Quadrinhos

Dez Dicas nos Dez Anos de Graphic MSP!!

Em 2009 o editor da Maurício de Souza Produções Sidney Gusman, o Sidão, teve uma ideia: publicar um livro em homenagem aos 50 anos de carreira de Maurício de Souza. Cinquenta artistas diferentes fizeram as suas releituras homenageando os clássicos personagens da turminha do bairro do Limoeiro (e da Turma da Mata, da Turma da Roça…). Estamos falando de artistas já consagrados, como Laerte, Angeli e Ziraldo. “MSP 50” fez tanto sucesso que um ano depois saiu “MSP +50”, com outros 50 artistas. Em 2011 foi publicado “MSP Novos 50”, com cinquenta artistas novos (e já com a ideia de usar o canhão da audiência da MSP para lançar e colocar em evidência as novidades dos quadrinistas brasileiros) e por fim em 2012 saiu “Ouro da Casa”, dando espaço aos artistas do Estúdio MSP.

                O sucesso desses quatro volumes (A série ganhou seis prêmios HQ Mix!) deixou o Sidão empolgado e ele e o Maurício resolveram dar sequência ao projeto. Estava nascendo a série “Graphic MSP”. A ideia era convidar quadrinistas brasileiros para escreverem releituras de personagens da vasta galeria do criações do Maurício. O anúncio foi feito no FIQ de BH, em 2011 e em outubro de 2012 saiu “Astronauta – Magnetar”, escrito e desenhado por Danilo Beyruth e colorizado por Cris Peter. Dez anos depois, a série Graphic MSP se tornou um imenso sucesso. São 37 títulos lançados (mais cinco já estão anunciados para 2023), vários troféus HQ Mix, um prêmio Jabuti (o primeiro da história da MSP, para Jeremias – Pele de Rafael Calça e Jefferson Costa), dois longa-metragens (Turma da Mônica – Laços e Lições) e já anunciadas uma série live action de Jeremias e uma série de animação de Astronauta. A série se tornou uma vitrine para o trabalho de novos quadrinistas e é, sem sombra de dúvida, uma das grandes responsáveis pelo grande crescimento do mercado e da produção de quadrinhos no Brasil nos últimos dez anos. Muitos adultos e jovens voltaram a ler quadrinhos por causa das Graphic MSP e acabaram procurando os outros trabalhos dos autores e autoras, criando um ecossistema saudável de divulgação do que de melhor tem sido produzido no Brasil.

                Em homenagem aos dez anos da série, vou falar um pouco sobre as minhas dez Graphic MSP preferidas. Vale ressaltar, é claro, que não estou dizendo que as outras não são boas ou que essas são as melhores: elas são as que eu mais gosto, as que mais me tocaram. E já adianto: eu ia fazer um top 5, ampliei para um top 10 e ainda estou me sentindo mal por ter deixado alguns títulos de fora.

10 – Bidu: “Caminhos” (2014) e “Juntos” (2016), de Eduardo Damasceno e Luis Felipe Garrocho

                Bidu, o cãozinho azul, é o personagem mais antigo de Maurício de Souza. Era uma responsabilidade muito grande fazer essa releitura e Damasceno e Garrocho toparam e foram muito felizes. A história de amizade e cumplicidade entre Bidu e Franjinha é contada de forma lenta e cadenciada, e na maior parte do tempo sob o ponto de vista do cãozinho. O ponto alto, para mim, são os diálogos entre os cães que são feitos sem o uso de nenhuma palavra. O resultado poderia ser ruim ou transformar o quadrinho numa daquelas “cartas enigmáticas” que vinham nos passatempos dos Almanacões de Férias, mas não foi o que aconteceu. Os desenhos dos balões tornam-se organicamente parte da história e são um show a parte.

09 – Louco: “Fuga” (2015), de Eduardo Coelho

                O personagem menos convencional, o quebrador da quarta parede, o Deadpool do Maurício (ou o Deadpool é que seria o Louco da Marvel, já que o personagem é quase 20 anos mais antigo?). O Louco é um personagem que foi criado pelo Mauro, irmão do Maurício, na verdade. Rogério coelho faz, como não poderia deixar de ser, um trabalho quase experimental de quadrinhos. Ele testa as possibilidades de quebrar a página, de mudar a diagramação, o sentido e a direção da leitura ou o tamanho dos quadrinhos. Lindo, lindo, lindo. O quadrinista ficou maturando essa história durante mais de dois anos e o resultado fez valer todo esse trabalho. Talvez seja a Graphic MSP mais bonita e certamente é a mais arrojada de todas. Difícil achar uma página desse livro que eu não queira enquadrar e pendurar na parede.

08 – Cebolinha: “Recuperação”(2018), de Gustavo Borges

                O Cebolinha é o MEU personagem da Turminha, o que me deixou com uma expectativa muito grande para esse livro. Já adianto: ele não me decepcionou. “Recuperação” humaniza o Cebolinha, colocando-o para enfrentar problemas cotidianos como a situação da família em função da demissão do Sr Cebola e ele próprio, Cebolinha, tendo que encarar problemas na escola. O traço do Gustavo ficou excelente na história, e a escolha de retratar (várias) partes da história como rascunhos e projetos de “Planos Infalíveis” foi bastante feliz.

07 – Jeremias: “Pele”(2018) e “Alma”(2020), de Rafael Calça e Jefferson Costa

                “Pele” foi a Graphic MSP que deu um passo a frente. O prêmio Jabuti foi o primeiro da MSP e chamou a atenção para muita gente de fora do mundo dos quadrinhos para a série. Rafael e Jefferson mergulham com gosto no universo de um dos personagens eternamente coadjuvantes do Maurício e problematizam de forma muito séria a questão do racismo e da construção da identidade. Nesse sentido, “Alma” consegue algo raro, ser uma sequência que é tão boa, se não melhor que a obra original. A arte do Jefferson Costa, um traço bem marcante e diferente, casa de uma maneira muito linda com a obra.

06 – Astronauta: “Magnetar”(2012), “Singularidade”(2014), “Assimetria”(2016), “Entropia”(2018), “Parallax”(2020), e “Convergência”, de Danilo Beyruth

                O primeiro título da série é uma obra de ficção científica, com conceitos avançados de física sendo discutidos. Danilo Beyruth conseguiu contar uma história que mescla o que há de melhor nos quadrinhos de ficção e nos thrillers de suspense. Há mistério e drama nas medidas certas e o traço do autor (com as incríveis cores de Cris Peter) consegue nos fazer sentir claustrofóbicos e no meio da vastidão do espaço. A série em seis volumes foi encerrada com “Convergência”, mas já frutificou: está em produção uma animação a partir da saga do Astronauta de Beyruth. Foi lançado no fim de 2022 também “Astronauta Integral – Vol. 1”, o primeiro “Ômnibus” da MSP. Se eu tivesse que indicar um quadrinho nacional para um adolescente, seria o Astronauta de Danilo Beyruth.

05 – Tina: “Respeito” (2019), de Fefê Torquato

                O trabalho da Fefê é maravilhoso. Ao mesmo tempo em que ela faz uma pesquisa muito profunda e respeitosa pelo trabalho do Maurício, fazendo inúmeras referências às histórias originais da personagem, ela consegue trabalhar uma temática extremamente urgente: o assédio. De uma maneira muito humana, Fefê nos mostra como o assédio envolve poder, hierarquia e submissão, muito mais do que outras coisas. A arte toda aquarelada é mais um diferencial e tem um resultado primoroso, além de casar muito bem com o roteiro que ela montou.

04 – Piteco: “Ingá” (2013), de Shiko, e “Fogo” (2019) e “Presas” (2021), de Eduardo Ferigato

                Shiko é hoje um dos mais prestigiados (se não o mais prestigiado) desenhista e ilustrador de quadrinhos. Em “Ingá” ele visita o universo de Piteco, o homem das cavernas do Maurício. Ferigato acaba abraçando a ingrata tarefa de “continuar” de onde o Shiko parou, e consegue cumprir a tarefa com louvor. “Ingá”, “Fogo” e “Presas” são obras que não só retratam muito bem o universo do Piteco, a aldeiam de Lem e todos os seus coadjuvantes como consegue, com muito talento, ampliar esse universo.

03 – Chico Bento: “Arvorada” (2017) e “Verdade” (2021), de Orlandeli

                Orlandeli, um dos nomes que eu mais gosto no quadrinho brasileiro hoje, consegue com seu Chico Bento cumprir uma tarefa dificílima: ao mesmo tempo em que lida com um personagem querido por todos nós (e é difícil fazer isso sem desapontar parte do público), conta duas histórias absolutamente originais e universais. Esses quadrinhos poderiam ser traduzidos para qualquer língua que não perderiam sua essência, apesar de serem absolutamente locais. Ao mesmo tempo “Arvorada” e “Verdade” são obras absolutamente autorais. O domínio da narrativa do autor é absoluto: com muita criatividade ele nos pega pela mão e nos leva pela página, desafiando a ordem e a organização tradicionais de uma história em quadrinhos e contando a sua história de uma maneira que apenas ele conseguiria. “Arvorada” e “Verdade” são pura poesia em quadrinhos.

02 – Anjinho: “Além” (2022), de Max Andrade

                Eu fiquei um pouco decepcionado quando soube que o Max, um dos quadrinistas novos que eu gosto de acompanhar, ia fazer a GMSP do Anjinho. Porque esse personagem nunca me disse nada. Fui ler “Além” sem grandes esperanças e nossa, como eu estava errado. E que bom é estar errado as vezes. O Max tem um traço e uma narrativa muito ligados ao mangá (que não é um estilo com o qual eu esteja muito familiarizado, diga-se) que casaram muito bem com a história que ele queria contar. Anjinho é uma história revolucionária? Não. Mas é uma história emocionante e humana. Me tocou profundamente e foi uma das GMSP que eu cheguei chorando no final.

01 – Franjinha: “Contato” (2022), de Vitor Cafaggi

                Existem histórias que já foram contadas muitas vezes. Essa é uma delas. É uma história sobre crescimento. Sobre “comming of age”, como tem se dito atualmente. Sobre “menino-conhece-menina”. Pouquíssima coisa nessa história, na verdade, é original. E o encanto está justamente aí: o que faz de uma história um tesouro não é o ineditismo e a originalidade, mas sim a MANEIRA como ela é contada. Vitor Cafaggi não é um estranho nessa temática: é dele o maravilhoso “Valente”, que trata sobre descobertas e corações partidos. A maneira como ele conta a história do cientista do bairro do Limoeiro me remeteu muitas vezes ao início da minha própria adolescência, naquele momento em que mesmo cercado de gente eu era capaz de me sentir muito só, mergulhado no meu mundo. Tratar o sentimento do Franjinha com respeito faz com que a gente veja um tantinho de nós ali. O Vitor toma um cuidado muito grande durante a história: não só com o Franjinha, mas com todo o universo MSP e das outras Graphic MSP. “Contato” foi a história que eu mais reli em 2022 e certamente uma das que mais me tocou.

                Enfim, sendo muito injusto com todo mundo que ficou de fora, essas são as minhas 10 GMSP. Que venham muitas mais, já que o universo de quadrinistas do Brasil é tão rico e diverso quanto a galeria de personagens do genial Maurício de Souza!

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