
O quadrinista francês Marc-Antoine Mathieu é um mestre na arte de quebrar a quarta parede. Não só a quarta, mas a quinta, a sexta e qualquer outra parede que aparecer pela frente. Determinado em desafiar os limites do formato das histórias em quadrinhos, o escritor criou a série Julius Corentin Acquefacques, prisioneiro dos sonhos.
O primeiro volume foi lançado em 1990 e, desde então, sete outros livros se seguiram. A história se passa em uma realidade distópica onde os seres humanos lutam por espaço em uma sociedade burocrática em que tudo é feito de forma automática. Há um quê de Kafka na narrativa, o que foi confirmado pelo próprio quadrinista. Ele revelou que o sobrenome do personagem, Acquefacques, foi criado pela sonoridade de “Kafka” ao contrário: Akfak.
A editora Comix Zone lançou dois desses volumes no Brasil e já anunciou que em julho deste ano teremos mais um livro da coleção. Fiquei impressionado pela maneira como Marc-Antoine Mathieu se libertou completamente das limitações da mídia e transcendeu as bordas dos quadrinhos de formas inimagináveis.

Em A Origem, Julius Corentin Acquefacques acorda de um sonho esquisito, mas logo se põe a seguir a sua rotina diária. Em uma realidade onde quase não há mais espaço no mundo, ele vive em um apartamento minúsculo. Quando sai para o trabalho – ele é funcionário do Ministério do Humor –, ele percorre uma rua abarrotada de gente. É preciso entrar no fluxo de pessoas e ficar atento para sair na hora certa para não ser arrastado para o lugar errado. Quando ele chega em seu escritório, uma surpresa: uma carta endereçada a ele com uma página de história em quadrinhos onde ele é o personagem principal. Para a nossa surpresa, a folha em questão é a mesma página 4 do livro que estamos lendo. A partir daí, o personagem entra em uma busca por descobrir quem ele é e qual o seu papel no mundo. E nós somos arrastados com ele a um universo que se descola das páginas da HQ e extrapola as possibilidades do gênero. Sim, coisa de louco!

No outro volume, O Processo, Julius Corentin Acquefacques acorda de um sonho esquisito em uma realidade que parece ser ainda mais estranha: ele é surpreendido pela presença de um sósia. Assustado pela sua presença, ele opta por ignorar aquela situação e seguir sua preciosa rotina. Mas a existência do duplo se prova mais complexa do que ele gostaria e Julius Corentin Acquefacques se vê em uma busca pela reordenação da linha do tempo de sua vida. Eu garanto que você não está preparado para o tipo de desdobramento que ocorre nas páginas dessa história. A impressão é que, assim como o personagem é puxado para fora da história, nós somos puxados para dentro. O trabalho de construção do roteiro é… arquitetônico!
O terceiro volume, O Começo do Fim, está previsto para ser lançado em 30 de junho e eu não vejo a hora de acompanhar mais uma aventura no universo onírico de Julius Corentin Acquefacques.
