
por Marcella Marx
Maria tinha um pesadelo recorrente. Ela se tornava imperceptível aos outros.
Invisível. Ela estava no ponto de ônibus e um cachorro fazia xixi no seu
pé. Ela chamava o garçom e ele nem sequer a ouvia. Ela pegava a fila do
banco e as pessoas a empurravam para frente. Ela dizia algo durante a
reunião, mas as pessoas simplesmente falavam em cima dela. No bloco de
carbono, o que ela escrevia nunca passava para a segunda folha. Assim,
ela ia, aos poucos, sumindo. Num dia, lhe sumiam os dedos dos pés,
depois não precisava mais usar sapatos.
Maria precisava tomar uma atitude antes que sua existência se tornasse apenas história.
Maria sabia que era muito difícil mudar hábitos e costumes que faziam com que a pessoa criasse raiz.
Para ela era diferente; sempre fora pura leveza. Às vezes, tinha até a impressão que flutuava, ao invés de andar.
Maria encontrou sua cura.
Precisa arredar pé, e, só mesmo a terra que a unia às pessoas podia fazer com que ela fosse visível.
Não teve dúvida. Comprou um vaso largo e fundo. Também a melhor terra adubada que pôde encontrar.
E, no meio da calçada, se plantou.
