Neal Adams nasceu em 1941 em Nova Iorque, EUA. Começou a trabalhar com quadrinhos ainda na década de 1950 e já nos anos 1960 fazia trabalhos menos destacados e fillers na DC. Em 1969 começou a trabalhar na Marvel, desenhando os X-Men. Seu trabalho no título dos mutantes teve uma liberdade criativa muito grande, já que a revista estava para ser cancelada e o então editor Stan Lee deixou as rédeas muito soltas. Adams participou, junto com o roteirista Roy Thomas, da criação de personagens importantes como Destrutor, Polaris, Sauron e Banshee. Os visuais dos personagens principais foram revitalizados e podemos dizer que Adams criou os uniformes que são base da maioria dos looks dos X-Men até hoje. O visual arrojado e minimalista em preto e branco do uniforme do Destrutor, por exemplo, sofreu pouquíssimas alterações até hoje. O celebradíssimo trabalho de Chris Claremont e John Byrne nos X-Men só pode acontecer por usar como base os X-Men de Roy Thomas e Neal Adams. A dupla também trabalhou em uma fase importante dos Vingadores, que incluiu a Guerra Kree-Skrull.

Enquanto estava na Marvel Adams nunca deixou de trabalhar também pela DC. Em 1970 assume a revista do Batman junto com o escritor Dennis O´Neil, com quem vai formar uma parceria histórica. A dupla foi responsável por revitalizar o Cruzado Encapuzado, cujas histórias tinham o tom camp do seriado dos anos 1960. Neal Adams reestabeleceu um tom mais sombrio e noturno ao Batman e é um considerado um dos desenhistas definitivos do personagem. Com O´Neil foi responsável pela origem de personagens como Ra´s al Ghul, a Liga dos Assassinos e o Morcego Humano. O Batman de O´Neil e Adams consolida o personagem como “o Detetive”, um enxadrista que tem como maior equipamento não o cinto de utilidades, mas sim o cérebro.

A parceria com O´Neil vai se tornar lendária quando ambos assumem o título “Lanterna Verde/Arqueiro Verde”. O próprio Adams já havia revitalizado o Arqueiro, sendo o responsável pela criação do hoje icônico cavanhaque de Oliver Queen. A série do Lanterna e do Arqueiro durou dois anos e retrata uma imersão de ambos pelo interior dos EUA, tomando contato com problemas sociais reais como a miséria, o racismo e o alcoolismo. A histórica capa em que Roy Harper, o ajudante-mirim do Arqueiro Verde, é mostrado como um viciado em heroína é uma das mais importantes da década de 1970 pela DC. A abordagem de O´Neil e Adams nesse título é diretamente responsável por muito do amadurecimento que os quadrinhos da DC se permitiram nos anos 80. Se o Cavaleiro das Trevas e a Vertigo foram possíveis, foi por conta da abordagem mais madura e bastante política deles nesse título. O próprio Adams contou em bate-papo na CCXP, em 2019, que a publicação da capa e da história geraram uma grade briga com o editor Julius Schwartz.

O ativismo político, aliás, foi marca da carreira de Adams nas páginas dos quadrinhos e fora delas. O desenhista contava que a criação da qual mais se orgulhava era o Lanterna Verde John Stewart. Fugindo dos estereótipos da época para personagens negros, Stewart não era um presidiário ou oriundo de um bairro barra-pesada marcado pela pobreza. O personagem é um arquiteto, com nível superior, emprego e estabilidade. Só a existência de John Stewart já era afrontosa, na década de 70. Nos anos 90/00 ele acabaria se tornando o Lanterna Verde mais conhecido e popular, muito em função da animação Liga da Justiça Sem Limites.

A militância política de Adams pelos direitos dos artistas foi bastante marcante. O próprio fato de trabalhar na Marvel e na DC ao mesmo tempo, o que não era tão comum na época, era encarado por ele como uma sinalização para outros criadores de que poderiam fazer o mesmo. Adams militou por melhores pagamentos e pela revisão da questão dos royalties e direitos autorais de desenhistas e roteiristas. Foi um dos responsáveis pela mudança da política das grandes editoras, que retinham as artes originais dos quadrinhos. Essas obras passaram a pertencer aos artistas e se tornaram, inclusive, importante fonte de renda para eles. Também foi Adams uma das lideranças do movimento de artistas que participou do resgate de Jerry Siegel e Joe Shuster do ostracismo. No final dos anos 1970, às vésperas da estreia de “Superman: O Filme”, os criadores do personagem sequer eram creditados pela DC. O reconhecimento de Jerry Robinson como co-criador do Batman também foi resultado de manifestações de Adams

Se a militância política era uma característica pessoal de Neal Adams, sua arte também foi marcante e revolucionária. O artista pode ser considerado quase que uma ponte: ele inicia a transição do estilo mais clássico de artistas como Jack Kirby, Steve Ditko, John Romita (sênior), Bill Everett e Carmine Infantino para um desenho mais fluido e cujos movimentos remetem mais ao cinema. Não por acaso alguns dos artistas mais importantes dos anos 1980, como John Byrne, Frank Miller e Bill Sinkievich vão sempre se referir a Neal Adams como sua referência número um. A homenagem de Jim Lee, um dos mais importantes artistas dos anos 90/00, a Neal Adams nos ajuda a entender a dimensão da importância do seu trabalho. Adams trabalhava com toda a página, usando a quebra da diagramação para auxiliar na noção de movimento. Além disso, Adams dominava a anatomia humana como poucos, tendo ficado conhecido por desenhar em primeiro plano mãos e dedos, o que em geral deixa os desenhistas em pânico.



Neal Adams faleceu na quinta-feira, dia 28 de abril de 2022. Deixou a esposa Marilyn, com quem foi casado por mais de 45 anos, e os filhos Jason, Joel e Josh, além da filha Zeea, de um casamento anterior. O mundo dos quadrinhos está de luto, mas ao mesmo tempo celebra a fantástica carreira e o legado de um dos grandes. A declaração emocionada de Jim Lee descreve o que todos nós estamos sentindo. Ao contrário do que estão dizendo, Neal Adams não faleceu: estará para sempre vivo nas páginas brilhantes dos herois que ele ajudou a eternizar.
