Literatura

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Foto: Bianca Rosolem

Chegada a hora, ela começou.

De primeiro, tímida e insegura, não sabia se conseguiria.

Reviu seus antigos trabalhos, todos lindos, porém, ela não reconheceu aquela voz.

Aquele tempo, que para ela passou, levou com ele aquela que havia escrito todo aquele passado.

Inevitável foi, então, o passo recuado para um grande suspiro – poético, sim, sobretudo, existencial – e o angustiado autoquestionamento:

– Quem sou eu, hoje?

Ora, inegável que aquela menina, dolorida e assustada, era ela. Mas também, não era mais ela! Isso mesmo, ser ou não ser a mulher que era a menina.

Fiquei debruçada entre todas essas Eu’s e suas mais diversas vozes, que contaram suas histórias de prosa e verso, procurando quem então poderia hoje ser.

E de todas elas, encontrei a matéria bruta – acredito – que as une e as identifica mesmo que sejam tão diferentes vidas: O sonho.

Ainda que a voz seja triste, melancólica, ou energética, irônica e revoltada, sempre, sempre, sem sombra de dúvidas – acho que nenhuma mesmo – todas foram sonhadoras.

Elas sempre sonharam, desde muita jovem, ainda criança, com as curiosidades e mistérios da vida, com a beleza, o amor, a liberdade, a alegria… a magia.

– Eu, hoje, sou a eterna Sonhadora!

Afinal, o que nos define? Alguns podem dizer que é a realidade. Mas eu me pergunto:

– E a realidade, quem a define?

Logo me respondo:

– Eu!

Então, que voz poderá me convencer de que o sonho não é realidade, e que o real não é sonhar?

Não, ninguém, nem eu mesma, nem a Eu mais cética e derrotada poderia ser maior que essa crença nos sonhos.

De posse dessa Eu sonhadora, decidi acatar esse caminho, essas linhas, esses pensamentos e fui além (não acreditei que conseguisse ultrapassar 5 linhas), e deixei esse sonho de mim mesma me guiar.

É chegada a hora de sonhar acordada e de olhos bem abertos.

E nessa entidade do Eu, como projeto de uma grande ficção emanada dos sonhos, sou minha própria criação.

Eu posso sonhar realidades.

Nos meus sonhos, a minha matéria primordial, dou voz às minhas profundezas.

Ali, as camadas superficiais da vida desaparecem e nesse encontro só existe a minha realidade:

O sonho.

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