Clarice Dall’Agnol

Música

Dissecando o novo disco do Radiohead

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O Radiohead é definitivamente uma banda única e escutar um álbum dos caras é uma experiência que merece tempo disponível.

Seguindo o abstrato e antipático “The King of Limbs”, “A Moon Shaped Moon” é uma audição muito mais agradável e gratificante. Mais próximo da delicadeza de “In Rainbows”, o álbum traz músicas macias e certamente melhor acabadas, com a imprescindível participação da London Contemporary Orchestra. É o tipo de trabalho que merece mais de uma ouvida para ser apreciado.

A primeira faixa, “Burn the Witch”, é também o primeiro single e já estabelece o tom geral do disco, com orquestrações, instrumentação climática e vocais melódicos, com os ocasionais momentos tensos, é claro.

“Daydreaming” é uma balada de piano bem clássica do Radiohead, prima de “Pyramid Song” e “Sail to the Moon”, com as guitarras etéreas de Jonny Greenwood e aquele estranhamente delicioso vocal de quem recém acordou de Thom Yorke.

“Decks Dart” é uma canção flutuante, de se sentir nas nuvens, com bastante espaço e a bela participação do coral da London Contemporary Orchestra, adicionando dramaticidade ao clima da música. No final, uma guitarra mais funkeada (a la “Just”) vai crescendo e se instalando no espaço, mas de canto, sem tomar conta da canção.

“Dark Island Disk” é uma balada acústica com um pezinho no blues, com ares de “Blackbird” dos Beatles, que deita tranquila em uma cama de guitarrinhas etéreas, sintetizadores e um baixo confortável.

“Ful Stop” é típico Radiohead pós-KId A, com um baixo repetitivo e splashes de teclados e efeitinhos construindo um clima tenso para então entrar a bateria e Mr. Thom Yorke nos colocar em transe com seus vocais. Deve ficar muito boa ao vivo.

“Glass Eyes” é uma balada de piano deicadíssima, com cordas e Thom Torke mostrando a eficiência musical do seu murmúrio. Aqui acho que ele já tinha tomado um cafezinho.

“Identikit” é o mais próximo do rock que o disco chega, com Jonny arriscando até um solinho de guitarra no final da canção. Já faz tempo que chamar o som da banda de rock é quase uma ofensa, pois limita justamente o forte de sua música, que é a total falta de gênero definido.

“The Numbers” é uma faixa acústica com levadinha marota e vocais arrastados, podia estar tranquilamente no “Hail to the Thief”. Mais uma vez o coral surge, dessa vez com acompanhamento da orquestra. A partir dos 3:25 da música é impossível não pensar no clássico “Histoire de Melody Nelson” do mestre Serge Gainsbourg.

“Present Tense” é uma baladinha dedilhada daquelas que o guitarrista Jonnny Greenwood consegue fazer com maestria e muita delicadeza. Os belos vocais de Thom Yorke ganham efeitos eletrônicos de eco e são muito bem acompanhados do coral da London Contemporary Orchestra, aludindo um pouco ao trabalho do grande Ennio Morricone.

“Tinker Tailor Soldier Sailor Rich Man Poor Man Beggar Man Thief” traz uma sequência quebrada de acordes de piano que só a cabecinha demente de Thom Yorke pode criar. Acompanhada por uma batida eletrônica contínua e algumas inserções de bateria real que vão surgindo de canto junto com a orquestra em clima bem cinematográfico.

“True Love Waits”, velha conhecida dos fãs em performances ao vivo, mas nunca gravada em estúdio, fecha o disco em uma releitura de piano. É uma opção interessante, pois soa como se a banda estivesse dizendo “ainda somos os mesmos, mas amadurecemos um bocado, não?”.

“A Moon Shaped Moon” é um disco daqueles que vai crescendo dentro da gente quanto mais vezes ele é escutado. É como se fôssemos descascando várias camadas e compreendendo como funciona aquele espécime raro. Não é trilha sonora, é uma aula. Quem dorme perde a experiência, quem escuta aprende.

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Literatura

Sob o sol

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imagem: Cassiano Rodka

por Marcella Marx

Eu vejo uma mulher. Ela está vestida com véus que lhe cobrem as pernas e se arrastam pelo chão de terra. A cada passo, a terra vermelha tinge a barra de seus véus, e vai ganhando mais tecido. Se ela fosse o sol, o vermelho da terra me diria que ela também está prestes a sumir no horizonte.
Sobre a cabeça, lhe pesa uma cesta com muito de uma só coisa. Ninguém precisa de muito de uma coisa só. Somente para si, muito de uma coisa pesa demasiado. Mas ainda assim, seu rosto a carrega em silêncio.
Meu olhar pousa sobre seus pés, que transbordam o chinelo e acariciam a terra com suas margens. Uma auréola negra delineia cada uma das unhas, e confere aos seus pés uma maturidade que eu nunca serei capaz de entender.
Seu suor nasce do couro, escorre pela testa, se demora um pouco no encontro com a sobrancelha (onde se junta a mais gotas), e, finalmente, derrama pelos lados e para dentro de seus olhos negros. Ela não reage. Eu sinto por ela o sal do suor ardendo em seus olhos (os olhos produzindo sua defesa). As lágrimas escorrendo pelo canto das bochechas, se misturando com o pó vermelho da terra e expulsando o que ali dentro não cabia mais.
A mulher cruza meu caminho uma vez, apenas. Mas eu a persigo desde então.

Literatura

Jardim de estátuas

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imagem: Cassiano Rodka

Pouco importa o quanto tempo ficamos dentro da casa. Nosso destino ali era mesmo visitar o jardim.

Quando nos libertamos daquele espaço fechado, fomos surpreendidos por uma grande área aberta com diversas estátuas. Havia um círculo de esculturas em tamanho real, homens e mulheres acinzentados, com expressões faciais quase nulas, leves sorrisos nos rostos no que parecia ser uma grande festa. Eu nunca havia visto nada igual.

O jardim era imenso, tomado pelas mais diferentes figuras, todas com muitos detalhes, cada uma em uma posição diferente, um trabalho certamente de anos. As mãos delicadas seguravam taças, bandejas, cornucópias. Algumas figuras estavam nas pontas dos pés, como se estivessem flutuando, em êxtase. Haviam nos falado que era um lugar especial, mas não estávamos preparados para tanta beleza. Entramos em meio ao círculo, observando, estupefatos, a grandeza daquela construção. Uma das mulheres tinha sua cabeça pendendo no ombro de outra, um cansaço ébrio compartilhado. Um homem seminu bebia de um chifre com sua cabeça pendendo para trás para garantir que não sobrasse uma só gota.

A noite colaborava com o espetáculo. O céu exibia nuvens espiraladas, que pareciam ter sido moldadas especialmente para enquadrar as cenas compostas por aqueles seres inanimados. A festa a que eles pertenciam aparentava ser uma grande celebração, e nossas mentes trabalhavam em imaginar a que ou a quem ela era dedicada. Quanto mais andávamos por entre as estátuas, mais éramos tragados para dentro daquele universo. Era possível escutar os sons de suas risadas e o burburinho de várias vozes falando ao mesmo tempo. Aos poucos, fui percebendo a presença de alguns seres mitológicos misturados aos humanos, provavelmente a representação de deuses. Talvez a festa fosse para eles. Um ser metade homem, metade animal abraçava por trás uma mulher, segurando seu braço em direção a um cálice. Talvez a festa fosse regida por eles. Uma figura feminina com três olhos tinha seus dedos pousados nos ombros de uma mulher sentada com um bebê no colo. Ambas observavam silenciosamente a criança.

Sem dizer nada, minha irmã voltou-se para o caminho que nos devolveria à casa. Minha mãe pegou o meu braço e começamos a caminhar levemente, com um passo hesitante, dissipando com certa dificuldade o que havíamos contemplado naquele cenário.

Senti um movimento à minha esquerda. Outro logo em seguida, alguém correndo por trás de nós dois. Em um susto, vi com clareza um dos homens acinzentados passando apressado entre mim e minha mãe, nos separando por alguns instantes. Logo, várias estátuas ao meu redor botavam-se em disparada em uma mesma direção. Cada uma despertando no seu próprio tempo, mas todas com um desejo atribulado de sair dali. Repentinamente, uma multidão de figuras passava por nós sem grandes cerimônias, quase derrubando quem estivesse parado. O silêncio fora trocado pelo som de seus corpos se movimentando. Não se escutavam vozes, apenas movimento. Seus olhares e suas intenções continuavam incompreensíveis. Minha mãe estava um tanto assustada, mas ao mesmo tempo seus olhos brilhavam com um diletante fascínio.

Em meio ao tumulto, um estouro. Uma das esculturas havia tombado. Só então percebi que haviam diversas figuras descolando-se de algumas colunas que circundavam o jardim. Gárgulas tentavam alçar voo e despedaçavam-se aos nossos pés. O barulho tornava-se aterrador. Pedaços de pedra se acumulavam ao nosso redor, mas ninguém cessava sua deserção aflita. Não sei dizer por quanto tempo isso se deu, mas a sua interrupção pareceu tão repentina quanto o seu início.

Quando o silêncio tomou conta do jardim novamente, não havia sinal de nenhuma das estátuas. Em um mar de escombros, havia apenas minha mãe, minha irmã e eu. Abraçados, com expressões indecifráveis, em um semicírculo. Estáticos.

Música

A ilha nada solitária da Selton

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imagem: Cassiano Rodka

Imagine uma ilha paradisíaca onde as pessoas cantam nuas em meio a macacos que sambam ao som de bongôs eletrônicos tocados por elefantes enquanto lavadeiras curtem uma viagem de LSD. É assim que eu definiria o som da Selton.

Formada na Espanha por quatro amigos gaúchos, a banda Selton chega a seu quarto álbum com uma voz própria e um repertório sólido de canções que mesclam indie rock, pop e MPB.

Tudo começou quando os músicos Daniel Plentz, Eduardo Dechtiar, Ramiro Levy e Ricardo Fischmann se encontraram na cidade de Barcelona e decidiram montar uma banda. Criando residência no Parc Güell, o grupo passou a fazer performances acústicas de clássicos dos Beatles. Foi o suficiente para chamar a atenção do produtor musical da MTV Itália, Gaetano Cappa, que convidou os guris para gravarem o seu primeiro disco em Milão em 2008. Intitulado “Banana à Milanesa”, o álbum apresentava uma seleção de covers de músicas italianas e duas composições da banda.

Dois anos depois, veio o primeiro disco de composicões próprias, chamado simplesmente de “Selton”. Construindo sua base no amor por Beatles, Mutantes e Beach Boys, o grupo deu vida a canções que exploravam o seu forte senso melódico, tanto nos arranjos vocais quanto na instrumentação. A sonoridade criava uma conexão entre o rock psicodélico dos anos 60 e o indie pop contemporâneo, o que fica claro nas faixas “She’s Gone (ou, na versão em italiano, “Non Lo So”)” e “Anima Leggera”.

Em 2012, foi a vez de lançarem “Saudade”, apontando o foco mais diretamente para o público brasileiro e encontrando um equilíbrio perfeito entre a MPB e o indie rock. Mesclando melodias acústicas com guitarras estridentes, baixos funkeados e experimentalismos eletrônicos, compuseram algumas de suas melhores músicas, incluindo “Across the Sea”, “Ghost Song” e “Eu Nasci no Meio de Um Monte de Gente”.

Mas foi ao se mudaram definitivamente para a Itália que a banda encontrou, no bairro de Loreto, o seu pequeno paraíso. Se o disco anterior via a banda lidando com o sentimento de saudade, o novo álbum, “Loreto Paradiso”, encontra os integrantes em paz com a sua vida nômade, abraçando a condição de cidadãos do mundo. Isso fica claro na mistura muito natural de línguas ao longo das faixas. Às vezes, em uma mesma música, a banda canta em inglês, português e italiano, passando de um idioma ao outro sem grandes cerimônias. As letras também refletem essa segurança em não fazer parte de nenhum lugar específico, mas de todos eles ao mesmo tempo. As baterias trazem mais elementos eletrônicos e os baixos carregam uma influência de funk e soul.

Recentemente, a Selton esteve no Brasil para apresentar as músicas de “Loreto Paradiso”. O show no Theatro São Pedro, em Porto Alegre, mostrou uma banda bem sintonizada. O setlist incluiu grande parte do repertório do novo disco com algumas faixas dos álbuns anteriores. O clima era de festa e descontração. Durante “Junto Separado”, o público foi convidado a se abraçar durante a performance da música, quebrando um pouco a segurança das ilhas pessoais de cada um dos presentes. O R&B divertido de “Don’t Play with Macumba” ganhou a participação dos gaúchos da banda Dingo Bells nos vocais, e a música “Qui Nem Giló (Saudade)” colocou todo mundo em pé a acompanhar nas palmas. As músicas de “Saudade” eram as mais cantadas pela galera, mas as novas canções também tiveram uma ótima receptividade. No bis, a mutante “Eu Quero Mudar” instaurou o clima de bagunça e botou o teatro abaixo, garantindo que todos saíssem dali com um sorriso no rosto.

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imagem: Cassiano Rodka

Atualmente, a Selton está de volta à Europa, onde segue a turnê de divulgação do novo disco. Entre Itália e Brasil, a banda parece mesmo ter encontrado o seu lugar. E a sua ilha é do tamanho do mundo.

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Literatura

Café

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imagem: Isabel Dall’Agnol

por Isabel Dall’Agnol

À minha prima Clarice.
Nossa amizade é assim.
Como o café que tanto amamos.
Tu és assim.
Como o café que tanto amo.

Mergulha tua essência
nessa água ardente.
Desmancha em sabor.
Derrama-se em cor.

Aroma que seduz.
Esquenta a alma.
Com calma.

Sossego em confusão.
Companhia à solidão.
Motivo de diversão.

Não deixo.
Não nego.
Não canso.

Nosso devaneio
é forte.
Ponto intenso.
Sempre puro.

E segue…
Enfim…
Sem fim.

Daí, que não esvazio
teu fundo.

Tua existência
é eterna.
Faz magia no tempo.

Literatura

The river

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imagem: Cassiano Rodka

por Marcella Marx

She was afraid of rivers.
Never had she understood how the liquid could spring up like that.
Tiny bubbles, drops, tears.
A secretion of something that, for some reason, could no longer be repressed
Down, under the earth.
Concealed by the depths,
Layers of lava and soil.

So much like her sad eyes welling in tears.
Water brims over from earth
Through these small spaces,
Then they run down,
Gravity obedient, course aggressive.
Carving land, digging into rocks, molding and moistening the surface of her skin.

She takes both her hands and presses them against her eyes.
She has to find a way to stanch the salty water.
Her hands are wet now, salty wet, and she can taste the consequences in her mouth.

Her hands move towards the ground and they choke the land.
The salt and the sweet of the water mix.
On her.
In the river.
And both keep on flowing in spite of her.