Música

Duas mãos e uma boca: 40 anos do Sparks

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por Cassiano Rodka

Poucas bandas tem o privilégio de chegar aos 40 anos de carreira. Mais difícil ainda é atingir esse número sem ter um nome conhecido pelo grande público. Mas é exatamente isso que o Sparks conquistou. A dupla de irmãos Ron e Russell Mael toca há mais de quatro décadas e já lançou 22 álbums. Para celebrar esse tempo todo de carreira, o Sparks lançou o seu primeiro disco ao vivo, intitulado “Two Hands One Mouth”, que revisita diversas fases da banda em versões de piano e voz. Pode parecer um clichê fazer um show acústico de apanhado da carreira, mas para o Sparks é um formato bem inusitado, pois a banda sempre contou com muitos instrumentos, arranjos complexos e recursos visuais, tanto em seus discos quanto ao vivo.

A presença de palco da dupla, aliás, é difícil de passar batida. O vocalista Russel Mael canta em falsetto e faz caras e gestos que ficam entre o dramático e o cômico. Em contraponto, o tecladista Ron Mael permanece quase 100% imóvel tocando seu instrumento e encarando as pessoas com seus óculos redondos e uma expressão indefinida. E aquele bigodinho, é claro! A primeira vez que vi eles foi no programa White Room e lembro de virar para o meu amigo Camilo Mércio e perguntar: “Que diabos é isso? Ballet rock?”. As composições de Ron Mael de fato têm uma perceptível influência de musicais e óperas. Mas, ao mesmo tempo, trazem referências do pop, do rock e da música eletrônica.

Apesar de nunca ter sido um grande frequentador das paradas de sucessos, o grupo conquistou um fiel séquito de fãs sempre disposto a embarcar nos seus experimentos musicais, incluindo grandes artistas como Morrissey e Paul McCartney. O ex-vocalista do Smiths chegou a ganhar uma divertida homenagem em uma música do Sparks chamada “Lighten Up, Morrissey”. Já Sir McCartney fez ele mesmo uma reverência ao Sparks, imitando Ron no clipe de “Coming Up”.

https://youtu.be/cDBkySeyiDo

A banda iniciou a carreira com discos que agradaram a galera do glam rock. O lançamento do single “This Town Ain’t Big Enough for Both of Us” garantiu o espaço do Sparks entre os roqueiros da época. Mas os álbuns seguintes foram deixando claro que a banda não ficaria apenas na onda do glam. Aos poucos, os novos singles da banda foram confundindo o grande público e causando desinteresse.

Em 1978, os irmãos Mael cansaram do formato de banda de rock e resolveram aventurar-se pelo mundo da música eletrônica. Fascinado pelos sintetizadores que surgiam na época, Ron decidiu juntar forças com o produtor italiano Giorgio Moroder, conhecido por gravar os hits disco de Donna Summer “Love to Love You Baby” e “I Feel Love”. O resultado foi o álbum “Nº1 in Heaven”, que mostrou uma faceta completamente diferente da banda e agradou o público europeu, onde estouraram os singles “The Number One Song in Heaven” e “Beat the Clock”.

O sucesso das faixas eletrônicas não fez a banda estacionar nesse gênero. Nos anos seguintes, a banda seguiu lançando discos com uma gama de referências cada vez maior: explorou o pop rock em “In Outer Space”, criou uma versão cabeça do eurodance em “Gratuitous Sax & Senseless Violins”, modernizou a música clássica em “Lil’ Beethoven” e apostou em guitarras pesadas em “Hello Young Lovers”. O disco de estúdio mais recente da banda chama-se “The Seduction of Ingmar Bergman” e é a trilha de um musical que a banda criou contando a história de uma visita imaginária do diretor sueco Ingmar Bergman à Hollywood nos anos 50.

Quem não conhece a banda e ficou curioso, recomendo o álbum “Kimono My House”. Quem já conhece, dá uma conferida nesse belo disco ao vivo recém lançado e divirta-se com as deliciosas incursões musicais dessa dupla tão singular.

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