
O céu chora.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Chora.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
E limpa⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
a minha sujeira.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
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Sim, estou imunda.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Rasgada.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Coberta de poeira.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
E cheia de destroços ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
por recolher. ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
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Sinto os pingos.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Com eles ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
se vai a minha lama.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
O imundo,⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
que me corrói.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
E engole. ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
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O úmido desabafa ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
o meu ego impuro.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
E varre ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
essa escória. ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Suja.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Suja.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
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Essa borra ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
é o meu resto.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Resto que a chuva ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
lança. ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
E, assim,⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
segue a dança.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
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Chove.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Lança.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Escorrega ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
esta besteira.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
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O molhado me envolve⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
por inteiro.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Sacrifica a minha pele ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
e a alma imundas. ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
E o ritmo segue.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Ordenado.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Puro.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
É alívio.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
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Os meus olhos ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
cerram.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Os lábios ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
recebem a água.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
E as mãos te balançam, ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
chuva.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Estou livre.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
É alívio, afinal.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
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A luz rompe ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
nossa festa escura.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
E o sol… ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Arde lento ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
nesse corpo inútil.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Seca. ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Desabafa.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Mostra.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Não tenho ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
saída. ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
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E, na poça,⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
o meu reflexo ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
se encontra.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Outra vez sujo. ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Outra vez imundo. ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Outra vez quebrado.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
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O balé da chuva⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
foge.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
É trânsito. ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
É ilusão. ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Nada escapa ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
esse breu.
