
por Marcella Marx
Louca? Louco sou eu, louca é a menina sentada a ouvir vinis. Um após o outro: Beatles, Guns N’ Roses, Dire Straits, Legião, Rita Lee… um a um ela os coloca na vitrola de seu pai que descobriu há pouco, lá no fundo de um armário, enrolada num cobertor. Ela levanta a tampa transparente, sobe a agulha empurrando a pequena manivela, retira um outro apetrecho que ela ainda não sabe a função. Coloca o disco, assoprando para sair a poeira e ouve de seu pai que era necessário dar uma “mãozinha”, girando o suporte para que o disco encaixasse. Aí sim, ela entende a função daquele apetrecho que ia por cima. Sem pressa, ela começa a detectar os chiados, de repente um pulo e várias repetições. Seu pai grita lá de dentro: – Tire o disco, levante a agulha e assopre! Foi o que ela fez, admirada em ver como os problemas se resolviam facilmente. Entretida, ela canta as músicas, aprecia as imperfeições e se encanta por elas, coisas que nunca havia feito ou notado.
Ela demorou e nem se deu conta do passar da tarde, afinal, pela primeira vez ela estava dentro da música, permeada por seu mundo. Naquela tarde, ela só fez aquilo: escutou. Nada mais.
