
Quando eu era pequena, eu não ouvia comandos, ouvia histórias de quem eu era e de quem eu deveria ser. Havia limites para quem eu era e poderia ser, e eles eram dados pelas histórias daqueles e daquelas que viveram antes de mim, e que viviam ao meu redor.
O som da infinita repetição de quem eu era e deveria ser abafava a vozinha, ainda tímida, que sussurrava:
– Você é, você pode ser.
Por muito tempo não tive ouvidos para ouvi-la. Foi só quando todos os meus sentidos se voltaram para dentro que eu comecei o caminho inverso, escavando para fora de mim quem eu não era e não queria ser. Tive o cuidado de levantar as camadas uma a uma e de arremessá-las pela janela. Ao fazê-lo, a consciência de estar utilizando minha força para voltar, ao invés de ir, para redescobrir, ao invés de descobrir, crescia.
– Você é, você pode ser.
Tivesse eu sido exposta a múltiplas histórias de seres múltiplos, infinitamente simples em sua complexidade; não contidos em nenhuma descrição normativa feita pelo Homem em nome de qualquer deus, e, hoje, o tempo me seria menos caro.
