Música

A reflexão (ou Os ídolos também morrem)

Foto: Greyson Joralemon

Nossa relação com música começa desde cedo. No início, o que escutamos é essencialmente o que nossos pais gostam de ouvir. Esse primeiro contato se torna a fundação onde passamos a construir o nosso gosto pessoal, mas ainda não nos define completamente. Para mim, foi rock, jazz e MPB. A vitrola dos meus pais tocava Jerry Lee Lewis, Ella Fitzgerald e João Gilberto. Estavam lá o tempo todo, costurando-se aos meus ouvidos e tornando-se parte de mim. 

Mas é durante a adolescência que nosso gosto musical vira algo mais. Não é mais apenas música, é um espelho. Nossos ídolos não são somente vocalistas incríveis ou instrumentistas invejáveis, são o que almejamos ser. Um reflexo de ideias que já habitam em nós, mas não encontraram ainda voz. Entrevistas tornam-se tão importantes quanto as letras das canções. Queremos desvendar os seus mistérios, saber os segredinhos que tornam esses seres tão especiais e entender como eles têm a coragem de ser exatamente como são. Emulamos suas palavras e seus trejeitos – inconscientemente ou não –, e suas opiniões nos ajudam a questionar o mundo e moldar quem realmente queremos ser. Ou quem, no fundo no fundo, já somos. 

Para mim, foi ver o Mike Patton pegando sempre o caminho inverso ao esperado. Foram os Mutantes desafiando os padrões musicais sem nunca se levar tão a sério. Foi a Nina Simone deixando claro, em meio a uma plateia branca, que estava ali para cantar o que, no fundo, não queriam ouvir. Foi o Nirvana desbancando a pompa e o machismo do rock para levantar o volume da voz dos incompreendidos. Foi o “Julinho da Adelaide” driblando a censura e cantando verdades contundentes fantasiadas de canções de amor. E é a Lizzo pregando com mil palavrões que se amar é possível – e é uma delícia! 

Tudo isso é música para os meus ouvidos. 

Mas o reflexo tem fim. Esses fortes seres, cheios de grandes ideias, que nos revelam como um filme e nos botam para cima mesmo nos piores momentos… Eles morrem. Às vezes, de maneira apenas simbólica: perdemos a conexão com o que eles têm a dizer ou eles nos revelam personalidades escondidas atrás de uma cortina – malditos Mágicos de Oz! – e nos decepcionam. Outras vezes, isso acontece de forma impiedosa e concreta: eles morrem. 

Lembro da sensação estranha quando David Bowie partiu. Parecia que algo inimaginável havia acontecido, como se não havíamos percebido que ele era um mortal. Era fácil não perceber. Alguém tão gigante, tão diferente da maioria da humanidade… Era inaceitável. Incompreensível. Antes dele, senti esse desconforto com a partida de Renato Russo. O cara que traduzia o Brasil em versos, que fazia os jovens pensar sobre política e questionar seu papel no mundo, ele simplesmente deixou de existir. Deixou um vazio, um silêncio. Parecia estranho que o mundo ainda girava. Mais recentemente, foi Rita Lee. Para mim, ainda é estranho estar vivendo em um planeta onde ela não mais habita. Sinto falta da audácia, da sagacidade, dos tweets. Sim, a música continua viva. Mas não é só a música, é o reflexo. Me sinto olhando um espelho sem reflexo. 

É tão estranho um mundo sem Lou Reed. É tão triste um Brasil sem Gal Costa. Mas, da falta do reflexo, me veio uma longa reflexão. E sabe o que eu descobri? A verdade é que o reflexo somos nós. As ideias, as canções, a atitude, nada disso morre porque estão espelhadas em nós. Nós somos a continuidade dos nossos ídolos. A gente fica encarregado de passar tudo isso adiante para as novas gerações. Porque, não, não é só música. São cacos de um grande espelho que reflete quem somos nós. E a gente brilha, e o mundo gira, como uma grande mirrorball

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