Clarice Dall’Agnol

Música

Os 12 uivos do Hombre Lobo

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por Cassiano Rodka

Mark Oliver Everett, mais conhecido como E, é essencialmente um compositor autobiográfico. Suas letras refletem sua vida, relatando a perda de sua mãe devido a um câncer, o suicídio de sua irmã mais velha e tantos outros infortúnios que lhe apareceram em seus trilhos. Suas canções são reflexões sobre a vida e a morte, lições sobre perda, amor e inadequação ao mundo.

Em seu lançamento anterior, o álbum duplo “Blinking Lights and Other Revelations”, E escreveu praticamente uma autobiografia musicada. Percorreu várias fases de sua vida e escreveu um disco denso que ele definiu como “uma carta de amor à vida em toda sua linda e horrenda glória”.

Depois de um álbum tão completo e pessoal, o mentor do Eels decidiu tomar a estrada contrária para compor suas novas canções. Sua resolução foi utilizar um personagem inventado para contar sua história. O escolhido foi um velho conhecido dos fãs de Eels, o menino com cara de cachorro da música “Dog Faced Boy”. O cantor imaginou o que teria acontecido com ele e chegou à conclusão que o protagonista teria se tornado um homem com dificuldades de se encaixar na sociedade, sendo frequentemente rejeitado pelas mulheres. E assim surgiu “Hombre Lobo: 12 Songs of Desire”, um disco mais simples, cru e com letras baseadas em um personagem imaginário, mas bastante humano.

Como bem define o subtítulo de “Hombre Lobo”, o álbum é uma coleção de doze canções sobre o desejo. Em cada uma, vemos nosso protagonista em diferentes situações, ora frustrado pela negação de sua musa, ora agressivamente rendendo-se aos seus instintos animais, como no primeiro single “Fresh Blood”, cujo vídeo mostra o cantor perseguindo obsessivamente uma modelo brasileira pelas ruas.

A sonoridade do álbum remete ao som garageiro de “Souljacker”, 4ºdisco do Eels de onde – talvez não coincidentemente – saiu a canção “Dog Faced Boy”. As músicas variam entre faixas roqueiras agitadas e baladas melancólicas como só E consegue fazer. “That Look You Give That Guy”, uma das canções mais belas do disco, foi escolhida para ser o segundo single e mostra esse lado mais frágil (e tão humano) de Mark Everett. O vídeo mostra um pouco dos bastidores da gravação do disco, incluindo a sessão de registro da faixa em questão.

Sempre traçando seu próprio caminho independente de modismos, o Eels mais uma vez lança um disco atemporal que merece atenção, um despretensioso apanhado de melodias construídas com simplicidade e emoção.

Literatura

Als je licht uitdoet, kun je de sterren beter zien

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imagem: Cassiano Rodka

por Cassiano Rodka

Comecei a semana bem. Arranjei-me uma virose e, meu computador Jimmy – fiel nos problemas, como sempre – arranjou um vírus para ele. Uma indisposição incessante ronda nosso quarto e olhamos um para o outro como se esperássemos uma resposta alheia, ou um comentário qualquer. Olhamo-nos como estranhos cúmplices, dois desconhecidos que encontram-se perdidos no deserto. Que não se conhecem, mas se compreendem, como quando vemos nossa imagem refletida no espelho e reconhecemo-nos com desconfiança. Às vezes é bom proporcionarmos um apagão. E assistirmos as estrelas, o reacender das velas e a felicidade que mora em um violão.

Literatura

Sertão

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por Marcella Marx

“I went to the woods because I wished to live deliberately,
to front only the essential facts of life,
and see if I could not learn what it had to teach,
and not, when I came to die, discover that I had not lived.”

Walden (1854), Henry David Thoreau

Pela rua eu em passos largos
e em miniatura a cidade espreita
o redemoinho trazendo as notícias que escolhi deixar.
Junto ao chão que se abre enterro minhas expectativas
e procuro a simplicidade das ondas do mar.

Quero tomar o ônibus errado e com ele ao terminal
conversando com sábios estranhos
que me possam explicar sobre o sertão.
Quero aprender como o fogo
a renascer flores depois da destruição
como ele ser impetuosa
e jogar-me como faísca solta ao vento.

Música

As várias faces de Daan

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por Cassiano Rodka

Meu fascínio pela música produzida por Daan Stuyven começou quando escutei dois singles de sua discografia: “Boots”, de 1999, e “Type Ex”, de 2005. O que me impressionou de cara foi o enorme abismo musical entre uma canção e outra. A primeira é uma balada-rock estradeira e a segunda, um dance kitsch com claras referências à fase oitentista de Serge Gainsbourg. Era como se tivessem sido compostas por dois artistas completamente distintos. E este é o seu grande trunfo: Daan é um compositor com uma visão musical tão ampla, que é como se ele carregasse diversos músicos talentosos dentro de si. E isso resulta em álbuns tão ricos quanto singulares.

Seu quinto disco solo, “Manhay”, saiu no dia 27 de abril e mais uma vez surpreende o ouvinte. Depois de compor faixas dançantes em seus últimos discos, Daan deixou o sintetizador de lado para dar destaque ao piano, resultando em um álbum mais direto e mais próximo ao rock – estilo que andava se afastando de suas criações. As músicas são mais cruas e as letras, mais pessoais, duas decisões conscientes do compositor. Daan resolveu focar mais nas melodias do que nos arranjos e truques de estúdio, deixando as canções com mais espaço e um clima bastante intimista.

O primeiro single, “Exes”, traz o cantor exorcizando suas ex-namoradas em uma letra cheia de trocadilhos cantada sobre um instrumental rock que poderia muito bem ter nascido nos anos 90. O videoclipe criado para a música mostra Daan como um lenhador que anda pelo vilarejo de Manhay (município da Bélgica onde ele gravou as novas canções e que acabou dando nome ao disco) encorajando os habitantes a livrarem-se de qualquer lembrança de seus ex-namorados(as).

Depois de compor “Sunchild” para seu filho, agora chegou a vez de sua recém-nascida filhinha ganhar uma homenagem. A bela “Your Eyes”, segunda faixa do disco, foi composta para ela e dá o tom exato da nova fase do cantor: simples, frágil e humana. Logo em seguida vem “Icon”, uma das minhas preferidas. Ao som de uma divertida guitarra com ritmo circense, quatro Daans cantam uma bem humorada letra que reflete sobre o quanto uma pessoa pode mudar ao alcançar a fama, tornando-se uma personagem para a mídia e esquecendo quem ela é de verdade. “Mas quando não houver ninguém mais para enganar / Não vá se afogar na sua piscina”, declara sarcasticamente.

O lado roqueiro do compositor belga aparece em evidência em faixas como “Radio Silence”, onde a voz rasgada do cantor é acompanhada por um riff insistente de guitarra que remete às criações dos conterrâneos do dEUS. Já “Crawling from the Wreck” traz uma batida anos 80 com teclados a la OMD e um vocal carregado de delay. A letra descreve o que passa pela cabeça de uma pessoa segundos antes de bater o carro, uma experiência pessoal do pianista enquanto finalizava o álbum anterior, “The Player”.

“Você é um bad boy”. Foi o que a atriz francesa Jeanne Moreau sussurrou ao ouvido de Daan no Ghent Film Festival. E foi o suficiente para inspirar a faixa “Bad Boy”, uma estranha balada que poderia tocar em um bar cenográfico de um filme do David Lynch.

O lado tranquilo do piano do compositor se destaca em duas faixas: “A Great Retriever”, uma linda balada onde Daan se compara a um cachorro cansado de fazer tudo pela sua dona, e a canção que fecha o disco, “The Stealing Kind”, com os falsettos do cantor fazendo floreios sobre um instrumental que ecoa influências de Duran Duran e Depeche Mode.

“Manhay” é um disco repleto de melodias bem arquitetadas, criadas pela mente de um músico que sabe como valer-se das mais intensas emoções humanas para criar.

Literatura

Meu mundo em vermelho

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por Clarice Casado

E não venham me dizer que não posso falar de futebol. Que não sou autorizada. Que não gosto. Que disso nada entendo. Que sou apenas mais uma mulher de um cara fanático pelo esporte mais assistido no mundo. Não só posso, como devo e vou falar hoje sobre futebol.

Quero contar sobre o dia em que descobri que sou uma desafortunada por não apreciar a nobre arte. Foi quando eu vi as fotos de meu marido abraçado ao time inteiro do Internacional de Porto Alegre, no aeroporto de Tóquio, em dezembro de 2006. Ele estava radiante. Nas feições dele, não cabia toda a felicidade que estava sentindo. Dava para ver com clareza a emoção. Costumo brincar com ele, dizendo que nunca o vi tão sorridente em foto alguma nossa. Mas havia uma razão. O “Colorado”, como o time dele é carinhosamente chamado no Rio Grande do Sul (em razão da cor vermelha de sua camiseta e, diga-se de passagem, também da torcida inteira), tinha vencido a Copa Mundial Interclubes da FIFA. Meu marido estava lá. Foi testemunha do acontecimento, que ficou na história do clube gaúcho. Fanático por futebol e insanamente doente pelo seu time do coração, acompanhou passo-a-passo a jornada do “Gigante Vermelho” rumo à capital do Japão. Jornada esta que terminou em contagiante glória, narrada com detalhes nos diários eletrônicos de viagem do apaixonado torcedor que comigo divide a vida há dezessete anos. Durante toda a sua estada na Terra do Sol Nascente, eu podia perceber que emanava dele algo que eu talvez nunca experimente: paixão sem limites e sem fim.

Paixão? Como assim? Nunca sentiu paixão na vida? Nunca se apaixonou? Nem pelo amor de sua vida, nem por uma causa, nada disso? Respondo-lhes, leitores, que estou falando de paixão infinita. É bem diferente de paixão normal. Sabem? Paixão, por natureza, é um negócio efêmero: se esvai com certa rapidez, com o passar do tempo. Pode-se amar alguém pelo resto da vida, amar de verdade, aquele amor de doer. Amar os filhos, o companheiro, a família toda. Alguns amigos do coração. Mas, paixão, todo mundo sabe: um dia, acaba. Aquele ardor, aquela coisa de ferver o sangue, de doer a alma, de apertar o coração, dura o tempo de um verão, de um outono, de uma viagem, de um projeto de trabalho. Ninguém se descabela por alguém ou por algo para sempre, ninguém sente o coração querendo sair pela boca a vida inteira por causa da namorada. Aquela coisa que você já conhece: paixão voa, amor fica plantado para sempre.

Porém, caros leitores, porém, a paixão pelo futebol não é assim, não: a cada jogo, a cada vitória, a cada lancezinho da bola, a cada grito da torcida, a cada minuto que antecede uma partida do seu time adorado, a cada locução emocionada no rádio, a cada discussão esportiva entre amigos, a cada debate acirrado sobre uma partida na televisão, a cada visão da bandeira do coração tremulando em estádio lotado, a paixão se reacende, fica doida, se agita febril no sujeito incondicionalmente apaixonado. Paixão por futebol escolhe apenas alguns poucos que podem de fato dedicar-se a ela. Torcedores, há milhões pelo mundo afora. Torcedores apaixonados, estes, sim, são pessoas especiais: gente sortuda que vai sentir eternamente aquele incomparável friozinho na barriga. E não adianta tentar curá-los. O melhor é juntar-se a eles.

Literatura

Sinfonia em dor menor

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imagem: Cassiano Rodka

por Marcella Marx

João se agita na cama e aos berros espera ansioso a chegada da mãe trazendo um anti cólicas.

Maria começa a andar e tropeça nos degraus da entrada de casa, a babá traz correndo um antisséptico que agora não arde.

João se apaixona pela primeira vez – não é correspondido, mas chega em casa e seus pais lhe dão o último conceito em computadores (agora ele namora virtualmente).

João espirra e toma logo antibióticos, Maria chora e ganha um presente.
Assim crescem os anos, João e Maria passam.

João, agora um adulto bem sucedido, fecha os vidros negros de seu carro blindado para não ver a tristeza que o espreita, abre apenas para atirar lixo pela janela (houve sempre alguém para recolhê-lo por ele).

Maria prefere não amamentar seus dois filhos, ouviu dizer que prejudica a boa forma de seus seios e, quando a situação aperta em casa, toma um calmante.

João e Maria, Maria e João: sinfonia em dor menor.

Música

Burt Bacharach: uma lenda em Porto Alegre

por Cassiano Rodka

Burt Bacharach é um dos grandes compositores do século XX. Deu vida a algumas das mais reconhecíveis canções de todos os tempos e sua obra permanece relevante até hoje. Mas seu sucesso é uma faca de dois gumes. Por mais que as pessoas reconheçam suas músicas, elas não sabem quem é o autor delas. O que fica na lembrança são as melodias e os intérpretes, não o compositor. Essa foi, em parte, a razão pela qual o Teatro do Sesi ficou um tanto vazio durante sua apresentação no dia 13 de abril. O outro motivo foi o preço salgado.

A falta de público não pareceu intimidar Burt Bacharach, que compensou o vazio com um show mais do que completo. O vasto setlist passeou por diversas épocas da vida do compositor, fazendo um extenso apanhado de sua carreira.

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imagem: Cassiano Rodka

 

Para dar conta de incluir todos os seus inúmeros sucessos, o compositor utilizou uma boa artimanha: fez 4 medleys temáticos, produzindo cascatas ininterruptas de melodias que emocionaram o público presente. O primeiro medley reuniu alguns dos grandes hits de Burt Bacharach, como “Walk on by”, “I Say a Little Prayer”, “Wishin’ and Hopin'” e duas das minhas favoritas, “(There’s) Always Something There to Remind Me” e “This Guy’s in Love with You”.

Para interpretar as canções, três vocalistas revezavam-se ou cantavam em dueto ao lado do piano do compositor. Cada um teve também o seu momento solo, tomando o centro do palco e cantando duas ou três músicas. Foi aí que a cantora Josie James brilhou ao interpretar uma emocionante versão de “Anyone Who Had a Heart”. John Pagano destruiu o palco (e alguns corações) com “Make It Easy on Yourself” e a suave voz de Donna Taylor fez chorar muitas senhoras da plateia com a doce “(They Long to Be) Close to You”.

Outro medley que o compositor preparou foi um presente aos aficionados pela obra do compositor, apresentando alguns hits obscuros, na verdade, os seus quatro primeiros sucessos: “Magic Moments”, “The Story of My Life” “Tower of Strength” (para meu deleite) e “The Blob”, com participação do saxofonista fazendo a divertida onomatopeia da música – um “plop” passando o dedo no interior da boca.

Sempre simpático, Bacharach levantava do piano para conversar com a plateia sobre suas músicas e sua carreira. “Essa próxima música me dá muito orgulho porque ela me lembra que fui um dos compositores que tiveram uma música sua gravada pelos Beatles”, disse sorridente antes de uma belíssima interpretação de “Baby, It’s You”, hit registrado pela banda inglesa em seu primeiro LP “Please Please Me”.

Burt Bacharach também soltou o gogó em algumas faixas, como “Wives and Lovers”, “Alfie” e “Go Ask Shakespeare”, canção que gravou mais atualmente com o pianista indie Rufus Wainwright e que conta com um loop de bateria e baixo programado pelo rapper Dr. Dre. Além dessa, outras faixas mais recentes foram incluídas no repertório, como “Who Are These People?” e “God Give Me Strength”.

Burt Bacharach compôs várias trilhas para o cinema e muitos de seus sucessos são reconhecidos devido à sua presença em diversos filmes. Talvez por isso, o medley de canções cinematográficas tenha sido o mais impactante, reunindo alguns de seus hits mais marcantes, como “The Look of Love”, “Arthur’s Theme”, “What’s New Pussycat” e a inesquecível “Raindrops Keep Fallin’ on My Head”.

Depois de apresentar cerca de 40 canções em duas horas de show, o compositor se despediu de sua pequena – mas fiel – plateia que o aplaudia de pé ao som de “What the World Needs Now Is Love”. O compositor não resistiu e retornou ao palco para cantar mais uma vez o seu grande hit, “Raindrops Keep Fallin’on My Head”. O momento foi emocionante e a música podia ser escutada por todos os lados, entoada pela voz de cada pessoa que estava presente naquela noite.

Um show que vai ficar eternamente na memória, bem como a música de Burt Bacharach.

Literatura

Notícia

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por Clarice Casado

Acharam que tinha sido um infortúnio. Pura falta de sorte. Ou azar, mesmo. Ou até imprudência. Como preferirem. Eu sabia exatamente o que estava fazendo. Tinha segurança do que queria. Não tinha o menor juízo e, por certo, não tinha nem razão. Tinha, no entanto, um dose gigantesca de coragem. Tinha vontade. De sumir. Se você for ver bem, qual é a diferença entre o que eu fiz para o que todos fazem todo santo dia ao saírem para a rua? É dar a cara ao tapa: arriscar o pingo de chuva na roupa nova, a sujeira do cachorrinho no sapato, o tiro na cabeça. Me diz: qual é a diferença? Eu queria era ver o que havia depois da rebentação. Quem nunca teve curiosidade? Há os que ficam curiosos e loucos de vontade pelo resto da vida e há os que encaram. Toda aventura tem riscos. Ou não seria aventura. Eu paguei o preço por me arriscar. Paguei mesmo? Mas eu queria ir! Estou gritando, mas ninguém vai me ouvir. E estou pouco ligando. E não me venham dizer que não posso falar de amor e de morte. Do que mais eu poderia falar?