Clarice Dall’Agnol

Literatura

Coisas proibidas que começam com a letra M

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imagem: Cassiano Rodka

por Clarice Casado

Para a Angelina, minha Dear Prudence,
a guria mais inteligente
deste mundo velho sem porteira.

McDonald’s (sempre)
Martinis mexidos (apenas durante a semana)
Margaritas com tequila extra (mesmo nos finais de semana, evitar)
Mentir pra si mesmo (de acordo com Renato Russo, é sempre a pior mentira)
Molhar o cabelo depois de fazer uma escova (dinheiro jogado no lixo)
Meditar (é perda de tempo)
Mandar emails gigantes (não adianta, já que hoje em dia, ninguém lê além de dez linhas)
Marcar um encontro com a melhor amiga e não ir (mulher não perdoa, mesmo que seja sua melhor amiga)
Manchar a roupa com ameixa ou maçã (minha mãe sempre dizia que não sai)
Manha (não leva a lugar algum)
Montar um quebra-cabeças e desmontar logo depois (dá azar)
Medir as palavras (só pode se o cara não for poeta)
Música que não signifique coisa alguma (apenas um barulho chato)
Mel com colher (só vale no pão, na panqueca, ou direto na boca)
Métrica e rima (detalhes inúteis)
Muita loucura em um só poema (ninguém aguenta…!)

Cinema

Temos nosso próprio tempo

por Pedro Cunha

Em maio de 1994 eu tinha 16 anos e um coração bem mais puro do que tenho hoje. Um coração ainda inocente e que tinha uma vida inteira pela frente. Foi com esse coração à frente que eu vivi uma das noites mágicas da minha vida no Gigantinho, ginásio de Porto Alegre onde, apesar da acústica sofrível, diversos shows são realizados. Naquela noite a Legião Urbana se apresentou em Porto Alegre pela última vez. Ninguém sabia que seria a última, é claro. Mas as apresentações e turnês da Legião eram poucas, em função principalmente do temperamento de Renato Russo, o líder da Legião. Aquela noite de maio foi especial para mim. Era a turnê do disco “O Descobrimento do Brasil”, o primeiro que eu comprei da Legião e um disco muito importante para mim. Estavam comigo, naquele momento, os meus amigos para o resto da vida, embora naquele momento eu não soubesse disso ainda.

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Ingresso do show que eu fui… 

Foi pensando em tudo isso que eu fui assistir “Somos Tão Jovens”. Tentei, como sempre, permanecer meio alheio a tudo que se dizia antes do filme e sabia tão somente que era uma cinebiografia do Renato Russo ou da Legião, não sabia direito. Entrei no cinema para ser encantado, era o meu objetivo (e geralmente é esse, quando entro numa sala de cinema…). O roteiro de Marcelo Bernstein ajuda nesse sentido. Dentre as possíveis histórias, o roteirista (que teve como consultor Carlos Marcelo, autor do livro “Renato Russo – O Filho da Revolução”) escolheu contar a história do início, da adolescência do cantor e compositor. Vamos conhecendo aquele menino introspectivo e inteligente da classe média alta de Brasília que acaba, em função da fragilidade física, mergulhando na intelectualidade ao ponto de se tornar, muitas vezes, um tanto pedante e pretensioso. A vida de Renato entra em parafuso quando ele tem os primeiros contatos com o movimento punk, através de fitas demo, revistas importadas e lojas de discos underground (PARÊNTESES: ah, a idade… nessa hora a gente lembra do tempo em que trocava fitas K7 e que, para ter as letras das músicas, tinha que ficar ouvindo e parando a fita para “tirar” a letra de ouvido. Lembra de garimpar atrás de uma banda de maneira enlouquecida e daquela ansiedade para chegar em casa e ouvir o disco novo… enfim, coisas da minha geração. FECHA PARÊNTESES). Começando a ouvir punk e a se vestir como punk, Renato resolve que quer fazer música punk também. A partir daí temos a formação e a conturbada existência da primeira banda de Renato, o Aborto Elétrico, que foi também embrião do Capital Inicial. Junto com Renato acompanhamos a efervescência da cena jovem do rock de Brasília, que no início dos anos 80 era o que acontecia no Brasil. Uma classe média entediada e endinheirada sem ter muita coisa para fazer e sem saber direito como protestar. O filme mostra, junto com as dúvidas, encontros e desencontros pessoais de Renato, a formação de boa parte do que vai ser o rock brasileiro dos anos 80. O filme termina com um Renato, depois de alguns choques, mais maduro e já (bem) menos punk, com a “descoberta” da cena da Capital Federal pelo jornalista Hermano Vianna, que fez uma famosa reportagem sobre as bandas de Brasília e oportunizou à Legião Urbana seu primeiro show no Rio de Janeiro. Quando a Legião enfim engrena, o filme termina. E termina bem porque, afinal, o resto é história.

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A direção de Antonio Carlos da Fontoura faz um filme leve, apesar de tratar de um personagem que tem momentos muito pesados. Ele centra a narrativa em Renato, que era uma pessoa muito carismática e é um personagem que acaba absorvendo o filme também. A escolha do diretor foi fazer sua narrativa em função da relação entre Renato e sua amiga Aninha (Laila Zaid), que é a maior interlocutora dele no filme que ajuda a tratar da questão da sexualidade de Renato de uma maneira bastante natural e não panfletária, nem escandalosa. A narrativa centrada no personagem funciona em função da figura do ator, Thiago Mendonça. Thiago conseguiu se transmutar no personagem, ao ponto de muitas vezes tornar-se chato, como dizem que o próprio Renato era. Thiago incorporou gestos e maneirismos do cantor e em determinados momentos chegamos a pensar que é o próprio que está na tela.

Nesse sentido a escolha do elenco teve a grande sacada de encontrar as pessoas certas. Quando Herbert Vianna aparece pela primeira vez, tocando a sua Gibson importada, é difícil não rir das bocas abertas e trejeitos de Edu Moraes, que ficaram iguais aos do futuro cantor dos Paralamas. Bruno Torres (Fê Lemos), Daniel Passi (Flávio Lemos), Conrado Godoy (Marcelo Bonfá) e Ibsen Perruci (Dinho Ouro-Preto) também são muito parecidos com os originais. É covardia, nesse sentido, falar de Nicolau Villa-Lobos, que interpreta o jovem Dado Villa-Lobos, de quem é filho. Aí fica fácil ser parecido… João Pedro Bonfá, filho de Marcelo, ia interpretar o pai, mas teve um problema de saúde pouco antes das filmagens iniciarem e teve que ser substituído.

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Renato na fase do “Trovador Solitário” 

Chama atenção a escolha deliberada da produção de deletar completamente Renato Rocha, que foi contrabaixista da Legião nos primeiros discos e sequer é citado no filme. Rocha foi notícia no ano passado em função dos seus problemas com drogas que o levaram a tornar-se um morador de rua. Apesar de não fazer parte da Legião no seu início (entrou para banda depois do contrato assinado com a gravadora quando Renato cortou os pulsos e não podia tocar o baixo por algum tempo), ele já fazia parte da turminha de Brasília, sendo amigo próximo de Renato. Podia estar lá, enfim.

Num filme que trata de uma banda, a trilha sonora é meio óbvia. No caso de “Somos Tão Jovens” optou-se por uma arriscada fuga do óbvio. Para uma plateia sedenta por Legião e Renato Russo foram negados Legião e Renato Russo. Quer dizer, as canções estão lá. Mas não Renato. A opção foi criar novos arranjos e colocar o próprio Thiago Mendonça cantando. Num primeiro momento eu estranhei, mas acabei acostumando. Achei adequado. A estratégia ajuda a fazer o Renato Russo de Thiago mais autêntico. As canções que aparecem em ensaios e apresentações durante o filme foram gravadas ao vivo: Química, Tédio (Com um T Bem Grande Para Você), Veraneio Vascaína, Fátima, Que País É Esse, Soldados, Geração Coca-Cola (essas do tempo do Aborto Elétrico), Eduardo e Mônica, Faroeste Caboclo, Eu Sei (do tempo de Renato como Trovador Solitário) e por fim Ainda é Cedo (já como a Legião Urbana). O único momento em que ouvimos o próprio Renato cantando é no fim do filme, nos relatos sobre o primeiro grande show da Legião, no Circo Voador. As imagens, nesse momento, não são de Thiago Mendonça e sim do próprio Renato. Já não estamos tratando de uma ficção baseada na vida de Renato Russo, mas da própria história dele. Os arranjos incidentais que servem de cortina, durante o filme, são lindíssimos. São obra de Carlos Trilha, um dos colaboradores mais fieis de Renato durante os anos 90 e tecladista e arranjador da Legião.

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Laila Zaid e Thiago Mendonça: Química que funciona 

Se a intenção é tocar, o filme funciona. Alguns diálogos soam artificiais, com tentativas de colocar neles palavras e trechos que poderiam ter influenciado na criação das músicas. O artificialismo de alguns diálogos, aliás, é o ponto fraco do filme. Que encanta. E encanta gerações, como a própria Legião. Encontrei duas alunas na fila do cinema, Gabriela e Mariana, e ambas estavam tão ansiosas quanto eu pelo filme. O detalhe é que Gabriela e Mariana tem a mesma idade que eu tinha lá naquela noite mágica no Gigantinho. Quando Renato Russo morreu elas sequer eram nascidas. E são capazes de se emocionar com o filme e com a Legião, tanto quanto eu. O que é bom fica, não adianta. Foi mais ou menos o que a Clarice escreveu para o Vito (http://www.paginadois.com.br/site/index.php?com=textos&pagina=detalhe&id=930) também. Temos nosso próprio tempo. E o tempo da Legião é eterno. Ainda bem.

(URBANA LEGIO OMNIA VINCIT – PARA OUVIR NO VOLUME MÁXIMO)

Música

Duas mãos e uma boca: 40 anos do Sparks

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por Cassiano Rodka

Poucas bandas tem o privilégio de chegar aos 40 anos de carreira. Mais difícil ainda é atingir esse número sem ter um nome conhecido pelo grande público. Mas é exatamente isso que o Sparks conquistou. A dupla de irmãos Ron e Russell Mael toca há mais de quatro décadas e já lançou 22 álbums. Para celebrar esse tempo todo de carreira, o Sparks lançou o seu primeiro disco ao vivo, intitulado “Two Hands One Mouth”, que revisita diversas fases da banda em versões de piano e voz. Pode parecer um clichê fazer um show acústico de apanhado da carreira, mas para o Sparks é um formato bem inusitado, pois a banda sempre contou com muitos instrumentos, arranjos complexos e recursos visuais, tanto em seus discos quanto ao vivo.

A presença de palco da dupla, aliás, é difícil de passar batida. O vocalista Russel Mael canta em falsetto e faz caras e gestos que ficam entre o dramático e o cômico. Em contraponto, o tecladista Ron Mael permanece quase 100% imóvel tocando seu instrumento e encarando as pessoas com seus óculos redondos e uma expressão indefinida. E aquele bigodinho, é claro! A primeira vez que vi eles foi no programa White Room e lembro de virar para o meu amigo Camilo Mércio e perguntar: “Que diabos é isso? Ballet rock?”. As composições de Ron Mael de fato têm uma perceptível influência de musicais e óperas. Mas, ao mesmo tempo, trazem referências do pop, do rock e da música eletrônica.

Apesar de nunca ter sido um grande frequentador das paradas de sucessos, o grupo conquistou um fiel séquito de fãs sempre disposto a embarcar nos seus experimentos musicais, incluindo grandes artistas como Morrissey e Paul McCartney. O ex-vocalista do Smiths chegou a ganhar uma divertida homenagem em uma música do Sparks chamada “Lighten Up, Morrissey”. Já Sir McCartney fez ele mesmo uma reverência ao Sparks, imitando Ron no clipe de “Coming Up”.

A banda iniciou a carreira com discos que agradaram a galera do glam rock. O lançamento do single “This Town Ain’t Big Enough for Both of Us” garantiu o espaço do Sparks entre os roqueiros da época. Mas os álbuns seguintes foram deixando claro que a banda não ficaria apenas na onda do glam. Aos poucos, os novos singles da banda foram confundindo o grande público e causando desinteresse.

Em 1978, os irmãos Mael cansaram do formato de banda de rock e resolveram aventurar-se pelo mundo da música eletrônica. Fascinado pelos sintetizadores que surgiam na época, Ron decidiu juntar forças com o produtor italiano Giorgio Moroder, conhecido por gravar os hits disco de Donna Summer “Love to Love You Baby” e “I Feel Love”. O resultado foi o álbum “Nº1 in Heaven”, que mostrou uma faceta completamente diferente da banda e agradou o público europeu, onde estouraram os singles “The Number One Song in Heaven” e “Beat the Clock”.

O sucesso das faixas eletrônicas não fez a banda estacionar nesse gênero. Nos anos seguintes, a banda seguiu lançando discos com uma gama de referências cada vez maior: explorou o pop rock em “In Outer Space”, criou uma versão cabeça do eurodance em “Gratuitous Sax & Senseless Violins”, modernizou a música clássica em “Lil’ Beethoven” e apostou em guitarras pesadas em “Hello Young Lovers”. O disco de estúdio mais recente da banda chama-se “The Seduction of Ingmar Bergman” e é a trilha de um musical que a banda criou contando a história de uma visita imaginária do diretor sueco Ingmar Bergman à Hollywood nos anos 50.

Quem não conhece a banda e ficou curioso, recomendo o álbum “Kimono My House”. Quem já conhece, dá uma conferida nesse belo disco ao vivo recém lançado e divirta-se com as deliciosas incursões musicais dessa dupla tão singular.

Literatura

A Maria que ia com as outras

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imagem: Ana Nitzan

por Marcella Marx

Sob a pele seca e a boca rachada, a menina aplicava óleo de jatobá.
– A mãe de uma amiga disse que faz bem, justificava ela.
No cabelo oleoso, a menina passava talco.
– Minha bisavó costumava fazer isso, retrucava ela.
No calo dos pés, esfregava cebola.
– Minha mãe ouviu de uma benzedeira, jurava ela.
Pra unha encravada, fazia furo com alfinete e pra joanete, dormia com uma azeitona entre os dedos.
Fazia tudo o que lhe mandavam e continuava a sofrer.
Até que um dia, a menina decidiu não aceitar mais conselhos:
Arrancou as azeitonas da meia, comprou sapatos dois números maiores e deixou a unha encravada em paz, esfregou os pés com água de colônia, espanou o cabelo e mergulhou o rosto numa bacia de leite de rosas.
Dali em diante, a menina resolveu ser feliz e só fazer o que lhe desse na telha.

Literatura

Não foi tempo perdido

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imagem: Cassiano Rodka

por Clarice Casado

“Todos os dias quando acordo
Não tenho mais o tempo que passou
Mas tenho muito tempo
Tenho todo o tempo do mundo.”

“Tempo Perdido”, Legião Urbana

Hoje peço licença ao Cassiano Rodka, responsável pela coluna de música do PáginaDois, para me intrometer no território dele. Cassi, querido mano, estou entrando…!

Diz-se que no momento em que o sujeito começa a achar as músicas atuais “um lixo”, é porque está ficando velho. Se isso for verdade, estou me sentindo velha há um bom tempo.

Mas o que me deu um certo alento foi uma pergunta do meu filho Vito, de treze anos, dia desses: “Mamãe, me diz, como é ter sido adolescente numa época que só tinha música boa?”. A indagação do guri me fez ficar numa felicidade gigante, por dois motivos: primeiro, ele está reconhecendo que a música da época dele é uma porcaria, e, segundo, porque ele tem extremo bom gosto musical! Que ele tinha ótimo gosto musical eu já sabia, porque começou a estudar música cedo e, assim, aprendeu a diferenciar coisas de qualidade de arranjos musicais feitos “nas coxas”. Muito ele me ensina sobre música, pois sou apenas uma apreciadora. Uma grande apreciadora, sim, mas não entendo nada da linguagem musical e de seus mistérios. E há muitos, acreditem, leitores! A técnica, os arranjos, as notas bem trabalhadas, isto é coisa que só músicos entendem e sabem identificar em uma canção. Só músicos sabem dizer se a voz de um cara tem “ajuda” de afinadores de voz, por exemplo. E meu filho sabe direitinho que a maior parte dos músicos de sua geração utiliza-se de tais afinadores e afins, artifícios para quem não consegue fazer boa música de verdade. Fazer música de verdade é para poucos.

Assim, meu filho sempre apreciou rock clássico (Paul McCartney, Elvis, Beatles, Eric Clapton, Jimmy Hendrix, Pink Floyd, Creedence), rock das décadas de 90 (Guns ‘n’ Roses, Bon Jovi, Red Hot Chilli Peppers, Nirvana), jazzistas modernos como Jamie Cullum e Diana Krall; e agora anda numa fissura pela Legião Urbana, o que deixa a mamãe dele aqui mega feliz e orgulhosa, já que a banda brasileira marcou de maneira importante a minha adolescência, e é, em minha humilde opinião, a melhor banda brasileira de todos os tempos.

Voltando ao assunto que originou esta crônica, a pergunta do meu filho me fez mesmo pensar, por alguns dias, como foi ter sido adolescente em uma época de extrema criatividade e riqueza musical. Filho, te respondo, mais uma vez: foi sensacional! Ter crescido ouvindo Legião Urbana (que me foi apresentado pelo meu pai, em 1986), Engenheiros do Hawaii, Paralamas do Sucesso, Cazuza, Barão Vermelho, Guns ‘n’ Roses, The Cure, The Police, The Smiths, Dire Straits, Bon Jovi, Madonna, Talking Heads, Red Hot Chilli Peppers, Nirvana, Pearl Jam, Faith No More, foi simplesmente uma experiência sem igual! Na época, provavelmente eu não tinha ideia exata da dimensão do que estava vivendo e presenciando. Assim, foi naquele dia da interessante pergunta do meu filho que percebi que fui privilegiada musicalmente, bem como a minha geração inteira.

Fico muito feliz por meu filho curtir música de qualidade, e, principalmente, por saber escolher o que quer ouvir, independendo se está “na moda”, ou não. Porém, preciso fazer justiça e ressaltar que há bandas do início dos anos 2000 que aprecio e respeito, como Blur, The Strokes, The Killers, Oasis, Coldplay, Green Day, Foo Fighters, Eels. Mas essas são exceções atualmente, onde impera, de fato, uma gigante montanha de lixo musical. E tenho dito!

Literatura

Louca

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imagem: Ana Nitzan

por Marcella Marx

Louca? Louco sou eu, louca é a menina sentada a ouvir vinis. Um após o outro: Beatles, Guns N’ Roses, Dire Straits, Legião, Rita Lee… um a um ela os coloca na vitrola de seu pai que descobriu há pouco, lá no fundo de um armário, enrolada num cobertor. Ela levanta a tampa transparente, sobe a agulha empurrando a pequena manivela, retira um outro apetrecho que ela ainda não sabe a função. Coloca o disco, assoprando para sair a poeira e ouve de seu pai que era necessário dar uma “mãozinha”, girando o suporte para que o disco encaixasse. Aí sim, ela entende a função daquele apetrecho que ia por cima. Sem pressa, ela começa a detectar os chiados, de repente um pulo e várias repetições. Seu pai grita lá de dentro: – Tire o disco, levante a agulha e assopre! Foi o que ela fez, admirada em ver como os problemas se resolviam facilmente. Entretida, ela canta as músicas, aprecia as imperfeições e se encanta por elas, coisas que nunca havia feito ou notado.

Ela demorou e nem se deu conta do passar da tarde, afinal, pela primeira vez ela estava dentro da música, permeada por seu mundo. Naquela tarde, ela só fez aquilo: escutou. Nada mais.

Literatura

O que você faz faz você o quê?

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imagem: Cassiano Rodka

por Cassiano Rodka

“O que você faz?”, foi o que ele prontamente me perguntou.

– Eu costumo fazer o que tenho vontade. Mas sempre chegam as contas e os telefonemas inoportunos e os compromissos sociais… Eu faço um prato que chamo de Lasanha Rio-Grandense, pois os ingredientes são pimentões vermelhos, amarelos e verdes. Eu paro o tempo do micro-ondas um ou dois segundos antes de terminar para evitar aquele bip bip bip irritante. Cheiro minhas mãos várias vezes após refeições manuais para conferir se lavei o suficiente a ponto de eliminar completamente o odor da comida. Eu vou no banheiro de 15 em 15 minutos depois de beber muita cerveja. Mato mosquitos com uma só mão – e me orgulho disso. Falo sozinho em inglês às vezes; muitas vezes faço um sotaque estrangeiro, só pela diversão. Confiro diversas vezes o que carrego no bolso e redistribuo os itens de acordo com função ou peso. Olho várias vezes o rótulo de um bom vinho tentando gravá-lo na memória, mas depois nunca lembro se gostei dele ou não. Quando pego o violão, costumo tocar um Mi ou um Dó para conferir se está afinado. Me alongo toda hora balançando os meus braços para trás e para frente. Constantemente procuro novos músicos e bandas, e mergulho profundamente no universo dos artistas que estou descobrindo. Aliás, isso serve para qualquer forma de arte. Quando eu amo, eu devoro. Sempre peço uma garrafa a mais de vinho do que deveria. Se bebo demais, acabo saindo das festas sem me despedir das pessoas. Mas sempre aviso pelo menos um amigo. Não sei costurar papo furado. Se estou entediado, está estampado na minha cara. Não rio quando não acho graça, mas não é de propósito, eu não consigo fingir mesmo. Em contrapartida, eu rio de coisas bestas. Acho a vida, no geral, engraçada de se observar. Falo pouco e as pessoas acabam me achando antipático. Acho muito mais simpático escutar do que não calar a boca, mas não tem jeito, elas esperam que eu fale mais. Quando destacam meu silêncio, eu fico mais quieto ainda. Sou super leal e acabo exigindo a mesma lealdade de volta. Fico puto se alguém que eu prezo me deixa na mão. Leio sempre o nome no crachá dos atendentes de caixa dos supermercados ou dos taxistas, isso humaniza, de alguma forma, a relação fugaz que tenho com eles. Choro sem vergonha alguma em plena sala de cinema ou escutando música no ônibus. Vejo malícia em tudo que é frase de filme ou programa de TV. Adoro escutar o que está tocando no supermercado. Sempre treino na minha cabeça aquilo que vou pedir para o caixa do banco enquanto estou na fila esperando, como se fosse esquecer o que eu preciso quando chegar a minha vez. Pensando bem, faço isso no aeroporto, no mercadinho ou em qualquer outra fila. Quando a música da festa está chata, eu canto uma que eu goste na minha cabeça em cima da batida. Eu danço usando muito as mãos, fazendo maracas invisíveis ou apontando para os cantos. Eu sempre cuspo na patente antes de fazer xixi. Eu me incomodo em pular ou interromper músicas que eu gosto, mesmo que o táxi tenha chegado, parece um desrespeito. Eu invento palavras que não significam nada em específico. Eu dificilmente chamo uma pessoa pelo apelido. Eu adoro receber amigos em casa. Eu faço o melhor Bloody Mary que eu já tomei. Eu não sou modesto, mas costumo desvalorizar o que eu faço. Eu sou super tímido, mas me sinto mega à vontade num palco. Eu sempre faço muitos planos, e constantemente me cobro a realização de cada um deles. Às vezes levo anos para realizá-los, mas isso nunca me incomoda. Eu não levo o tempo muito a sério. Eu não tenho medo de morrer, mas envelhecer me assusta. Costumo me imaginar morrendo ao salvar alguém heroicamente, mas acho que vou morrer de algum problema respiratório. Não consigo entender como alguém que não acredita em Papai Noel acredita em Deus. Arroto com toda força e turbulência possível quando estou sozinho. Sempre faço 500ml de café passado, mesmo que a maioria das vezes não tome tudo. Me dedico de coração a uma relação quando estou apaixonado, mas consigo sair facilmente dela quando sinto que entrei numa fria. Eu lembro das datas dos aniversários das pessoas que eu amo. Mas esqueço se me perguntarem. Eu adoro comprar camisetas e casacos, odeio comprar tênis e calças. Tenho uma mania de mexer nas unhas que, para mim, é como respirar. Sou super calmo, mas quando alguém me tira do sério eu sou capaz de traumatizar psicologicamente a pessoa pro resto da vida. Eu sou um apaixonado pela vida. Acho isso aqui incrível, não consigo me imaginar perdendo o interesse. Eu sinto-me estranhamente confortável com a instabilidade. Eu acredito que a beleza da vida está em saber lidar com as cartas em mãos. E não necessariamente fazer sequências ou full-hands, mas dobrá-las em origamis ou empilhá-las em castelos ou até mesmo queimá-las. Eu gosto de fazer o que eu teoricamente não poderia. Eu escrevo sem nunca considerar que o texto será lido. Depois vejo se dá para colocar no ar. Eu faço o que eu sinto que tenho que fazer.
E você?

“Eu sou advogado”, disse ele enquanto se levantava e deixava o bar.

Literatura

Pessoas Aspartame

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imagem: Cassiano Rodka

por Clarice Casado

Ao Márcio Casado, meu companheiro de jornada, que é a antítese de qualquer pessoa aspartame.

Caro leitor, a ideia não é minha, é do meu marido. Quem resolveu desenvolvê-la fui eu, porém, preciso dar os devidos créditos a quem os merece.

Pessoas Aspartame. Sim! Estranho, não é? Se você nunca ouviu falar delas, leitor, tenha muito cuidado: as “pessoas aspartame” andam soltas por aí, e se você ainda não teve uma delas na sua vida, pode ter certeza de que ainda terá!

A pessoa aspartame é um pouco difícil de identificar, a princípio. Ela é super boazinha, super amiguinha, super prestativa, super sorridente, super legalzinha, super… docinha. Aí é que está o perigo, já que, assim como o aspartame adoçante artificial, a pessoa aspartame adoça falsamente. Artificialmente. Uma aspartame clássica pode ficar muitos anos na sua vida sem que você perceba. E ela fica mesmo, se aconchega, se deita, se espraia, se instala, pois se acha extremamente importante e fundamental. Ela lhe ajuda a conseguir tudo que quer, incentiva-lhe a ir atrás dos seus objetivos, presta toda a assistência necessária para tanto. Faz com que o sujeito envolvido por ela tenha a certeza de que, sem ela, não seria ninguém.

Até que, num belo dia, assim como ocorreu com o aspartame adoçante artificial, descobre-se que ela não serve para absolutamente nada. Sim, a notícia é bombástica: além de não servir mais para porcaria nenhuma na sua vida, descobre-se que a desgraça da pessoa aspartame ainda lhe faz um mal danado: pode lhe causar doenças graves, estresse, depressão, raiva incontida, insônia; a lista é grande, meu amigo…!

Sendo assim, no momento em que se descobre que há uma pessoa aspartame em sua vida, elimine-a, sumariamente. Faça com que ela desapareça da sua frente o mais rápido possível, e troque-a, assim que puder, por algo muito melhor: uma pessoa doce de verdade, uma autêntica companheira, essencial em sua vida, o que é, cá entre nós, milhões de vezes mais gostoso.