
por Clarice Casado
– Tem sangue por todo o lado, vem logo.
Essa foi a frase que ela ouviu da prima antes de desligar o telefone, uma fala com respiração ofegante, podendo quase sentir o cheiro de entranhas, suor e pele melada de recém-nascido.
Nada nas ruas tinha forma, as pessoas não tinham rosto, era só mais um pouquinho até a casa lhe engolir. Os degraus eram poucos até o quarto, mas se multiplicaram em mil enquanto o choro já invadia cada pedaço da rua, da casa, da sua incerta existência.
A visão dos lençóis manchados de vermelho não feria nada, era só a surpresa, o aperto, a vontade de ajudar a criança a se desvencilhar,
– Aquela tesoura grande, na segunda gaveta da cômoda. Não. Mais à esquerda, no cantinho.
Pressa nenhuma no tom de voz, era a quarta vez da prima, e não era a primeira dela, só era nova a perturbadora percepção da iminência do corte, do poder de cindir. Daquela separação mais dolorosa, a mais difícil, e de que ninguém nunca nada se lembra.
Não sabe se limpou o instrumento, só tem memória da coragem, do ímpeto, da força, só lembra que sabia que precisava cortar.
Aquele foi apenas o primeiro de muitos. Escrita em si tinha agora a certeza de seguir.
