O seu João tinha um carro preto, que, agora, está empoeirado na garagem do prédio. O seu João costumava sair para caminhar todas as manhãs, mas, agora, segura-se em outras mãos. Debruça-se em outras pernas. Seu João costumava sorrir ao me dar bom dia e bocejar o meu nome. Agora, ele não lembra de quem eu sou. Seu João lembra-me de uma tartaruga. Arrasta-se e carrega o peso de sua vida nas costas. Seu João me dá medo. Da solidão. Da idade. Da tristeza. Por aqueles que virão. Por aquilo que virá. O seu João me entristece, mas me faz tirar proveito. Desses dias, que tenho a sorte de ver se arrastar.
Passou a vida inteira se questionando. E ainda o faz. Criava conceitos a respeito da tão buscada felicidade com base em tudo aquilo que lhe diziam ser preciso para tanto. Assim, nunca parou para refletir sobre o que, de fato, lhe traria alegrias. E se ela não quisesse sair correndo atrás dessa utopia só para dizer que estava completa?! Sentia-se tão confusa e tão pequena. Isso doía tanto, que decidiu engavetar seus sentimentos, escondê-los em lugares que desconhecia. Por isso, não os encontrava mais. Mas, às vezes, de alguma forma, quase que invisível, eles a assombravam. Foi, então, que descobriu o poder das palavras. Percebeu que, com elas, poderia encontrar tudo aquilo que parecia estar perdido. E, o que era ainda melhor, percebeu que, juntas, poderiam desvendar tudo aquilo que lhe faltava, criar histórias, personagens, cenários, ocasiões, enfim, inventar um mundo novo. Pegou algumas folhas e uma caneta. Deitou-se no chão. Começou a escrever.
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