Piras

Muita gente apanhou pra que nós pudéssemos sarrar na avenida Paulista hoje

Até 1962, em todo o território americano, era crime se relacionar com pessoas do mesmo sexo. O país era tomado de leis antissodomia que criminalizavam inclusive o cross-dressing (que nada tem que ver com ato sexual), tornando-o passível de prisão e punições corporais. Pasmem: alguns estatutos antissodomia só foram abolidos em 2003 nos EUA, e ainda hoje há lugares em que relações homoafetivas são crime, principalmente em função de uma herança colonial ou crenças religiosas.

Essa mensagem é o que o meu amigo gay que mora em Dubai recebe ao entrar no Tinder: um aviso de que não é uma zona segura para pessoas LGBTQIAPN+ (mar/2023)

É nesse clima que se firmou o Stonewall Inn, bar em Nova York frequentado por pessoas marginalizadas pela sociedade. O Stonewall Inn era o bar mais ace$$ível para a população LGBTQIAPN+ na época, tornando-se referência para a comunidade e lugar de abrigo para pessoas que eram expulsas de casa ou buscavam onde trabalhar.

Os donos do local possuíam relação com a máfia, e por isso a polícia fazia vista grossa. Mas as batidas eram frequentes, e na noite de 28 de junho de 1969 houve mais uma. Porém, dessa vez diferente: as drag queens se recusaram a ir para a delegacia, as yags não mostraram suas identidades. Do lado de fora do bar, mais e mais pessoas se juntavam para testemunhar e hostilizar a ação policial que se tornou truculenta. Houve confronto, prisões e confusão por mais de uma noite.

Não somente como reação à violência no atraque, mas principalmente como um basta a uma série de opressões, essa noite ficou conhecida como a revolta de Stonewall. A partir dela surgiram articulações do movimento LGBTQIAPN+ nos EUA que culminariam em protestos, nas primeiras marchas do orgulho e em coletivos de organização coletiva para demandar políticas de proteção a essa população.

Il 28 giugno si celebrano i Moti di Stonewall: cosa sono? - Gay.it
Marsha P Johnson e Sylvia Rivera, ativistas que participaram dos primeiras manifestações pelos direitos LGBTQIAPN+ nos EUA.

A revolta reverberou em todo o mundo e essa data foi escolhida como Dia Internacional do Orgulho LGBTQIAPN+. Importante lembrar que, na época da revolta, o Brasil passava pelos anos mais duros da ditadura militar (o AI-5 foi menos de um ano antes!). Não havia espaço para lutar por esses direitos quando se morria por apenas criticar o governo, então o movimento LGBTQIAPN+ no Brasil acaba por se organizar alguns anos mais à frente.

Ainda por aqui, tivemos uma manifestação no Ferros’s Bar, referência para a comunidade lésbica de São Paulo, que ficou conhecido como “o pequeno Stonewall brasileiro” em 19 de agosto de 1983. A data da manifestação no bar foi adotada como Dia do Orgulho Lésbico no Brasil.

Mas o que quer dizer ter orgulho?

Orgulho é honrar quem se é, é admirar a si. É o contrário de ter vergonha, é não querer esconder-se. É por isso que as datas de orgulho são tão importantes individual e coletivamente: olhar para si com orgulho é entender a própria existência como um presente, e reconhecer no coletivo nossas semelhanças e diferenças através de um movimento empático.

Nesse sentido, cabe perguntarmos: as paradas do orgulho LGBTQIAPN+ que tradicionalmente acontecem em junho são um momento de festa ou de luta?

Avenida Paulista durante a Parada do Orgulho LGBTQIAPN+ em 2023 (acervo pessoal <3)

Eu penso que são os dois: só celebra quem está vivo, só (r)existe quem luta. Se por um lado é importante não reduzir as demandas de um grupo socialmente marginalizado a fazer comemorações coloridas ao som de Pabllo Vittar, por outro a própria ocupação da rua é uma forma de manifesto, de dizer “oi, estamos aqui!”. No país em que a expectativa de vida de uma pessoa trans é de 35 anos, dizer que está vivo já é muito.

Mas como ir além para que mais pessoas possam viver com orgulho e dignidade? Para que a população LGBTQIAPN+ não seja lembrada apenas no mês de junho?  Trago aqui algumas pistas a nível de Estado:

  • Políticas de proteção: criminalização do crime de homo/lesbo/transfobia, formação de agentes do direito e da polícia para acolhimento, atendimento e reconhecimento de violências;
  • Políticas de saúde: acesso a ginecologistas, testes, medicamentos, hormonioterapia e apoio de saúde mental;
  • Políticas de educação: promoção de discussões sobre autocuidado e respeito com perspectiva de gênero nas escolas, campanhas de proteção no ambiente escolar, formação de profes;
  • Políticas de informação: pesquisas e geração de dados sobre as condições da população LGBTQIAPN+ para conduzir as demais normativas.

Para isso tudo acontecer, precisamos de três coisas: verba, vontade e gente. Gente qualificada temos de sobra neste país em coletivos, cargos governamentais, academia e sociedade civil em geral. E aí, governo? Bora fazer acontecer?

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