Clarice Dall’Agnol

Cinema

A Nova Disney: o que tem de tão nova?

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por Pedro Cunha

Em 1937 Walt Disney lançou “Branca de Neve e Os Sete Anões” (Snow White and The Seven Dwarves, Hand, Cotrell et alli, 1937) e mudou para sempre a história do cinema. O filme rendeu a Disney um Oscar de Melhor Trilha Sonora Original e um prêmio especial pelo primeiro longa de animação da história do cinema americano (Esse prêmio consistia numa estatueta do Oscar normal acompanhada por sete outras menores). A receita criada pelo próprio Walt seguiria imutável por décadas: um primoroso trabalho de animação, elevado a categoria de arte, e uma escolha sempre muito criteriosa de trilhas sonoras sensacionais. Se deu certo? Até hoje ninguém ganhou mais estatuetas do careca dourado que Walt Disney: são 22 Oscars em 64 indicações. Além dos prêmios, Disney moldou a infância de gerações: nas décadas de 1940, 50 e 60 com desenhos animados como “Pinóquio” (Pinocchio, Bem Sharpsteen, 1940), “Fantasia” (vários, 1940), “Dumbo” (Bem Sharpsteen, 1941), “Bambi” (David Hand, 1942), “Cinderella” (Clyde Geronimi, 1950), “Alice no País das Maravilhas” (Alice in Wonderland, Clyde Geronimi, 1951), “Peter Pan” (Clyde Geronimi, 1953), “A Dama e o Vagabundo” (The Lady and the Tramp, Clyde Geronimi, 1953), “A Bela Adormecida” (Sleeping Beauty, Les Clark, 1959), “Os 101 Dálmatas” (One Hundred and One Dalmatians, Clyde Geronimi, 1961), “A Espada Era a Lei” (The Sword in the Stone, Wolfgang Reitherman, 1963) e “Mogli – O Menino Lobo” (The Jungle Book, Wolfgang Reitherman, 1967). Nessa passagem rápida pelas primeiras décadas dos Estúdios Disney, citando só as grandes animações, temos DOZE filmes que foram paradigmas de várias infâncias (inclusive a minha!) de gerações e gerações nascidas, inclusive, DEPOIS deles.

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A Disney Clássica 

A Disney volta a grandes voos nos anos 90, com “A Bela e a Fera” (Beauty and The Beast”, Gary Trousdale, 1991) e várias outras animações, incluindo a badaladíssima “O Rei Leão” (The Lion King, Roger Allers e Rob Minkoff, 1994). Nos anos 90 também a Disney mergulha de cabeça no futuro das animações ao fechar uma parceria (e posteriormente compra) com a Pixar, produtora de desenhos digitais. A partir daí fenômenos como as séries Toy Story, Monstros SA e Carros passaram a dividir os cinemas com verdadeiras obras-primas da animação como  “Procurando Nemo” (Finding Nemo, Andrew Stanton, 2003), Wall-E (Andrew Stanton, 2008) e “Up! Altas Aventuras” (Up!, Peter Docter, 2009), marcando e definindo várias novas infâncias. (Acredite, fui econômico nesse parágrafo. Se eu fosse ficar citando seria não um artigo, mas um livro falando só das animações Disney/Pixar!)

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A “nova” Disney, nos anos 90 

Por incrível que pareça, em termos econômicos a compra da Pixar foi o SEGUNDO melhor negócio da Disney nesse novo século. O negócio mais absurdamente lucrativo da Casa do Mickey foi mercadológico: a criação da linha “Princesas Disney”, no início dos anos 2000. Juntar as principais “princesas” da casa (mesmo que personagens como Mulan, Pocahontas e Esmeralda, que depois foi retirada da franquia, não sejam exatamente princesas) e lançar lancheiras, fantasias, adesivos, cadernos e qualquer tipo de produto que você consiga imaginar foi o grande acerto em termos de negócio das empresas de Walt no início desse século. Todas as meninas queriam ser princesas. Queriam? Pois é. Isso começou a mudar.

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Assim como a franquia das Princesas tomou conta do mercado, uma série de reflexões e questionamentos a respeito delas também começou a aparecer. Será que o modelo das Princesas Disney, em geral, fazia bem às crianças (e em especial, às meninas, público-alvo da franquia)? Com a exceção de Mulan e, vá lá, talvez de Pocahontas, as princesas da franquia eram todas “donzelas em apuros” cuja felicidade maior se dava ao encontrar um príncipe encantado que as salvasse para que elas pudessem ser “felizes para sempre”. Numa sociedade onde os papeis de gênero vem sendo questionados e redefinidos, onde as mulheres ocupam cada vez mais papeis de destaque e onde o movimento feminista cresce cada vez mais, qual o lugar para uma princesa que cai dormindo até ser acordada ou espera numa torre o príncipe que vai salvá-la? Ariel, a Pequena Sereia, chega a abrir mão da sua voz em nome do amor de um homem que ela tinha visto uma única vez. Seriam, repito, esses os modelos para a nova geração de meninas? (Um questionamento desses modelos foi feito pela principal concorrente da Disney, a Dreamworks, em “Shrek” (Andrew Adamson e Vicky Jenson, 2001). Vale o filme e as risadas).

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Com esses questionamentos vindos de vários lados, a Disney mostra porque é vanguarda a oitenta anos. A partir de 2012 a empresa começou uma forte campanha para redefinir a sua marca. Nesse sentido o lançamento de “Valente” (Brave, Mark Adams e Brenda Chapman, 2012) é pedra fundamental. Não só o filme traz uma diretora como também apresenta uma protagonista que renega todos os estereótipos de princesa: é independente, gosta de se andar a cavalo e atirar com seu arco e tem o cabelo todo desgrenhado. Merida, a princesa de “Valente”, foi introduzida no panteão das Princesas Disney já em 2013. Não sem alguma polêmica, é verdade: houve muita reclamação do público quanto a transformação que a personagem sofreu ao ser apresentada como “Princesa” ( http://www.today.com/popculture/brave-princess-sexy-makeover-not-permanent-disney-says-1C9952299 ).

“Valente” poderia ser uma exceção, um ponto fora da curva, como fora Mulan. Mas 2013 fez questão de nos mostrar que não. Com “Frozen” (Chris Buck, Jennifer Lee, 2013) temos uma total redefinição dos papeis nos filmes Disney. Tanto Anna, a irmã mais nova, quanto Elza, a irmã mais velha, são fortes, decididas e empoderadas. Não deixam nada a dever a nenhum dos personagens masculinos do filme, bem pelo contrário. A trama do filme busca algo que encontramos já nos primeiros longas da Disney, lá nos anos 1930: o “Amor Verdadeiro”. A única coisa que seria capaz de salvar Anna seria um ato de “Amor Verdadeiro”. Ao contrário do que todos imaginam e quebrando o paradigma Disney, o ato de Amor Verdadeiro não tem nenhuma relação nem com Hans, o “príncipe encantado”, nem com Kristoff, o menino desajeitado que ajuda Anna. O “Amor Verdadeiro” é o amor das duas irmãs. O personagem de Hans, inclusive, serve para ridicularizar as antigas tramas Disney que tinham por base um “amor para sempre desde a primeira vista”. O filme todo é sobre o companheirismo e a amizade das duas irmãs. Quando o conflito é resolvido Elza se torna rainha e senhora do seu país, sem a menor necessidade de casamento ou príncipe: ela se basta, e pode governar tranquilamente. Já Anna, não temos certeza: apesar dela ter um envolvimento com Kristoff, o filme não define se os personagens ficam juntos ou não, porque isso não deve ter a menor importância. Prestando atenção nos detalhes, quando Kristoff vai beijar Anna, ele PEDE para ela se eles PODEM se beijar: não é ele que a beija e também não é a força: o beijo é dos dois e é consentido. Nada disso, tenham certeza, é por acaso. A Disney com Frozen coloca não uma, mas DUAS princesas novas na sua franquia e ambas independentes, fortes e proativas. Mulheres, enfim, do século XXI. Se você ainda não está convencido de que Frozen é um dos filmes mais legais dos últimos tempos, além dessa questão do papel das meninas nós podemos também chamar a atenção para o belo destaque que o filme dá ao tratamento com o diferente: os poderes de Elza fizeram, num primeiro momento, com que ela fosse tratada como pária. Com a resolução do conflito, a diferença dela é celebrada e comemorada por todos. Elza não só é aceita como é aceita como a Rainha de Arendelle.

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Se “Frozen”, depois de “Valente”, não foi suficiente para convencer você, chegamos em 2014 e os Estúdios Disney fazem uma releitura de “A Fela Adormecida”, chamada… “Malévola” (Maleficient, Robert Stromberg, 2014). Se “A Bela Adormecida” acaba sendo um dos maiores exemplos daquele papel feminino submisso (convenhamos: a única coisa que a menina faz no filme é ter o dedo espetado por uma roca!!), a revisão da história pelo ponto de vista de uma das bruxas mais icônicas da Disney nos mostra que… enfim, não é bem assim. Não por acaso a Disney foi buscar Angelina Jolie para o papel. A atriz, além de ser uma das mais bem pagas de Hollywood, é conhecida pelo seu protagonismo em inúmeras ações sociais, sendo muito mais do que simplesmente um rostinho bonito. A história da fada que virou bruxa para defender seu povo sensibiliza qualquer um que a assista. O filme tem cenas fortes: o momento no qual Malévola acorda sem as suas asas, arrancadas pelo ambicioso Steffan, é quase brutal e já foi comparado, sem exageros com uma cena de estupro. O ambicioso Steffan traiu Malévola, que fora sua amiga, par tornar-se rei, e a ira de Malévola acabou recaindo sobre Aurora, a filha de Steffan. A virada do filme se dá, mais uma vez, com a busca pelo “Amor Verdadeiro”. No fim das contas o “Amor Verdadeiro” capaz de acordar Aurora não seria o do Príncipe Phillip, mas sim o da própria Malévola, que durante anos acompanhou a menina crescer e acabou afeiçoando-se a ela. “Malévola” é uma história de quebra de confiança, de redenção e, sim, uma história de amor. Mas aqueeeele amor que estávamos acostumados nos filmes Disney? Esqueça. Aquele tempo acabou. E que bom, não?

Literatura

História de Maria: a menina que corria para a chuva

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imagem: Ana Nitzan

por Marcella Marx

Bastava começar a trovejar que Maria cruzava os dedos. Ela não entendia porque as pessoas corriam da chuva, pra ela não existia sensação mais gostosa. As gotas acariciando seu couro cabeludo, penetrando pelos fios, alagando as orelhas, até escorregar pelo nariz e pingar direto na sua língua, já a espera. O gosto só não era melhor do que o de sua lágrima, porque não era salgado.
Maria se divertia com o som dos pingos em superfícies diferentes. O som do pingo no chão de asfalto, o som do pingo no telhado, na grama do jardim, na janela de vidro (quando era chuva de vento); e seu favorito: o pingo na poça já formada. Quanto maior a variedade, mais bela era a sinfonia da chuva.
Quando sua mãe dava por si, a porta estava aberta e Maria lá fora se encharcando o quanto podia.
Maria acreditava que precisa ser regada pra criar raiz e, pra quem sabe um dia, brotarem de sua cabeça grandes e suculentas maçãs.

Literatura

Crepúsculo

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imagem: Cassiano Rodka

por Isabel Dall’Agnol

Já te esqueceram.
E não que te neguem.
Tua presença é mero acaso,
descaso.

Dentre o faz, por tanto faz,
perdeste o que te satisfaz.
Pulas alma por alma,
enganando o espelho.

Faz tempo que te
apagaram.
Acontece que esvaziaste
a alegria.
E quem quer viver de
melancolia?

Teu encanto, jogaste
num canto.
Desataste cada laço,
até te enroscares numa forca.

Aonde vais, no final?
E o que queres,
se não requeres?

Acende a luz,
antes que a noite
te sugue.

Literatura

Das coisas que me movem

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imagem: Cassiano Rodka

por Clarice Casado

Only love can make it rain,
The way the beach is kissed by the sea.

(Love reign over me, The Who)

Perguntada sobre o que me move a escrever,
respondi:
o que me move
são perguntas como esta.
O que me move são as coisas que se movem ao meu redor.
As ideias que me surgem,
os pensamentos que não podem sair do meu corpo,
os sonhos que não passam de sonhos,
as angústias que insistem em passar a noite.
É o outono,
também o inverno,
algumas vezes a primavera,
e pouquíssimas vezes o verão.
É a incerteza sobre o certo,
e a certeza sobre o duvidoso.
É o medo do que já foi,
e do que ainda está por vir.
É o medo de mim,
o medo de descobrir que posso.
A não-coragem de romper regras,
e a vívida convicção de que as palavras de fato me conduzem,
a todos os lugares, e, ao mesmo tempo, a lugar nenhum.
Me movem as coisas que parecem óbvias, mas se disfarçam de obscuras.
Os cheiros de coisas passadas, e também os aromas do presente, que me tiram a concentração.
Me move aquela necessidade insustentável, por vezes, de gritar.
De berrar para dentro, porque só eu mesma ouço, e entendo.
Me move um pavor de criar mundos: inicio, por vezes,
mas interrompo.
Me move, finalmente (mas nunca como o fim),
a constante possibilidade de fazer poesia,
enquanto aqui eu estiver,
em todas as vezes que alguém resolver vir me sacudir com uma pergunta como a tua.

Cinema

Nove Anos de PáginaDois!!

por Pedro Cunha

O tempo passa rápido. Olha o PáginaDois completando nove anos aí! A sensacional iniciativa do Cassiano Rodka e da Clarice Casado nos dá a impressão que surgiu ontem, apesar de estar no ar já desde 2005. Também já tem um tempinho, desde 2010, que eu estou pilotando a coluna de cinema do PáginaDois, o que me dá muita alegria. Como presente para esse aniversário, pensei em dar uma passada no Túnel do Tempo e dar uma olhada no que estava nas telonas no longínquo ano de 2005… vamos comigo?

2005 foi ano de um dos documentários mais fofos da história do cinema. Se você ainda não viu, assista “A Marcha dos Pinguins” (La marche de l’empereur, Luc Jacquet). Um documentário de 80 minutos relatando um ano da vida de pinguins imperadores na Antártida. Parece entediante? Acredite, não é. A espirituosa ideia de mesclar a narração (de Morgan Freeman) com vozes dublando os próprios pinguins fez com que um documentário sobre vida selvagem fosse uma das grandes bilheterias de 2005. O filme faturou o Oscar de Melhor Documentário em 2006.

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Falando em fofuras, 2005 foi um ano de boas animações. A Dreamworks acertou a mão e emplacou “Madagascar” (Eric Garnell e Tom McGrath). O leão Alex (com a voz de Ben Stiller), a zebra Marty (Chris Rock), a girafa Melman (David Schwimmer, o Ross, no seu maior sucesso pós-Friends) e a hipopótama Gloria (Jada Pinketh-Smith) criaram uma história bacana e que empolgou as crianças, mas quem acabou roubando a cena foi o Rei Julien (Sacha Baron Cohen, o Borat), seu escudeiro Maurice (Cedric the Enterteiner) e os lêmures que fizeram todos se remexerem muito. Ah, sem esquecer, é claro, Capitão, Kowalski, Rico e Recruta, os pinguins que fizeram tanto sucesso que ganharam sua própria série.

Ainda nas animações, eu gosto muito do Tim Burton quando ele fica menos pretensioso e megalomaníaco. E em geral nas animações ele acerta o tom. “A Noiva Cadáver” (Corpse Bride, Tim Burton e Mike Johnson) segue na linha stop-motion de “O Estranho Mundo de Jack” (The Nightmare Before Christmass, 1993) e conta com as dublagens de Johnny Depp (não!) e Helena Bonham Carter (sério??). Vale acompanhar as desventuras de Victor Van Dort e Emily.

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Em 2005 os quadrinhos começavam a grande invasão dos cinemas, que seguiu com os sucessos de “X-Men” (Bryan Singer, 2000) e “Homem Aranha” (Spiderman, Sam Raimi, 2002). Apesar de alguns tropeços, como o infantil “Quarteto Fantástico” (The Fantastic Four, Tim Story) e o horrível “Elektra” (idem, Rob Bowman), que não se salva nem pela presença da linda Jennifer Garner. Os quadrinhos mais alternativos tiveram mais sorte. A adaptação de “Sin City” (Sin City, Robert Rodriguez e Frank Miller) agradou tanto pelo clima noir quanto pela fidelidade da adaptação da obra do quadrinista Frank Miller (que foi co-creditado como diretor por pedido do próprio Rodriguez). O filme resgatou Mickey Rourke do ostracismo e deixou todos alucinados pela beleza de Jessica Alba. Algumas características que veríamos em outros filmes de Rodriguez aparecem aqui pela primeira vez.

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Impossível falar de filmes de quadrinhos em 2005 sem lembrar que esse foi o ano da ressuscitação de Batman. “Batman Begins” (Cristopher Nolan) refundou a mitologia do morcego no cinema e abriu uma trilogia que foi aclamada por público e crítica. Além de ter achado em Christian Bale o ator certo para o seu Batman, Nolan ainda conseguiu acertar na mosca em todo o elenco de apoio. Michael Cane (Alfred), Morgan Freeman (Lucius Fox) e Gary Oldman (Policial Gordon) quase que valem sozinhos o filme. Me lembro de sair do cinema encantado e pensando “Uau! Enfim um filme do Batman!”

O Woody Allen de 2005 é um dos mais especiais da carreira do diretor. No começo do novo século o mundo todo começava a duvidar da capacidade criativa do nova-iorquino: a fonte havia se esgotado. E então, em 2005, ele fez “Match Point”. O filme representa uma grande virada na carreira do cineasta. Foi a primeira vez (em mais de trinta anos) que ele não filmou em Nova Iorque. Mais que isso, foi a Londres (e acabou se apaixonando pela cidade onde voltaria a filmar mais algumas vezes), do outro lado do Atlântico. Alguns (o próprio diretor, inclusive) consideram “Match Point” como o melhor filme de Allen. Não é exagero. E foi também nesse longa que o diretor começou seu relacionamento com a sua atual musa, a atriz Scarlett Johansson.

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Quem começava a se destacar como realizador em Hollywood em 2005 era George Clooney. Deixando de ser apenas o galã, as suas investidas como produtor e diretor em 2005 frutificaram bem: tanto “Boa Noite e Boa Sorte” (Good Night, and Good Luck, George Clooney) quanto “Syriana” (idem, Stephen Gaghan) são ótimos filmes e vinculados a temas políticos, como Clooney gosta. O primeiro lhe valeu indicações ao Oscar de Melhor Diretor e Melhor Roteiro Original em 2006 e o segundo lhe rendeu a estatueta de Melhor Ator Coadjuvante, a primeira da sua carreira. Clooney, depois de ter sido o Batman com mamilos, passava a ser visto com respeito por Hollywood.

Fernando Meirelles se consagrou internacionalmente com “Cidade de Deus” (2002), que foi insolitamente indicado a QUATRO Oscars (Melhor Diretor, Melhor Roteiro Adaptado, Melhor Fotografia e Melhor Edição), mesmo sendo um filme em português. O sucesso o levou aos EUA e o seu trabalho de estreia por lá saiu em 2005. “O Jardineiro Fiel” (The Constant Gardner), um filme político com uma pitada de policial, denunciava as ações da indústria farmacêutica mundial na África e foi bastante elogiado. Rachel Weisz levou o Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante pelo filme.

O taiwanês Ang Lee havia maravilhado o mundo com “O Tigre e o Dragão” (Wo hu cang long, 2000) e depois disso dirigiu “Hulk” (2003), a nem tão bem sucedida adaptação do golias esmeralda para os cinemas. Quando estreou “O Segredo de Brokeback Mountain” (Brokeback Mountain), em 2005, o mundo foi surpreendido com uma triste história de amor que era extremamente sensível e dura ao mesmo tempo. “O Segredo de Brokeback Mountain” foi o primeiro de uma nova safra de filmes hollywoodianos tratando sobre a homossexualidade não de forma caricata ou ridícula, mas como algo que faz parte da nossa sociedade e é discriminado por ela. Ang Lee levou o Oscar de Melhor Diretor pelo filme, mas o de Melhor Filme acabou ficando com “Crash – No Limite” (Crash, Paul Haggis).

Por fim não dá para falar de 2005 nos cinemas sem nos lembrarmos que a malfadada segunda trilogia de Star Wars encerrou-se nesse ano com “Guerra nas Estrelas – Episódio III: A Vingança dos Sith” (Star Wars: Episode III – The Revenge of The Sith). Esse conseguiu ser o melhor filme da nova trilogia (o que não é grande coisa, já que os dois primeiros…) e tem algumas sequências memoráveis, como a luta de Anakin com Obi-Wan sobre a lava e o icônico momento em que o Imperador Palpatine olha para Darth Vader e ordena: “Rise!”

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2005 teve cavaleiros jedi, cowboys, pinguins, homens-morcego e ativismo político. Perdemos o Papa João Paulo II. Estourou o escândalo do Mensalão. A Microsoft lançou o X-Box 360. E no meio disso tudo nascia o PáginaDois. Parabéns, Rodka e Clarice!! E que venham muitos outros aniversários!!

Música

O punk feminista da banda Le Butcherettes

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por Cassiano Rodka

A banda Le Butcherettes surgiu pelas mãos da vocalista e guitarrista Teri Gender Bender. Filha de mexicanos, ela cresceu nos Estados Unidos sentindo na pele o preconceito em relação à sua origem e ao fato de ser mulher. Ficou conhecida no colégio por nunca levar desaforo para casa e encontrou nos palcos o local perfeito para destilar suas ideias em relação a tudo o que ela via de errado ao seu redor.

Aliando-se à baterista Auryn Jolene, Teri gravou o EP “Kiss & Kill” em 2008, que versa sobre igualdade de sexos, abuso e sexualidade do início ao fim dos seus quase 20 minutos. Ao vivo, a mensagem feminista fica ainda mais clara: a vocalista aparece com um vestidinho anos 50 e um avental, munida de vassouras e espanadores. Usando esses símbolos de submissão feminina, a cantora brada suas letras, pulando, dando cambalhotas, cortando os cabelos e se sujando com sangue falso. Teri Gender Bender é PJ Harvey e Iggy Pop em uma só pessoa.

Em 2009, Auryn Jolene deixou o grupo e Teri decidiu se mudar para Los Angeles, onde passou a tocar com o baterista Normandi Heuxdalfo. Em 2011, a banda gravou seu primeiro álbum, “Sin Sin Sin”, com produção de Omar Rodríguez-López do Mars Volta, que também assumiu o posto de baixista. Nele, Teri decidiu criar algumas faixas nos teclados, resultando em ótimas músicas, como “The Leibniz Language”, “Tainted in Sin” e a jazzística “The Actress That Ate Rousseau”. Há espaço para faixas minimalistas, como a enérgica “Dress Off”, que se resume a vocal e bateria, e também para canções bem trabalhadas, como o single “Henry Don’t Got Love”, com muitos vocais e a participação de Berenice Einung no violoncelo. O single fez um certo barulho no circuito alternativo, garantindo à Le Butcherettes convites para abrir shows do Deftones, do Yeah Yeah Yeahs, do Dillinger Escape Plan e do próprio Mars Volta.

Depois de uma extensa turnê pelos Estados Unidos e pela Europa, a banda voltou para casa e gravou seu segundo álbum, intitulado “Cry Is for the Flies”. Lançado em 2014, o novo disco capta a energia da banda ao vivo melhor do que os anteriores. O teclado é utilizado novamente, de forma minimalista e mais punk, quase como se fosse uma guitarra mesmo. Basta escutar a faixa de abertura, “Burn the Scab”, para entender o que quero dizer. O vídeo criado para a música “Demon Stuck in Your Eye” tem chamado atenção por ter uma história bizarra e pouco compreensível, que inclui um cowboy dançante com máscara de “luchador” mexicano e um velho que aparentemente sequestra a vocalista para lhe propor casamento. Assim como o single do disco anterior, a música é um punk sujo, mas com apelo pop. O disco conta também com duas presenças ilustres: Mr. Henry Rollins monologando na faixa “Moment of Guilt” e a vocalista do Garbage, Shirley Manson, fazendo um dueto com Teri na faixa bônus “Shame, You’re All I’ve Got”. A bandeira feminista está em boas mãos!

Literatura

Olhe ao redor

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imagem: Cassiano Rodka

por Clarice Casado

E então me vi sem meu telefone celular. Por mais de uma hora. Em uma segunda-feira qualquer. Ok, o leitor vai pensar, “Ué, eu fico até mais tempo sem o meu!”. Fica mesmo, sério? Acredite em mim, você pode até ficar, se tiver alguma outra distração: trabalho, estudo, um livro, um filme, um passeio no parque ou na praia, um papo ao telefone (fixo!) com um amigo, uma hora na academia, umas comprinhas, um jantar com a família. Experimente, porém, ficar parado por uma hora, só olhando a vida passar, sem seu celular na mão. Estou falando sério, experimente. Vá lá quando acabar de ler esta crônica. Nada fácil. Nos primeiros cinco minutos, senti até uma certa dormência louca nos dedos, que queriam desesperadamente fazer aquele movimento de desbloqueio da tela de início do celular.

Pedi um café, e foi só aí que comecei a relaxar – cafeína tem este efeito sobre mim, acreditem se quiserem. Olhei nos olhos da garçonete ao fazer o pedido (coisa que não se faz mais hoje em dia). Observei com atenção o casal ao meu lado, dois velhinhos, de mãos dadas. E também as moças em outra mesa, envolvidas em algo que parecia uma reunião de trabalho. E o adolescente com fones de ouvido, estudando química. Fiquei curiosa para saber o que ele estava ouvindo! Um senhor sozinho rascunhava num caderninho (seriam poemas?). Senti o cheiro inigualável do meu café, como nunca sentira. E também o aroma irresistível dos bolos e pãezinhos. Acompanhei o andar e os semblantes dos passantes. Pessoas preocupadas, felizinhas, sérias, correndo. Tinha de tudo. Prestei atenção na música ambiente. Bossa nova. “Samba do avião”, de Tom Jobim. Perfeita. “Minha alma canta/Vejo o Rio de Janeiro/Estou morrendo de saudades…”. Lembrei então do meu pai (que ama Bossa Nova), na casa onde cresci em Porto Alegre, escolhendo qual seria a música da noite. E da minha mãe lendo na sala, e do cheiro do jantar em andamento. Do meu pai preparando bebidinhas para ele e para os convidados. Dos meus familiares chegando para começar a festa. Vozes. Cheiros. Sons. Da família inteira reunida ao redor da mesa, num clássico jantar com muitas histórias, memórias, risadas, abraços e brindes. Sorri, emocionada. Pedi outro café. Peguei na minha bolsa uma caneta e um folheto verde de propaganda de uma livraria, que estava ali mofando há semanas. Comecei, então, a escrever esta crônica. Quando dei por mim, não estava mais sozinha. Olhando ao meu redor, consegui também olhar dentro de mim.