina=detalhe&idPost=36

Para ler sobre Homem de Ferro e tudo que veio antes de Homem de Ferro 2: http://www.paginadois.com.br/blog/?id=3&com=posts&pagina=detalhe&idPost=35

Literatura

Águia amarela

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imagem: Ana Nitzan

por Marcella Marx

Lorenzo saiu de casa correndo pra não perder nenhum minuto de seu tempo livre. Desfez os nós do emaranhado de fios e abriu sua águia amarela. Começou a erguê-la até que ela tomou linha e subiu, bem alto. Tão alto que o menino nem sabia mais distingui-la dos raios do sol. Lorenzo tirou os sapatos um a um. Colocou os pés todos sobre o fio e começou a caminhar. Em pouco tempo estava quase alcançando as nuvens. Parou. Tirou do bolso uma pequena tesoura e cortou o fio sob seus pés. A Pipa despencou lá de cima. Lorenzo continuou flutuando.