
Você acorda e olha os e-mails. Posta a primeira foto na rede social para dar “bom dia” e deixar claro que está tudo bem com a sua vida. Dá uma vasculhada em jobs na outra rede e já deixa um post mostrando o que você fez de eficaz na sua vida profissional naquela semana. Nota que já tem várias mensagens no celular e vai respondendo uma por uma. E o dia segue, com atualizações constantes sobre onde você está, com quem e o que você acha sobre o que está acontecendo naquele exato momento.
A quem você está dando satisfação?
Desde o surgimento da internet, nós deixamos de ficar sós. A possibilidade de conexão com outro ser humano está sempre a uma tecla de distância. A solidão saiu de moda. O silêncio, ninguém nem lembra o que era. O celular está constantemente à mão, o que significa que você está permanentemente à disposição dos outros. Se você coloca o telefone no bolso, você inclui o seu chefe, a sua mãe, os seus amigos e toda a galera do telemarketing na calça. É muita gente para o pobre jeans surrado!
Não poderia ter um resultado diferente: uma era de ansiedade, com pessoas continuamente preocupadas em deixar tudo no lugar o tempo inteiro. É como um barulho ininterrupto, que corta o silêncio e lembra você que existe algo que ainda não foi feito para você ficar plenamente satisfeito.
Mas você está tendo alguma satisfação?
Até na hora de relaxar, há cobranças: você já viu a série do momento? Não? Já tem sete temporadas! O novo filme da Fulana Jones? O mais recente livro do Beltrano de Castro? O último álbum de Cicrano Star? É impossível acompanhar o ritmo de um mundo conectado, pois tem sempre alguém fazendo algo novo a cada minuto. E vamos ser sinceros? A gente não precisa de 90% do que está sendo produzido. E não estou falando em qualidade – tem sempre muita coisa boa sendo criada –, estou falando daquilo que nos toca de verdade. Nem tudo que é bom para os seus amigos vai fazer sentido para você.
Em janeiro, eu fiz apenas uma resolução de Ano Novo: me dar o direito de um tempo para fazer nada. NADA! O que este “nada” inesperadamente gerou foram momentos em que eu consigo silenciar a mente e curtir coisas que eu realmente quero fazer naquele instante. Sem me preocupar em ser produtivo ou útil. Não são momentos instagramáveis, são oportunidades de estar comigo, plenamente sozinho, sem ter que alcançar objetivo algum. Me sinto recuperando algo importante na minha vida, um controle do barulho externo.
Havia um tempo em que, quando a gente chegava em casa e fechava a porta, o mundo ficava lá fora. Era portanto, um espaço só nosso. Era preciso ser convidado para entrar no lar alheio. Atualmente, há várias portas abertas. Escancaradas. Mas a gente sabe muito bem como fechá-las. Ou melhor, desligá-las.
Ah, que satisfação!…
