
Não percebeu que dormiu com a taça na mão. Sentiu os lábios colados quando acordou, a língua pedindo água, o batom vermelho beijando a almofada, aquela liquidez toda na lembrança, e os olhos? Não viam mais os segredos. Tinha só a sensação do nome dela, aquele gosto de grapefruit em Creta.
Você sabe que a sentiu, e ela te invadiu pelas beiradas. Soberanamente, e mudou seus parâmetros. Era pra ser apenas matutino, agora são todas as horas, e as semanas se fazem meses em dois segundos. Só dá ela. E ela te dá mais que você entende que merecia. Anos. E aquele desvairio todo.
As cores são sempre as mesmas: laranja, vermelho, amarelo, e aquela sensação de alva liquidez da pele dela, meio leite, meio lúdica, meio luz. O olhar agateado, o mel dela te devorando como se só existisse o hoje. E você manhoso, esperando pela próxima vez, aquela que está longe, mas sempre tão ali, do seu ladinho. Sua nuca de baunilha querendo agrados. Você tenta não lembrar da invasão, mas é em vão, e não consegue dar vazão. Não há mais espaços entre o seu corpo e o dela, e você sabe tão bem disso.
Aurora borealis. E vocês? No êxtase das cores. Como dois animais.
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O texto e a ilustração de hoje foram inspirados nas vídeo-artes de Stephanie Sarley como parte do Desafio Piras lançado pela nossa colunista Brunna Stock.
